Cooperativas de laticínios de São Jorge com dificuldades em escoar queijo

As cooperativas de laticínios de São Jorge, Açores, estão a atravessar dificuldades na venda do famoso queijo da ilha, em parte devido ao aumento da produção de leite, mas também devido à crise provocada pela guerra no Médio Oriente



“Infelizmente, quando surge uma crise, o queijo de São Jorge, que é um queijo mais caro, é aquele que sofre logo de início a redução de vendas e estamos a sentir isso, neste momento, na pele”, desabafou o vice-presidente da Lactaçores, António Aguiar, ouvido na Comissão de Economia da Assembleia Regional, reunida em Ponta Delgada.

O administrador, que é também presidente da Uniqueijo (União das Cooperativas Agrícolas de Laticínios de São Jorge), foi ouvido pelos deputados a propósito de uma proposta apresentada pelo CDS, que defende a criação de incentivos à produção de gado de carne como forma de reduzir o aumento da produção de leite na ilha.

“Neste momento, nós já estamos a restringir a entrada de leite nas cooperativas”, explicou António Aguiar, acrescentando que, na cooperativa da Finisterra, a orientação é para “reduzir as produções”, ao passo que nas cooperativas dos Lourais, Beira e Norte Pequeno, a indicação dada aos produtores é para “não ultrapassarem os montantes do ano passado”.

Segundo o presidente da Uniqueijo, além do aumento na produção de leite na ilha, que já ultrapassa os 31 milhões de litros de leite por ano, as cooperativas estão também a ter dificuldade em vender o queijo nos mercados internacionais, como Estados Unidos e Canadá, devido aos efeitos da crise provocada pela guerra no Médio Oriente.

“Além do aumento de produção, neste momento, por causa do que se está a passar no mundo, estamos a ter muitas dificuldades e temos ‘stocks’ bastante elevados de queijo em São Jorge”, advertiu o administrador, acrescentando que é necessário adotar medidas “conjunturais” para evitar a desvalorização do produto e a eventual perda de rendimento dos produtores.

O CDS-PP propôs a atribuição de prémios às vacas aleitantes (gado de carne) para resolver este problema, mas a maioria dos partidos com assento na Comissão de Economia do parlamento açoriano duvidam que esta seja a solução correta.

“Não entende que aqueles critérios específicos, de maneira como estão apresentados, geram uma discriminação negativa face a outros produtores da ilha de São Jorge, desde logo, e face a outros produtores dos Açores, em geral?”, questionou Pedro Ferreira, deputado da Iniciativa Liberal, durante a audição parlamentar.

Também Isabel Teixeira, deputada do PS, eleita por São Jorge, alerta para os riscos que a proposta do CDS pode provocar, nomeadamente, “colocando em perigo” a produção de leite na ilha: “num ano, subsidia-se a produção, para que entreguem mais leite, e no outro ano vamos pedir para subsidiar, para entregarem menos leite”.

Já Francisco Lima, deputado do Chega, considera que produzir leite e depois não vender o queijo “é um desastre” económico para a ilha de São Jorge, acrescentando que “é preferível resolver o problema a montante, restringindo a produção, do que a jusante, com os custos inerentes à industrialização”.

Paulo Silveira, do PSD, lembrou que há outro investimento a decorrer na ilha de São Jorge, que é a construção de um novo matadouro, que vai também obrigar os produtores da ilha a redirecionarem a sua produção para o gado de carne.

“Há agora espaço e condições de alavancar o setor da carne em São Jorge porque estamos a efetuar a construção de um matadouro de mais de 13 milhões de euros, que está em execução, para valorização da nossa economia”, lembrou o parlamentar social-democrata, também eleito por São Jorge.

O deputado do CDS, Luís Silveira, que apresentou a proposta de criação de incentivos à produção de carne em São Jorge, não esteve presente nesta audição, por se encontrar em viagem.

Nesta altura, há mais de 200 produtores de leite na ilha de São Jorge que entregam o leite das suas explorações agrícolas em quatro cooperativas de laticínios para a produção do famoso queijo de São Jorge.


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