“Quero envelhecer com sabedoria e morrer com dignidade”

Wellington Nascimento. Nasceu no Brasil e chegou a Portugal nos anos 90 através da música. Apaixonou-se pelos Açores em 97 e cá descobriu a viola da terra, instrumento que marca o seu percurso académico, numa altura em que teve de reinventar-se quando a música começou a perder espaço nos bares açorianos




Nascido em Carpina e criado em Goiana, Wellington Nascimento encontrou na música, não apenas uma profissão, mas um caminho de vida. Falar da sua infância é falar de música. Filho de militar, cresceu numa família sem tradição musical, mas rodeado de instrumentos proporcionados pelo pai: “Não tem ninguém na minha família que seja músico. Só eu e meu irmão, o Maninho, que também vive cá. Talvez por isso, tomei gosto pela música e muito cedo comecei a estudar violão”, conta-nos. Foi nessa altura que iniciou uma relação profunda com a música. Por isso, afirma que “a música salvou a minha vida e, quando vim para Portugal, encarei a música como profissional”.

A sua vinda para Portugal acontece em meados dos anos 90, porque um amigo de infância, Rosildo Oliveira, “preparava o lançamento de um disco em Portugal e precisava de músicos para formar banda”. Primeiro convidou o irmão de Wellington,  Maninho, e depois “chamou-me para integrar o projeto como guitarrista” e estiveram em digressão quase dois anos. Depois “o Rosildo regressou ao Brasil, mas eu e o meu irmão decidimos permanecer em Portugal”, disse-nos. É também através da música que chega aos Açores. Recorda que o convite partiu de Carlos Presunça (já falecido), proprietário do antigo Xantarix, que viu-o atuar em Lisboa e convidou-o para tocar em Ponta Delgada, durante um mês. “Quando cheguei, apaixonei-me”, confessa-nos, explicando que, na ocasião, morava em Lisboa, “no início do Lumiar, mas mesmo assim, sentia a falta do mar, porque a minha cidade do Brasil é no litoral. Antes, tinha morado em Almeirim, e aí sentia-me ilhado por terra. Quando cheguei aqui vi mar em todos os lados e pensei: ‘É aqui que vou viver’”. 

Passado pouco tempo, o irmão juntou-se a ele. Depois veio a mulher, e quase 30 anos depois, Wellington Nascimento continua nos Açores. Foi cá que criou novas raízes e foi cá que conheceu uma nova paixão, a viola da terra. O primeiro contacto aconteceu em 1997, através do amigo Mário António. “Achei muito interessante, porque a viola da terra possui parcelas com três cordas e a viola nordestina, do Brasil, também tem uma parcela de três cordas. Ele emprestou-me essa viola, aprendi a tocar com alguma facilidade, porque a afinação não é muito diferente da afinação do violão e apaixonei-me pela viola da terra”. 

Licenciado em História, no Brasil, a curiosidade de Wellington Nascimento levou-o à investigação da viola da terra. O seu interesse cresceu, quando, por volta de 2003/04, o panorama musical açoriano começou a mudar. Conta-nos que “os bares tinham música ao vivo todos os dias e passei 10 anos vivendo como músico e, vivia com dignidade”. Mas, começaram a aparecer os “karaokes, os Dj e os bares começaram a diminuir a música ao vivo e fiquei num dilema...”. 

Foi nesse momento que decidiu reinventar-se: “fui para a Universidade dos Açores tirar a minha equivalência do curso. (...) Entrei no mundo da investigação, fiz uma tese de mestrado sobre a viola da terra e estou agora terminando a tese do doutoramento, também, sobre a viola da terra. Foi assim que nasceu esse amor e esse interesse pela viola da terra”, frisou. 

Para o investigador, a viola da terra é muito mais ampla e diversa. Adianta que “cada ilha tem uma especificidade, ocupa um espaço diferenciado. E o meu grande trabalho é mostrar que, neste momento, a viola da terra não é só aquilo de que falam - o coraçãozinho… Não, a viola da terra é algo muito maior e realmente une as pessoas”, sublinhou. Mais do que um instrumento musical, considera a viola da terra “o símbolo da identidade açoriana. A viola da terra está ligada ao sentimento açoriano”, defende. “Fiz um levantamento com quase 350 tocadores de viola da terra, em todo o arquipélago, e sem exagerar, em cada cinco entrevistas, um deles chorava”.

Wellington Nascimento é autor do Caderno de Especificações Técnicas da certificação das Violas da Terra e, curiosamente, o seu trabalho na Direção Regional da Cultura permitiu-o aprofundar, ainda mais, o seu conhecimento pela viola da terra.

Recorde-se que o processo de candidatura da viola da terra a Património Cultural e Imaterial está em fase de preparação pelo Governo Regional dos Açores. O investigador explica que estas são “candidaturas complexas, têm critérios muito rígidos”. Em 2023, “montamos uma equipa e tive a oportunidade de percorrer todas as ilhas e recolher testemunhos, fotografias e documentação. Tenho o maior acervo bibliográfico e digital da viola da terra”. Ora, o primeiro passo para esse processo de candidatura centrou-se nos saberes e práticas de tocar e o passo seguinte será o levantamento dos construtores e das técnicas utilizadas no fabrico da viola da terra. Segundo o Wellington Nascimento, pelo que tem observado, muitos construtores continuam a utilizar métodos antigos e materiais específicos dos Açores.

Apesar da investigação ocupar grande parte do seu tempo, continua ligado à criação artística. Recentemente participou no espetáculo “Quando o Mar Galgou a Terra e algumas considerações”, de Eleonora Marinho Duarte, onde contribuiu musicalmente com a viola da terra. Ao longo esse tempo tocou com vários músicos açorianos, mantendo uma presença constante na vida cultural açoriana.

Se voltasse atrás no tempo, “faria a mesma coisa”, porque “quando vim para cá pensava numa vida artística - que consegui durante muitos anos – mas me reinventei e estou muito satisfeito. Gosto muito do que faço - e isso é importante”. Por isso, diz que não se arrepende de ter deixado o Brasil, contudo, em jeito de reflexão, afirma que “o imigrante, independente da sua condição socioeconómica, dos motivos que o faz deixar o seu país,  nunca é fácil, porque o imigrante, torna-se um apátrida. No Brasil, sou português, no continente português sou açoriano e aqui sou eternamente brasileiro. Então, se for pela opinião dos outros, eu não sei o que eu sou... mas sei quem sou...(…)  Valeu a pena e faria tudo de novo porque sempre tive vontade de conhecer um pedacinho mais do mundo”. 

Questionado sobre o que gostava ainda de fazer, Wellington Nascimento responde: “Isso é uma pergunta muito séria... Não tenho nada hoje que eu queira fazer que nunca tenha feito. (...) Quero envelhecer com sabedoria e morrer com dignidade”.

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Greve geral

O Governo Regional dos Açores esclareceu que “não fixou quaisquer serviços mínimos” no dia da greve geral, ao contrário do que foi referido pela Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais (FNSTFPS)