Luís Godinho nasceu na ilha Terceira e cresceu “numa família muito grande. A minha avó materna teve 16 filhos e fui criado pela família da minha mãe, porque era perto do trabalho dos meus pais, a escola era lá. Então ficava em casa da minha avó”. Passou a infância rodeado de “muita gente”, contudo, “segundo os meus pais, já era uma criança que gostava de estar sozinho, um bocadinho como sou hoje em dia”, confessa-nos.
Nos momentos em que ficava mais sozinho gostava de ver os álbuns da “minha avó, dos meus tios... a fotografia veio daí, de ver os álbuns e perceber como é que aquilo acontecia, como era possível congelar um momento”. Numa viagem ao passado, Luís Godinho recorda: “um tio meu gostava de fotografia e tinha uma máquina relativamente boa. Às vezes, ele emprestava-a, outras vezes pegávamos nela sem ele saber e tirávamos umas fotos”, completando que “essa magia andava sempre em mim, mas não tínhamos a possibilidade de ter câmaras fotográficas”. A sua primeira câmara fotográfica foi conseguida através de “uma casa de fotografia na Terceira que estava a fazer uma promoção por altura das Sanjoaninas. As primeiras 15 pessoas que fossem revelar um rolo tinham direito a uma câmara fotográfica. Fui às 5 e tal da manhã para a loja para ser dos primeiros”.
Sendo a fotografia a sua grande paixão, perguntámos porque não seguiu a área quando chegou a altura da universidade. Luís Godinho explica que, primeiro “nem sabia que havia formação em fotografia”, depois “os meus pais não tiveram possibilidades para que fosse estudar para fora dos Açores, e disseram-me: ‘se quiseres estudar cá, fazemos um esforço’”. Recorda que o pai teve que ter mais do que um emprego e “eu também ia trabalhar”.
Luís Godinho foi para a Universidade dos Açores onde se licenciou em Engenharia do Ambiente. Escolheu esta área porque gostava “um pouco por causa do meu pai, porque nós caçávamos, pescávamos, andávamos muito a pé pelas paisagens e acabei por ficar muito apaixonado e não me arrependo”, frisando que “foi o caminho que teve que ser tomado”.
Terminada a licenciatura, “arranjei emprego em engenharia e coletei-me como fotógrafo, até que, passados oito anos, despedi-me para viver exclusivamente a fotografia”. Lembra que foi uma “decisão difícil”. Um dos seus livros, ‘Mudança’, fala precisamente sobre as três viagens que o inspiraram na sua decisão, nomeadamente ao Senegal, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. “Na verdade, estava um bocadinho a morrer por dentro, porque queria muito seguir a fotografia”, confessando que a decisão tardou um pouco “pelo respeito e pelo medo também dos meus pais, pelo sacrifício todo que eles fizeram. Não queria ser ingrato... foi muito difícil eles entenderem. Hoje em dia são os meus maiores fãs (...)”, afirma.
Pediu uma licença sem vencimento e foi para o Senegal fotografar uma missão humanitária. “Ai encontrei muitas das respostas que precisava”.
Seis meses depois foi para a Guiné e “veio a confirmação daquilo que queria”. Logo a seguir “venci o Sony Photography Awards”. Era, pois, a vida a “dar-me respostas e eu com medo de tomar as decisões”. Curiosamente, “acabei por me despedir no dia que morreu um dos meus ídolos, o meu avô, e no mesmo dia em que a minha cidade de Angra condecorou-me com a medalha de mérito cultural por ter vencido aquele prémio”.
A sua passagem pela engenharia foi importante para a sua construção como homem, até porque “estamos sempre em constante construção, aprendizagem com o outro... só tenho pena de não ter sido mais cedo. Se calhar, porque estou a viver momentos bonitos na fotografia...”.
Reconhecido nacionalmente e internacionalmente pelo seu trabalho, Luís Godinho já percorreu diversos países, alguns em guerras que nunca terminam. Quisemos saber quais as viagens que mais o marcaram. Disse-nos que era uma resposta difícil. Porquê? “Porque, na verdade, todas marcaram de formas diferentes... mas nesta profissão temos que saber aceitar aquilo que a vida nos dar... quando vou fotografar gosto de ser a voz de quem não a tem”. Em todas as viagens e em cada fotografia que tira há uma história. Luís Godinho relata-nos esta: “Lembro-me que na República Centro-Africana fui fazer um trabalho para as Nações Unidas, para o contingente português. O trabalho, em si, não era difícil, era fotografar a missão deles, mas acabamos por ir - por insistência minha e de um repórter da SIC - fotografar o hospital com crianças que eram violadas pelos grupos armados. Isto marcou-me muito”. Aquele dia estará sempre na sua memória: “chegamos à base militar, ‘atiramos’ as câmaras para um canto e ficarmos sem qualquer reação ou ação. Foi bastante doloroso”.
Uma outra história que nos conta, foi na sua segunda vez que viajou para Cabo Delgado, num trabalho com a Helpo (ONG portuguesa), “como tinha havido ataques, era preciso identificar onde é que as crianças andavam, e muitas procuravam refúgio na escola, mas encontrámos algumas a mil quilómetros de casa, sozinhas”. E, “dada a fase em que estava na minha vida pessoal, foi muito difícil, chorava todos os dias... Cada criança que encontrámos tinha uma história diferente. Uma tinha perdido os pais, a outra tinha a irmã que era escrava sexual... Era muita dor, muito sofrimento. Por mais frieza que queiramos ter, é impossível separar”. Cada fotografia que depois via, “as lágrimas corriam...”. Em Moçambique, “fotografei uma lixeira onde as crianças vivem no lixo... foi muito difícil...”.
Trabalhos difíceis a nível emocional, mas também perigosos, porém, diz que “não se pensa muito nisso. Temos o nosso mecanismo de defesa e acho que, quem vive como eu, quer contar a história para que as pessoas percebam que vivemos num mundo tão bonito e todos os dias desvalorizamos. Temos que estar gratos pelo local onde vivemos, aceitar melhor aquilo que a vida tem para nos dar”, sublinhando que “tenho transportado isso para a minha vida, para as minhas exposições, para os meus livros, de forma a poder inspirar as pessoas a serem melhores. Acho que as fotografias têm ainda esse impacto”.
É precisamente um olhar diferente para a vida que Luís Godinho traz das suas viagens, afirmando que “agora que tenho um filho pequeno, faz-me pensar de forma diferente sobre algumas coisas - fotografar agora crianças fica um bocadinho mais difícil, porque penso no meu...”. Diz que “não há impossíveis, já fotografei meio mundo, já ganhei prémios como outros já ganharam, mas os sonhos são para serem visíveis”. Por isso, “as reportagens, as exposições, os livros que faço faz-me querer viver mais ainda, mas também perceber que vivo num cantinho do céu”.
Afirma que a câmara é “como se fosse a extensão do meu corpo”, e nas suas fotografias, não usa “lentes com zoom, tenho que fotografar muito próximo das pessoas e isso cria alguma intimidade. Às vezes ficamos com aquele nervoso miudinho, mas leva-nos para outra dimensão da fotografia”. E o que é que vê por detrás da lente que, se calhar, muitos de nós não vemos? “Não sei. De uma forma geral, onde toda a gente está, é onde eu não quero estar. Porque se estiver onde toda a gente está, vou ser mais um igual aos outros. Se procurar alguma coisa fora, vou ser diferenciado e quando somos diferenciados as pessoas olham também de uma forma diferente. Isso cria um impacto gigante em quem olha”.
