“Quando o Mar Galgou a Terra e algumas considerações” estreia na Biblioteca Pública

Com sala já esgotada, o auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada recebe no dia 24 de abril, a peça encenada por Eleonora Marino Duarte, numa adaptação ao texto de Armando Côrtes-Rodrigues



O auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, recebe no próximo dia 24 de abril, pelas 21h00, a peça “Quando o Mar Galgou a Terra e algumas considerações”, com encenação de Eleonora Marino Duarte, uma releitura crítica do texto original, de Armando Côrtes-Rodrigues encenado pela primeira vez a 6 de novembro de 1938, em Fall River.

Em conversa com o jornal Açoriano Oriental, Eleonora Marino Duarte, recorda que as pessoas têm muita memória do filme, mas o texto do Armando Côrtes-Rodrigues “não tem absolutamente nada a ver com o filme, no sentido de que só existem três personagens. Todos os outros personagens que estão no filme, ou foram criação ou são apenas citados pela personagem que é a Aninhas”.

Outro aspeto que a encenadora destaca vai para o texto do escritor micaelense. “Primeiro ele escreve para uma atriz, ele diz: ‘Escrevi esta peça para Ilda Histichin (Stichini’),  que depois vim a saber que foi uma das grandes atrizes do teatro português que morreu, em Hollywood, em 1977”, explica, acrescentando que “ele termina o texto citando a Virgem Maria, uma mulher mítica. Isto não é ao calhas”. A encenadora refere ainda que, na época em que Armando Côrtes-Rodrigues escreveu esse texto, as  atrizes eram consideradas mulheres menos sérias”.

A adaptação de Eleonora Marino Duarte, vai buscar “a resiliência dessa mulher. A minha encenação tenta evidenciar o isolamento desta mulher dentro desta sociedade, dentro do casulo do seu pai, da sua casa e a forma como o outro homem quer roubá-la, sem lhe dar muita coisa em troca”. Enfatiza que se calhar, as “pessoas é que não tinham ainda visto a crítica de Armando Côrte-Rodrigues, ou seja, a não liberdade de escolha daquela mulher ou como qualquer escolha que ela tomasse a prejudicaria”.

Eleonora Marino Duarte demorou cerca de três anos para conseguir realizar esta peça, porque para além de todo o tempo de pesquisa, “precisava de uma atriz com uma imagem pura”. Descobriu a Filipe Gomes, numa Tertúlia de Poesia, “é uma mulher que tem carinha de menina, que tem sensibilidade, beleza, disciplina, só que não era atriz. Então tive que forjar essa atriz e trabalhamos durante um ano para que a Filipa pudesse ser a atriz desse espetáculo”, disse. Depois foi procurar o ator e no espetáculo final do primeiro ano do POP Festival viu a atuação de Bruno Correia. “Descobri que era o realizador que tanto admiro. O Bruno também nunca tinha feito teatro, estava se aventurando ali, mas o Bruno é um ator,  tem a sensibilidade necessária”.

O espetáculo vai contar com mais um pessoa em palco, nomeadamente de Wellington Nascimento, como afirma a encenadora: “Nas minhas pesquisas descobri que Armando Côrtes-Rodrigues era um apaixonado pela Viola da Terra e pensei no Wellington Nascimento, que é investigador e músico - está realizando uma grande recolha da Viola da Terra e a identidade açoriana - e convidei-o para fazer parte do espetáculo, também para ser uma espécie de  alter ego do autor”. De acordo com Eleonora Marino Duarte numa altura em que “estamos tentando combater o femicídio, em que estamos vendo o ressurgir da extrema direita, é muito importante que esse texto de Armando Côrtes-Rodrigues seja montado, é muito importante para as mulheres e para a sociedade açoriana”.

Por outro lado, é uma forma de Eleonora Marino Duarte - que nasceu no Brasil e reside nos Açores desde 2009 - “agradecer aos Açores. É a minha declaração de amor aos Açores, a minha gratidão por estas pessoas me receberem tão bem, por estas pessoas me terem aceitado, incluído, respeitarem o meu trabalho, permitirem que esteja aqui”.

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