Seguros baixos levam alguns dentistas a descurar segurança dos tratamentos

Seguros baixos levam alguns dentistas a descurar segurança dos tratamentos

 

Lusa / AO online   Nacional   19 de Out de 2008, 12:18

Há dentistas a utilizar materiais de "qualidade duvidosa" e a poupar na esterilização dos equipamentos para compensar os preços baixos impostos pelas seguradoras. A Ordem alerta para a gravidade do problema, que já está sob investigação da Entidade Reguladora da Saúde.
    "A situação está a degradar-se imenso em Portugal. Começa pelos materiais de menor qualidade e pelo sobretratamento, o que significa fazer tratamentos que não são necessários, continua pelo tempo menor dedicado ao doente e vai por aí fora até à degradação total da qualidade, incluindo a esterilização", alerta o bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD).

    Em declarações à agência Lusa, Orlando Monteiro da Silva explica que vários seguros de saúde oral reduziram significativamente os preços dos tratamentos, "dando-se até ao desplante de proporem aos médicos dentistas actos gratuitos", sem ter em conta os elevados custos subjacentes a qualquer consulta, como a esterilização dos equipamentos.

    A Lusa consultou as tabelas de preços de sete grandes empresas de seguros, que impõem a gratuitidade de actos como a destartarização e até a extracção de dentes, por exemplo, não atribuindo aos médicos, nestes casos, qualquer tipo de comparticipação ou pagamento.

    Mesmo sendo muito desvantajosas em termos de honorários, centenas de clínicas dentárias acabam por aceitar estas convenções para aumentar o número de pacientes, uma vez que muitas se encontram "quase às moscas" devido ao excesso de oferta.

    "As seguradoras, cujo único objectivo é o lucro, fazem-se valer do excesso de oferta para reduzir os valores que atribuem aos actos, mas os honorários propostos, alguns deles gratuitos, são um convite à fraude. Quando os actos médico-dentários não são pagos convenientemente, obviamente a corda vai roer pelo lado da qualidade", adverte o bastonário da OMD.

    Com montantes que não chegam para cobrir todos os custos de uma consulta, há dentistas que começam a recorrer "a expedientes inaceitáveis em termos éticos, deontológicos e, sobretudo, em termos de qualidade", com elevados riscos para a saúde pública, nomeadamente no que diz respeito à transmissão de doenças, lamenta Orlando Monteiro da Silva.

    Nos últimos dois anos, 87 consultórios e clínicas de todo o país tiveram a actividade suspensa e cinco foram mesmo encerrados por falta de condições de higiene e exercício ilegal.

    "Foram detectadas situações de insalubridade, falta de condições gerais para consultórios de Medicina Dentária, falta de higiene, falta de meios de esterilização e de condições de limpeza das instalações. Mas o que é detectado é apenas uma pequena parte. A pirâmide é muito maior", garante.

    Na sequência das "várias queixas" transmitidas por dentistas, a Ordem denunciou a situação à Entidade Reguladora da Saúde (ERS), Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO), Instituto de Seguros de Portugal (ISP) e Provedor de Justiça.

    Em declarações à agência Lusa, o presidente da ERS, Álvaro Santos Almeida, confirmou a abertura de um processo de inquérito relativamente a esta matéria, escusando-se, no entanto, a fazer quaisquer comentários sobre o assunto enquanto decorrer a investigação.

    Da mesma forma, o Instituto de Seguros de Portugal enviou uma carta à OMD, assegurando que já estava a levar a cabo uma "avaliação e enquadramento de situações similares no âmbito da prestação de cuidados de saúde, não exclusivamente relacionados com a Medicina Dentária".

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