José Guilherme Reis Leite, presidente do parlamento açoriano entre 1984 e 1991, referiu, em entrevista à agência Lusa, que a autonomia política e administrativa dos Açores “foi chocada pelo PSD” e “principalmente pelas linhas que foram delineadas por Mota Amaral”.
A 26 de junho de 1980, os Açores viram aprovado o seu Estatuto Político-Administrativo, pela Assembleia da República, tendo por base o regime autonómico, uma pretensão secular dos açorianos. As primeiras eleições para a Assembleia Regional dos Açores realizaram-se há 50 anos, a 27 de junho de 1976.
De acordo com o histórico do PSD/Açores, a autonomia “acabou por ser um safanão numa certa letargia política em que o 25 de Abril tinha caído” nos Açores - “foi aceite pela esmagadora maioria dos açorianos e consagrada nas eleições para a [Assembleia] Constituinte”.
Reis Leite, que também é historiador e investigador, considera que “as raízes mais antigas e profundas da autonomia” residem no facto de os Açores “enfrentarem durante muito tempo, praticamente durante a sua história, o centralismo”.
“Principalmente no princípio do século XX, registou-se um manifesto desprezo para com as ilhas e população açoriana”, referiu.
Depois do 25 de Abril, que “trouxe grandes vantagens e entusiasmos”, os Açores “atravessaram um problema muito complicado de divergências políticas e ideológicas”. As autoridades administrativas escolhidas para governar a política do arquipélago, salientou, “enveredaram por uma situação de subordinação a soluções centralistas, de índole marxista, que os açorianos não aceitaram”.
Para o antigo presidente da Assembleia dos Açores, “não há projetos políticos acabados, mas [este] foi realizado”, sendo que a Constituição de 1976 “recolheu, de uma forma geral, o programa que os autonomistas tinham delineado”.
Contudo, ressalvou, “havia correntes contra a realização de um governo político autónomo para a região” e “quem achasse que os Açores continuariam dominados pelo centralismo, e que optavam por uma solução separatista de Portugal”.
“O que venceu foi uma proposta de autonomia política, com governo próprio e o parlamento que legislasse para a região”, vincou.
Reis Leite não hesitou em referir que, hoje, “a qualidade de vida dos açorianos nada tem a ver com os Açores antes da autonomia democrática e constitucional”, mas admitiu que quem já nasceu no novo regime “pode cair na ilusão de que outra solução seria melhor”.
Na sua perspetiva, sete revisões constitucionais passadas “desbloquearam alguns travões que a própria Constituição tinha consagrado, nomeadamente dos fundamentos e progresso da autonomia política para os Açores”, o que “é incontestável”.
Federalista para Portugal e para a Europa, gostaria que a Constituição “caminhasse nesse sentido”, um “sonho que não se deve concretizar” pelo menos durante a sua vida, na sua convicção.
Aos 82 anos, considera ainda que “vai ser inevitável uma revisão constitucional mais cedo ou mais tarde”, mas não vê que “no clima político que se vive hoje ela seja realizável”.
Na sua opinião, “continuar o êxito da autonomia depende essencialmente que os açorianos se continuem a entender entre si e não tentem, por divergências internas, julgar que outras soluções de índole centralista melhoram os Açores”.
“É [um] erro crasso e que teria consequências desastrosas para os Açores”, ressalvou.
Além de presidente do parlamento dos Açores, Reis Leite foi deputado regional, secretário regional e deputado à Assembleia da República, bem como um alto dirigente do PSD/Açores ao lado de Mota Amaral, o primeiro presidente do Governo Regional.
