Descrevendo-se como uma criança muito tímida na escola, mas uma “líder” em casa e na vizinhança, Ana Lopes começa por contar que, apesar de ter nascido em Coimbra, cresceu na ilha de São Miguel.
“O meu pai é de cá, de Rabo de Peixe. A minha mãe é de Coimbra e conheceram-se na Universidade de Coimbra quando estavam a estudar. A minha mãe ainda estava a acabar o curso quando engravidou e eu nasci lá. Passei o primeiro ano de vida lá, mas mal ela se licenciou, viemos ter com o meu pai, que já estava cá a trabalhar, e eu cresci em São Miguel”, recorda a atriz. Assim, São Miguel tornou-se a sua terra, onde frequentou a escola, criou amizades e montou os primeiros espetáculos improvisados na vizinhança.
Desde cedo, Ana Lopes revelou um talento para contar histórias e encenar. “Na escola era uma miúda muito tímida, mas em casa e na vizinhança era uma líder. Tinha muitas ideias para brincadeiras e organizava espetáculos para apresentarmos aos nossos pais”, conta, explicando que o ponto de viragem chegou com um elogio de um colega durante uma peça de Natal escolar.
A Disney, as novelas brasileiras e os filmes que via em VHS também tiveram influência, tendo a pequena Ana Lopes começado a replicar o que via com a irmã e os amigos. Ainda na escola básica, chegou a montar uma versão da “Pequena Sereia”, com apresentação na praia para ter o cenário natural. “Os meus pais compraram uma câmara quando eu tinha sete anos e eu andava sempre com a câmara atrás, sempre, sempre, sempre”, recorda.
Quando chegou a adolescência, com a mudança para Ponta Delgada, Ana Lopes percebeu que não havia estrutura formal para alimentar a sua paixão. “Sempre que tinha trabalhos para apresentar na escola, aproveitava para fazer filmes ou peças de teatro. Era a forma de dar asas a essa paixão”, revela.
Com 18 anos, partiu para Lisboa para estudar Direito: não por vocação, mas por estratégia. “Cresci a ouvir histórias de como os atores não têm boas condições de vida, que não é uma profissão segura. Por isso decidi tirar outro curso”, explica.
Em Lisboa, não perdeu tempo: inscreveu-se na companhia de teatro da Faculdade de Direito logo no primeiro ano, fez um casting para uma novela da TVI (sem sucesso, mas com determinação), e chegou a assumir a direção de produção do Cénico de Direito, grupo de teatro da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), organizando o festival dos seus 50 anos.
“Já fui pondo aí em prática o meu lado mais empreendedor”, conta.
Mas o seu plano era claro: acabar o curso e partir para os Estados Unidos. Em 2007, Ana Lopes chegou a Los Angeles com a ingenuidade de quem acredita que o talento chega para tudo. Inscreveu-se na New York Film Academy, que tinha uma colaboração com a Universal Studios. “Nós filmávamos muitas vezes nos estúdios, nos cenários dos nossos filmes preferidos, o que era muito especial”, lembra.
Como não dominava o inglês, entregou-se ao trabalho com uma intensidade fora do comum. “Durante a semana ia às aulas, ao fim de semana ia filmar com os estudantes de cinema. Estava sempre muito ativa. Foi talvez o ano mais feliz da minha vida, porque estava a fazer o que mais gostava a tempo inteiro, e ainda era muito inocente”, descreve.
Mas a realidade americana tem regras implacáveis. Depois do visto de estudante expirar, veio o visto de trabalho — e quando esse também terminou, Ana Lopes descobriu que recomeçar legalmente era quase impossível. “Percebi que é um processo horrível. É preciso já ser famoso no próprio país, é preciso muita imprensa, muito dinheiro para pagar um advogado, é preciso ter projetos alinhados para 5 anos. Como é que ia conseguir isso?”, conta.
Regressou a Portugal. Fez telefilmes para a RTP e para a TVI, participou na novela “Podia Acabar o Mundo” (SIC, 2009) e produziu uma webserie com atores que, tal como ela, tinham formação, mas não tinham tido oportunidades. A batalha para voltar aos Estados Unidos durou anos, num paradoxo cruel: “Eu quero fazer o que gosto lá, mas para conseguir um visto tenho de ser famosa cá. Tive de gerir o meu percurso de modo a poder provar que era uma coisa que não era, e isso ia contra a minha essência".
Quando Portugal se tornou demasiado pequeno para a sua frustração, Ana Lopes mudou-se para Londres, onde trabalhou como produtora, primeiro numa produtora brasileira, depois numa inglesa. A cidade devolveu-lhe a confiança. “Sentia que lutávamos por algo e tínhamos o fruto dessa luta, que era uma coisa que não acontecia em Portugal”, confessa.
Foi em Londres que conseguiu o que anos de esforço em Portugal não tinham dado: uma bolsa para regressar aos Estados Unidos.
Voltou a Los Angeles em 2015, estudou na TVI Actors Studio e, com um currículo sólido, conseguiu finalmente o visto de artista. Ficou nos EUA até à pandemia, participando em vários projetos, incluindo a curta-metragem “Separar”, que integrou Festivais que qualificam aos Óscares, e estava a trabalhar numa série e em duas longas-metragens quando tudo parou.
O regresso forçado em 2020 revelou-se, surpreendentemente, uma das melhores fases da sua carreira em Portugal. Entrou em seis filmes, numa série para a OPTO, e trabalhou com Guy Pearce no filme “The Infernal Machine”.
A longa-metragem “Já Nada Sei”, de Luís Diogo, rendeu-lhe o primeiro prémio de melhor atriz. Tem participado em séries para a RTP, TVI e Prime Vídeo, como os novos “Morangos com Açúcar” e “Sempre”, de Manuel Pureza.
Mais recentemente, a curta-metragem “First Date”, do realizador açoriano Luís Filipe Borges, o mesmo que a tinha convidado para sketches no “5 Para a Meia-Noite” —, abriu novos horizontes. O filme ganhou o Prémio Curta Pico e tem percorrido festivais nacionais e internacionais com assinalável sucesso.
Quando Ana Lopes soube, durante a pandemia, que o projeto vencedor do concurso ICA/Netflix se chamava “Rabo de Peixe”, a ligação foi imediata e visceral. Rabo de Peixe é, afinal, a terra do seu pai. “Tentei logo aliar-me à equipa e senti que era algo que ia ser muito importante, não só para mim, mas para a Região”. Em 2022, colaborou ativamente com a produção, ajudando no casting local para garantir a presença de atores açorianos na série.
A experiência foi, porém, agridoce. Ana Lopes acabou com um pequeno papel de repórter, ficando aquém do que poderia ter sido.
“Nunca escondi a mágoa de não me terem deixado fazer casting para uma personagem mais relevante. Acabei por ficar com a personagem de repórter que acaba por não contribuir para a história da forma que eu gostaria”, recorda. Ainda assim, reconhece o impacto positivo da série na Região: “Foi bom ajudar os atores de cá. Alguns deles depois foram estudar representação, seguiram a carreira, continuaram a trabalhar em projetos profissionais. Acho que foi positivo para o Audiovisual da Região em vários sentidos”. Tinha a certeza de que a série ia correr bem: “Um projeto desta dimensão, com aquela garantia de distribuição e de público, e com os nossos cenários naturais – era impossível não correr bem. E o Augusto Fraga é um realizador extremamente dinâmico e talentoso, como é óbvio".
Em 2023, regressou a Los Angeles para uma visita - e encontrou a indústria paralisada pela greve dos atores e escritores. Vendeu o carro, desfez-se do que ainda tinha num armazém e reconheceu que o sonho americano tinha mudado de forma. “Tive de fazer um luto desse sonho. Enquanto atriz, toda a vida tive o objetivo de viver lá, mas com o atual clima geopolítico, deixei de o ter — e tive de perceber de que outras formas posso chegar onde sempre quis chegar”, admite.
Hoje, Ana Lopes divide-se entre São Miguel, Lisboa e o Porto, onde frequenta uma pós-graduação, sem nunca largar a representação. Está a filmar “Acrasia”, uma longa-metragem de época e terror gótico do realizador João Pedro Frazão; aguarda a estreia de “Sector 8” de Maria João Ferreira e da sequela de “Cavaleiro Vento” de Margarida Gil -filmada nos Açores e no Alentejo - e tem um projeto no âmbito do PDL 2026. A curta-metragem “First Date”, de Luís Filipe Borges, continua a percorrer festivais, tendo já valido à atriz outro prémio.
“O meu foco agora é fazer o que amo. Pode não ser com o Steven Spielberg ou o Paul Thomas Anderson, mas tenho tido a sorte de me cruzar com realizadores imensamente talentosos e não menos interessantes. Só quero continuar a aprender e a crescer com as minhas personagens”, conclui.
