Informação é poder. E é isso que este novo gabinete quer dar a quem procura fazer uma Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG). O serviço é gratuito e nasce de uma colaboração entre a Associação para o Planeamento Familiar (APF Açores) e a UMAR Açores - Associação para a Igualdade e Direitos das Mulheres.
Este gabinete não é um espaço clínico, não realiza efetivamente a IVG, mas quer ser o ponto de partida para uma escolha informada e consciente. É um gabinete de apoio, onde o objetivo é esclarecer dúvidas, dar a conhecer a legislação e acompanhar quem está a passar por este momento. Quem o procurar vai poder contar com apoio emocional, mas também prático, para lidar com a sua decisão e perceber quais os próximos passos.
“O objetivo é que ninguém passe por isto sem informação e sem apoio”, explica Joana Amen, psicóloga na APF Açores.
A ideia é combater o desconhecimento, o isolamento e o sofrimento que ainda envolvem a IVG. Há dúvidas que ainda são recorrentes: até quantas semanas é possível fazer a interrupção? Como funciona o processo no Serviço Regional de Saúde? Quais os passos a seguir? Ou o que acontece quando a pessoa é menor de idade?
O gabinete tem estas respostas e quer dar a conhecer todas elas. Sem pressa, sem burocracia e, acima de tudo, sem julgamento.
Este apoio não existe apenas nas ilhas onde estas associações estão presentes fisicamente, com um espaço aberto, como em São Miguel, Terceira ou Faial. Qualquer pessoa de qualquer ilha, do Corvo a Santa Maria, pode recorrer ao serviço. Para isso, basta contactar estas associações através das redes sociais ou por telefone. Depois, o processo é orientado por profissionais, nomeadamente psicólogas. Primeiro uma consulta online para avaliar a situação, depois é pensar caso a caso.
Pessoas menores também podem recorrer a este apoio. Um dos pilares do gabinete é precisamente a confidencialidade. Muitas dúvidas surgem num contexto de medo da exposição, sobretudo em meios mais pequenos onde parece que “toda a gente se conhece”. Neste gabinete vão querer ouvir, mas nunca expor.
No caso de menores de idade, esta consulta também serve para esclarecer o enquadramento legal e explicar os passos necessários. Qualquer jovem pode procurar informação e apoio, mesmo antes de envolver os pais ou os responsáveis. O objetivo é que ninguém fique sem respostas num momento de fragilidade, em que muitas vezes parece que se corre contra os dias, contra as semanas e contra o tempo. Onde um único dia pode fazer a diferença.
Por tudo isso, procurar ajuda torna-se necessário. Sobretudo em ilhas mais pequenas, em que é preciso viajar para tomar um comprimido. O gabinete funciona à distância, através de contactos telefónicos e acompanhamento online, para que a orientação possa acontecer em qualquer ilha e para que as pessoas sejam depois encaminhadas para o serviço de saúde adequado.
Este gabinete não é só um ponto de informação, é um espaço de direitos. Um espaço para descomplicar a linguagem, descomplicar o acesso aos cuidados de saúde e apoiar quem está neste processo.
Importa também desmistificar a IVG. Esta não é uma decisão tomada de ânimo leve, não é uma questão de “ter mais cuidado” ou “ter mais responsabilidade”. “Não há nada de leviano nesta decisão”, sublinha Maria José Raposo, presidente da UMAR Açores. “Muitas vezes há questões de saúde, emocionais, económicas ou situações em que os métodos contracetivos falharam”, acrescenta.
E como acontece tantas vezes quando se fala de direitos reprodutivos, há sempre quem questione a decisão da mulher, e se esqueça de que “nenhuma mulher engravida sozinha”, lembra a presidente.
