Na primeira conferência de imprensa do ano em Nova Iorque, Guterres refletiu sobre o estado do mundo e criticou o facto do direito internacional estar a ser "espezinhado", da "lei do poder prevalecer sobre o poder da lei" e das divisões geopolíticas estarem a ser amplificadas por uma "epidemia de impunidade".
"As nossas estruturas e instituições devem refletir a complexidade – e a oportunidade – destes novos tempos e realidades. Os problemas globais não serão resolvidos por uma única potência a ditar as regras. Nem serão resolvidos por duas potências a dividir o mundo em esferas de influência rivais", afirmou.
Perante uma sala cheia de jornalistas de várias nacionalidades, incluindo da agência Lusa, António Guterres, que deixará o cargo de secretário-geral no final do ano, confessou tratar-se de um "momento especialmente significativo" para si, uma vez que é a sua "última oportunidade" para ter a "conversa habitual de início do ano" com a imprensa.
"Ainda estamos no começo, mas 2026 já se anuncia como um ano de caos e constantes surpresas. Antes de entrar para a vida pública, formei-me em física. E em tempos de profunda mudança, retorno a alguns dos princípios fixos que explicam como as forças atuam sobre o mundo", disse, destacando a Terceira Lei de Newton, em que "para toda a ação há uma reação igual e oposta".
"Na física, essa lei é um princípio estabilizador. Na geopolítica atual, ela é um fator desestabilizador. Vivemos num mundo onde ações – especialmente as imprudentes – provocam reações perigosas. E, diferentemente da física, essas reações não são simétricas nem previsíveis", observou, fazendo um paralelo com o estado do mundo.
O líder das Nações Unidas considerou que a impunidade está a impulsionar os conflitos atuais, alimentando a escalada e a desconfiança e abrindo caminho para que "poderosos sabotadores entrem por todos os lados".
Guterres, que encarou a crise climática como uma das prioridades de mandato, afirmou que as alterações climáticas são a ilustração mais literal e devastadora do princípio de Newton.
"Toda a ação que aquece o planeta desencadeia uma reação feroz: tempestades, incêndios florestais, furacões, secas, subida do nível do mar", apontou.
Referiu igualmente a tecnologia, setor onde "testemunhamos talvez a maior transferência de poder dos nossos tempos – não dos Governos para as pessoas, mas dos Governos para empresas privadas de tecnologia", disse.
Face a este cenário, o antigo primeiro-ministro português apelou à mudança, defendendo que as estruturas e instituições atuais devem refletir a complexidade e a realidades dos novos tempos.
"É importante acelerar, de forma deliberada e determinada, a multipolaridade – uma multipolaridade interconectada, inclusiva por natureza e capaz de criar equilíbrio através de parcerias. Parcerias no comércio, na tecnologia e na cooperação internacional", defendeu.
Mas para que a multipolaridade gere equilíbrio, prosperidade e paz, Guterres insistiu na necessidade de instituições multilaterais fortes, cuja legitimidade esteja enraizada na responsabilidade e em valores compartilhados.
Nestas declarações iniciais, António Guterres saiu em defesa das Nações Unidas, frisando que a organização trabalha diariamente para dar vida aos valores partilhados.
“Os valores importam e as pessoas estão a arriscar tudo para os tornar reais. Isto está em plena evidência em todo o mundo – seja um manifestante a enfrentar a repressão, um jornalista a defender a liberdade de imprensa ou um cidadão comum a defender o seu vizinho”, disse.
"Não vamos desistir", garantiu.
Apesar dos esforços de Guterres para tentar convencer o mundo de que a ONU é hoje mais vital do que nunca, a organização fundada após a Segunda Guerra Mundial tem na atualidade a sua influência desacreditada e o seu pleno funcionamento em risco devido aos cortes de financiamento de nações como os Estados Unidos, país que acolhe a sede da instituição, em Nova Iorque, e o seu maior doador.
No início do mês, o Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou a retirada dos Estados Unidos de 31 agências ligadas à ONU, medida que foi seguida por Israel, que também rompeu as relações com sete entidades da organização.
António Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido para um segundo mandato, que termina no final de 2026.
Guterres avisa que problemas globais não serão resolvidos por uma única potência
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que os problemas globais não serão resolvidos por “uma única potência a ditar as regras", numa conferência de imprensa em que anteviu 2026 como um ano "de constantes surpresas e caos"
Autor: Lusa/AO Online
