Pela primeira vez desde que a Escola de Música de Rabo de Peixe existe, a associação não recebeu qualquer apoio financeiro no âmbito do Regime Jurídico de Apoio às Atividades Culturais (RJAAC), atribuído pela Direção Regional da Cultura.
A notícia caiu como um balde de água fria sobre a direção que gere a escola e levanta preocupações sobre a continuidade de um projeto que, há 25 anos, tem sido mais do que um lugar onde se aprende música, mas também um espaço de acolhimento comunitário.
“Afeta-nos, naturalmente”, admite Lázaro Raposo, presidente da Escola de Música de Rabo de Peixe. “Sempre tivemos um papel de cariz social muito forte e uma grande parte dos nossos alunos frequenta a escola gratuitamente”, acrescenta.
A escola conta com mais de 50 alunos e estima que cerca de metade beneficie das aulas sem qualquer custo para as famílias. E são sobretudo esses jovens, muitos deles de contextos socioeconómicos mais vulneráveis, que podem vir a ser os mais prejudicados pela falta de financiamento.
A associação tornou pública a “profunda tristeza” que sente perante a decisão e denuncia que esta coloca em risco um dos princípios da escola: a possibilidade de frequentar de forma gratuita oficinas de instrumentos destinadas a crianças e jovens em situação de vulnerabilidade económica, social ou familiar.
Lázaro Raposo sublinha que a escola se tornou numa referência para a comunidade de Rabo de Peixe, que promove a formação musical, a inclusão social, o desenvolvimento pessoal e que, acima de tudo, cria oportunidades para estes jovens.
“Para muitos destes alunos, a escola é mais do que uma escola de música, é um espaço de pertença, de crescimento e de apoio”, confessa.
A direção diz que não conhece as razões que levaram à não aprovação da candidatura, mas adianta que está a analisar a situação e que pretende pedir esclarecimentos à Direção Regional da Cultura nos próximos dias.
Apesar da desilusão, a associação garante que não vai baixar os braços: “Nós não vamos ficar de braços cruzados, já começámos a trabalhar para encontrar alternativas e manter a escola aberta”, afirma o presidente.
Apoio junto das entidades locais
A Escola de Música de Rabo de Peixe já começou a procurar alternativas para compensar a falta do apoio regional. Uma das medidas passa por fazer reuniões com a Junta de Freguesia de Rabo de Peixe e com a Câmara Municipal da Ribeira Grande, a intenção é conseguir reforçar os apoios locais para o próximo ano letivo.
Segundo Lázaro Raposo, estas entidades já têm apoiado a escola ao longo dos anos, mas a situação obriga agora que a direção procure um reforço desse apoio. Por agora, o presidente assegura que o final deste ano letivo não está em causa e que todas as atividades previstas vão acontecer.
Esta decisão da Direção Regional da Cultura surge no ano em que a escola celebra 25 anos de existência, um marco que a direção esperava assinalar com várias iniciativas comemorativas.
Lázaro Raposo lamenta a decisão e considera que ela reflete uma visão da cultura que favorece projetos mais visíveis ou de cariz mais comercial, e que deixa para segundo plano iniciativas cujo impacto é sentido no dia a dia da comunidade longe dos grandes holofotes.
“Para haver cultura, é preciso também haver quem forme os músicos e os artistas. Esse trabalho é deixado muitas vezes para trás, mas é essencial”, defende.
Apesar da preocupação, o foco está em encontrar soluções: “Não vamos entrar numa espiral de lamentações. Arregaçámos as mangas logo que soubemos da decisão e estamos a trabalhar em várias frentes. Acredito que, no final, vamos encontrar uma solução”, conclui o presidente.
É assim que a Escola de Música de Rabo de Peixe procura resistir depois de ver a sua candidatura ao RJAAC ficar sem apoio.
