‘We build our language with rocks’ inaugura hoje na vaga

A mostra reúne trabalhos do CARA LAVADA, Carla Filipe, Coletivo NÖIA, Joana Franco e Paula Mota, e ainda documentos da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada/Arquivo Mota Amaral



O espaço vaga, sede da Anda&Fala - Associação Cultural, em Ponta Delgada, inaugura esta sexta-feira (22 maio) pelas 21h00, a exposição coletiva ‘We build our language with rocks’.

Com curadoria da vaga, a mostra reúne trabalhos do CARA LAVADA, Carla Filipe, Coletivo NÖIA, Joana Franco e Paula Mota, e ainda documentos da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada/Arquivo João Bosco Mota Amaral.

O ponto de partida para a exposição teve em conta os 50 anos de autonomia, que se celebram este ano, e “fazia-nos sentido olhar para ela, ao mesmo tempo em que Ponta Delgada é Capital Portuguesa da Cultura e a ideia do ‘Lugar da Amanhã’”. Estamos a olhar para trás, a celebrar um acontecimento, um processo, um caminho. Mas, por outro lado, também estamos a tentar olhar para a frente, até imaginar o que é que é-se ‘Amanhã’”, afirmou Jesse James, fundador e diretor artístico da Anda&Fala.

Por outro lado, refere que a “questão da autonomia tem sido um conceito, uma palavra, uma postura muito importante para nós, dentro da Anda&Fala, como metodologia de trabalho. Ou seja, como é que nós, enquanto equipa, podemos ter autonomia como forma de alavancar as nossas dinâmicas”.

Numa visita guiada pelos diferentes espaços da exposição, Jesse James, explicou que decidiram “desafiar artistas açorianos ou que vivem na região, de gerações muito distintas e conseguimos juntar todos esses trabalhos que apontam para as ideias de autonomia, mas a autonomia a partir de uma ideia de linguagem, de sotaque, de gesto e como isso nos pode indicar caminhos sobre o que é que podem ser esses lugares de interdependência”.

We build our language with rocks (‘Construímos a nossa linguagem com rochas’) é uma “expressão de Édouard Glissant, um filósofo de Martinica, que gostamos muito e é daí que vem o nome da exposição e acho que o título traduz muito essa expressão”. Ou seja, “construímos a nossa linguagem enquanto açorianos a partir desta terra, ou do que tiramos ou do que conseguimos construir a partir da terra. É ela que informa o nosso sotaque. São esses ritmos que temos nas palavras, nas frases e no diálogo, que vêm do lugar e esse lugar tem uma inteligência, que vem do clima, que vem das outras espécies, e vamos aprendendo com tudo isto”, disse.

Alguns dos artistas conversaram com o Açoriano Oriental, dando a conhecer as peças que estarão patentes até ao final de agosto. Desta forma, o Coletivo NÖIA apresenta uma instalação intitulada ‘Topologia para uma Escuta Pós-Orgânica’.  Ana Cabral explica que o público entra num espaço circular “envolvido por um tecido translúcido, quase como uma membrana ou uma bolha, que cria um ambiente simultaneamente imersivo, laboratorial e orgânico”.

No interior, há uma “estrutura suspensa, inspirada nos ramos de um chorão, da qual descem cabos que reagem ao toque e à proximidade de quem visita, produzindo sons industriais e mecânicos sobre um fundo de paisagem sonoro-orgânica”.

A instalação torna-se, assim, “num sistema sensível, onde sons, vibrações e presenças se acumulam e se transformam continuamente”.

Ao Coletivo NÖIA interessa “observar como o público habita o espaço, como constrói as relações de escuta e como se posiciona perante este ecossistema híbrido, onde tudo opera por dependência e contaminação mútua”.

Joana Franco apresenta duas esculturas e um vídeo com o título ‘A minha terceira perna e um braço’.

A artista explica que as esculturas são corpos que “fiz a partir do meu, desenhando diretamente, ou seja, deitando-me no material, neste caso a madeira, e desenhando e delimitando a minha forma nela, que depois foi recortada. Depois estiquei tecido, como se fosse uma tela à volta dos corpos, que pintei só com água e pigmento, porque não gosto de fixar demasiado os meus materiais e tenho alguma resistência à tinta e o pigmento é algo que se entranha no tecido”.

O vídeo “acaba por ser um estudo, porque é algo novo”, mas também uma documentação do seu processo de descobrir “certas tensões e resistências que sinto no dia-a-dia, que passam por coisas simples, como por exemplo, há dias com resistência a sair de casa e ir comprar pão, como há dias em que não me quero levantar e ir ao ateliê ou mesmo estando no ateliê, às vezes, sentimos vontade de fazer, mas o corpo não responde”, disse, para acrescentar que “tenho estado com essa sensação, que acaba por ser uma sensação física e, exploro-a no vídeo, a partir destas resistências somáticas que vou sentindo”.

A artista referiu ainda que as peças acabam “por ser um bocadinho sobre isso, porque são formas muito rígidas, apesar de serem corpos, são madeira e são bastante bidimensionais”.

Para além disso, também são “formas de me ver fora de mim e ter uma perspetiva, de mim, sem ter em conta a minha visão de primeira pessoa, e conseguir ver-me como o outro me vê”.

Refere que “o título acaba por ser bastante descritivo do conceito e o braço sustenta-se, o braço procura fazer o que as pernas não conseguem”.

A sua expectativa é continuar a trabalhar e “desenvolver as minhas ideias e aprender e, também, tenho muita curiosidade em ver o comportamento das pessoas ao estarem com as peças, porque gosto quando há reações físicas”, afirmou, salientando que “como trabalho com o corpo e certas poses, às vezes, as pessoas tentam copiar as poses ou tentam replicar as sombras que as peças fazem e isso dá-me bastante alegria”.

CARA LAVADA apresentam uma peça criada este ano chamada ‘Atlas Açórico’. Esta peça, que assume a forma de um mural, “acaba por ser também especulativa, mas que parte muito da história dos Açores e do seu contexto, para criar uma espécie de cartografia afetiva que, não só é  geográfica, mas também humana”, afirmou António Neves Silva.
Acrescentou que “utilizamos a confabulação para criar uma espécie de mitologia popular que resgata vários pontos desta cultura popular açoriana, para criar uma espécie de possibilidades de ligações futuras e, até vemos isto, quase como uma Pangeia por vir”.

O artista do CARALAVADA afirmou ainda que “para isso, o mar acaba por assumir uma posição central, não como obstáculo, mas principalmente, como matéria que liga estas geografias e  que detém toda a história que aconteceu nos Açores e durante esses processos migratórios”.

CARA LAVADA pretendem criar um ponto de reflexão, para que, “tal como está escrito no nosso mural, voltarmos a aprender a ser periféricos, não de uma forma imposta pelas narrativas, especialmente das grandes potências e dos países ocidentais, mas através de uma realidade que é situada geograficamente, que é popular, que parte das pessoas e que ambiciona juntá-las, através da partilha, destes afetos que nos aproximam”, referiu António  Neves Silva.

Os visitantes poderão também ver os trabalhos de Carla Filipe, que desenvolveu há uns anos um projeto para o Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, partindo de  imagens e de uma investigação que fez sobre o papel da mulher no pós-25 de Abril nos Açores.

De acordo com Jesse James, Paula Mota, “inspira-se muito nos registos açorianos do Santo Cristo, que são esses espaços que tentam, registar histórias, relações, situações, fábulas, de alguma forma, às vezes, existe uma certa mitologia naqueles objetos que ela transporta para a pintura e que vão estar aqui, que é uma maneira de mostrarmos a complexidade da nossa linguagem. Mesmo aquilo que nós entendemos como tradição, é uma coisa que tem muitas camadas, tem muitas dimensões”.

Resgatamos uns objetos da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, como por exemplo “uma troca de correspondência entre  Natália Correia e Mota Amaral, para o hino dos Açores, e decidimos trazer para a exposição, que é o momento mais claro ou mais direto dessa  ideia de autonomia”, finalizou Jesse James.

Saliente-se que ainda esta sexta-feira, entre as 22h30 e as 00h30, a DJ açoriana ASCA apresenta-se na vaga com um conjunto de ritmos versáteis, entre a eletrónica, o tech house, o latino mix, a guaracha, o hyperpop e o altfunk, para um final de noite em grande.

Entretanto e até ao dia 29 de agosto, a exposição expande-se através de um programa paralelo que inclui workshops, oficinas para famílias, momentos de encontro, caminhadas, apresentações e conversas.

Este mês decorrem duas atividades, um workshop no dia 28 e no dia 30,tem lugar a oficina ‘Mapas do meu mundo’.

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