Açoriano Oriental
Bombeiros “muito apreensivos” com instabilidade política

Possibilidade de ausência de plano e orçamento “por quase um ano” e regime de duodécimos preocupa corporação de Ponta Delgada que ameaça “parar tudo”

Bombeiros “muito apreensivos” com instabilidade política

Autor: Paulo Faustino

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada (AHBVPD) assume estar “muito apreensiva” com a instabilidade política que se vive nos Açores e a possibilidade de serem necessárias novas eleições regionais, ameaçando “parar tudo” no dia em que faltar o dinheiro.

Segundo o presidente da corporação, a maior do arquipélago, a situação atual - no cenário de se prolongar a ausência de plano e orçamento da Região “por quase um ano” - coloca em causa a sua sustentabilidade e sobrevivência, assim como da generalidade das associações de bombeiros açorianas.

“Nada está fora de questão. No dia em que faltarem as verbas para pagar os vencimentos dos bombeiros, no dia em que por ausência de investimento público, aguardado há muito tempo, quer na aquisição de ambulâncias, quer na aquisição de viaturas de combate a incêndios, quer mesmo na realização de obras inadiáveis e imprescindíveis no quartel, como é o caso da substituição dos geradores do posto de transformação da EDA (com mais de 25 anos de existência e completamente obsoletos, sendo necessário um investimento direto de cerca de 80.000,00 €), não temos qualquer dúvida que nessa altura iremos parar tudo; parar tudo”, diz João Paulo Medeiros, frisando que “nenhuma ação está colocada de parte”.

O líder associativo elenca a lista de problemas que surgirão na AHBVPD com uma possível nova crise política: investimentos suspensos, salários em risco e carreiras congeladas e sem perspetivas de resolução. Neste caso, devido à não aprovação do Orçamento da Região para 2024, as tabelas salariais dos bombeiros açorianos não foram atualizadas, fazendo com que os seus vencimentos, na carreira base, estejam apenas um euro acima do salário mínimo regional (862 euros quando o SMR é de 861 euros). “Isso faz sentido para alguém?”, questiona.

Para João Paulo Medeiros, “é impensável e não se percebe como é que os políticos da nossa terra colocam sequer essa hipótese”. Ou seja, a não aprovação dos documentos fundamentais no Parlamento que levaria, de novo, a um orçamento em regime de duodécimos nos Açores. Indo por esse caminho - faz notar - ignoram “os apelos das instituições, das famílias, das empresas, das associações como a AHBVPD, que dependem muito, não em exclusivo, mas em grande parte, de investimentos públicos e de pagamentos do setor público, para cumprirem com a sua missão de socorro e proteção de pessoas e bens”.

Na sua perspetiva, não é viável que organismos públicos da esfera governamental, como é o caso - além das associações humanitárias - de hospitais, centros de saúde e do próprio Fundo de Coesão (que procede ao reembolso dos apoios ao combustível), consigam pagar aos seus fornecedores vivendo mensalmente, durante quase um ano, em duodécimos. “Isso cabe na cabeça de algum decisor político? Há necessidade de coerência, de valorização do bem público e não dos egos de cada um e de jogadas políticas que ignoram a sociedade e os apelos desta. Isto são políticos que não servem o propósito da política e, como tal, não são merecedores do voto democrático do povo”, ressalva.
Os ‘soldados da paz’ garantem que estão atentos ao que se passa e aos desenvolvimentos nas próximas semanas porque, na verdade, “tudo está em aberto” e não excluem nenhuma forma de luta, de sensibilização e de alerta junto dos políticos. Num espírito de “conjunto” e “em força”.

Daí que insistam nos reparos: “é preciso que tenham noção da realidade e se deixem de demagogias e utopias, como a imposição, de um dia para o outro, por exemplo, do endividamento zero. Isso é impossível de acontecer e só prejudica a capacidade de realização de investimentos produtivos, com apoios comunitários, por exemplo, ou então à custa da retenção e atraso de pagamentos aos fornecedores”.

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