Açoriano Oriental
Tratar com acordes musicais

MusicoterapiAçores é o projeto de Marisa Raposo, Letícia Dionízio e Melissa Vieira que, durante o período de isolamento social, organizaram conversas online sobre as diversas áreas de intervenção da musicoterapia.



Autor: Tatiana Ourique /AO Online

 Melissa Vieira, natural da Praia da Vitória, é a terceira musicoterapeuta do projeto MusicoterapiAçores. Juntou-se às micaelenses Marisa Raposo e Letícia Dionizio no projeto e trouxe a musicoterapia para a ilha Terceira.

 Atualmente apenas duas ilhas têm a terapia que atua em diversas patologias e em todas as idades: “A Musicoterapia consiste num processo interpessoal, direcionado para objetivos terapêuticos, no qual o terapeuta ajuda o(s) utente(s) a melhorar, manter ou restabelecer o seu bem-estar físico, emocional, cognitivo, comunicativo e/ou social, utilizando experiências musicais e as relações interpessoais enquanto forças de mudança”, define a nova musicoterapeuta Melissa Vieira que acrescenta que a terapia através da música desenvolve e restabelece potenciais funções do utente para que consiga alcançar uma integração satisfatória e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida, através da prevenção, tratamento ou reabilitação.

 A Musicoterapia envolve um conjunto de elementos essenciais à sua prática, nomeadamente um plano terapêutico composto por diversos estádios: avaliação inicial com uma escala específica, identificação de sinais e sintomas, estabelecimento de objetivos terapêuticos, aplicação de técnicas de intervenção e avaliação periódica com baterias de teste validadas.

 A música é o elemento central do tratamento e o utente poderá ser desafiado a produzir ou simplesmente a ouvir. O efeito da musicoterapia é “como uma força motivadora e ‘disfarçada’ que nos leva a atingir objetivos que nada têm de musicais”, refere Melissa Vieira em entrevista ao Açoriano Oriental.

 Habitualmente, as sessões realizam-se semanalmente, consoante as necessidades dos utentes que não precisam de ter formação musical prévia. As sessões não pressupõem a aprendizagem de música ou de um instrumento. O foco está na concretização de objetivos terapêuticos não-musicais.

 A música é reconhecidamente terapêutica há diversos séculos, mas a sua aplicação eficaz na saúde pressupõe hoje formação académica especializada: grau universitário em musicoterapia aliada à formação clínica.

 “A Musicoterapia pode intervir em qualquer fase da vida: desde a fase pré-natal até aos cuidados terminais. Pode atuar nas áreas da pediatria/desenvolvimento, perturbações do neuro desenvolvimento (como a perturbação do espetro do autismo), multideficiência, reabilitação neurológica e biopsicossocial, saúde mental, pedopsiquiatria, psiquiatria e gerontologia, nos âmbitos da prevenção, recuperação de funções ou minimização de perda de competências (cuidados psicogeriátricos e paliativos). Também se pode destinar a indivíduos com desenvolvimento típico que objetivam desenvolver e/ou melhorar certas necessidades, sejam elas do domínio social, emocional, cognitivo, comunicativo, entre outros”, esclareceu a jovem recém-licenciada.

            Os resultados “dependem dos objetivos delineados inicialmente para cada utente dos quais se destacam a melhoria de competências comunicativas e relacionais, melhorias no foco e atenção individual/partilhada, melhorias ao nível da expressão corporal e emocional (transportando sentimentos e sensações do interior para o exterior através dos instrumentos, de letras e músicas improvisadas ou já existentes. O domínio não verbal para muitos utentes acaba por ser o caminho mais seguro), melhorias dos níveis fisiológicos (frequência cardíaca e respiratória, pressão arterial), diminuição de crises de ansiedade e redução do stress; auxilio no tratamento contra certas doenças (suporte dor crónica) e melhorias na coordenação motora” refere a musicoterapeuta.

 O projeto MusicoterapiAçores foi fundado em 2011, em São Miguel, por Marisa Medeiros Raposo e conta desde março de 2018 com a colaboração de Letícia Dionizio. Em 2020 Melissa Vieira juntou-se à equipa a partir da ilha Terceira. Uma chegada tardia da terapia à ilha lilás que a jovem praiense justifica: “antes não havia profissionais com a referida formação universitária em musicoterapia. Em Portugal, a única formação que habilita ao exercício profissional da musicoterapia é o mestrado da universidade lusíada de Lisboa”. Melissa Vieira admite que levar a musicoterapia a todas as ilhas da região seria “um sonho incrível”.

 Como forma de divulgar esta área de intervenção, as três musicoterapeutas açorianas promoveram, durante a quarentena, diretos diários na rede social Facebook com musicoterapeutas portuguesas convidadas para falarem sobre diversos temas: musicoterapia para grávidas, musicoterapia nas perturbações do neurodesenvolvimento-Autismo, musicoterapia nas multideficiências-paralisia cerebral, Adaptação de conteúdo académico para as sessões de Musicoterapia e Musicoterapia na geriatria - Demências e promoção do bem-estar. “Para nós, é muito importante a divulgação dos benefícios da musicoterapia demonstrados pelas evidências científicas, de modo a que o público em geral esteja esclarecido e tenha conhecimento dos objetivos que podem ser atingidos quando procuram os nossos atendimentos terapêuticos. O feedback que tivemos foi muito positivo, tivemos um grande alcance de pessoas e grande envolvimento durante o direto com perguntas e dúvidas acerca do assunto tornando-o leve e interessante. Isso motivou-nos muito” conclui a jovem açoriana que garante que as conversas online sobre musicoterapia vão continuar mesmo depois do isolamento.


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