O Clube Naval de Ponta Delgada “é o maior clube náutico da Região”

Entrevista a Carlos Carreiro, presidente do Clube Naval de Ponta Delgada



Qual é o sentimento de liderar o Clube Naval de Ponta Delgada (CNPDL), uma instituição com 125 anos de história dedicados ao mar?

É uma honra, um orgulho e uma enorme responsabilidade. Honra-me que me tenham escolhido uma segunda vez em Assembleia Geral para liderar uma vasta equipa que orienta esta centenária instituição e a juntarmo-nos a um leque repleto de homens e mulheres resilientes e perseverantes que também o fizeram no passado.

Orgulho-me de também comungar do espírito visionário, dedicação e associativismo dos nossos antecessores a levar por diante, e por mais alguns anos, o nosso clube. E, com a enorme responsabilidade de continuar comprometido em promover o desenvolvimento pessoal e coletivo dos nossos sócios e familiares, incentivando o gosto pelo mar.

Quais foram os marcos mais importantes que moldaram a identidade atual do CNPDL ao longo destes 125 anos?

Quando em 12 de junho de 1901, tendo como berço a cidade de Ponta Delgada, um grupo de homens teve a visão de reunir vontades e essencialmente o gosto pelas atividades náuticas, sabiam de antemão estarem reunidas as condições para prosperar e crescer, até porque Ponta Delgada foi sempre uma cidade voltada para o mar. É uma missão impossível descrever o que foram e como se moldou a identidade do CNPDL nestes 125 anos. Socorro-me do livro do centenário do clube para resumidamente, destacar alguns marcos que considerei de maior importância.
Desde a sua fundação, a visão e o dinamismo das pessoas da época em aproveitarem as embarcações existentes e, de forma organizada realizarem atividades náuticas. Naquela época tudo era um acontecimento e em 1927 assiste-se a uma euforia quanto à implementação dos desportos náuticos. A realização de um raid marítimo entre São Miguel e a Terceira numa frágil embarcação a remos foi um pretexto.
O dinamismo, a sua ação orientadora e o espírito sempre jovem do presidente e sócio número 1 do CNPDL, Alfredo da Câmara, renovaram e implementaram em definitivo as atividades náuticas.

A construção do porto artificial, concluído em 1944, foi desde sempre uma mais-valia. A sua magnífica baía e as estruturas que a envolveram serviram para se desenrolarem os mais importantes festivais náuticos.

A criação das primeiras secções de Vela, Remo e Natação impulsionaram a vinda de muitos jovens para o clube. O arranque da natação organizada e a criação da escola de natação em 1966. Nos anos 70 o clube destacava-se na vela ligeira açoriana e nacional e em 1975 realiza-se a primeira AZAB.

Mais recentemente, em 1993, a mudança para as novas e atuais instalações vieram trazer ao clube todas as condições para se tornar no que atualmente é: o maior clube náutico da Região.

De que forma o CNPDL vai celebrar esta data histórica com os sócios, com os atletas e com a cidade de Ponta Delgada?

No início do ano elaboramos um programa de atividades realista dentro das possibilidades, que não comprometesse, caso não fossemos nós a liderar os destinos do clube nesta data, onde se incluiu aquelas que, abrangendo as principais secções, seriam chamadas as atividades de aniversário. Até à data, destaco a realização da Taça de Portugal de Bilhar, o Campeonato Regional de Windsurf e a 2.ª regata Cidade de Ponta Delgada em botes baleeiros. Por realizar, fruto de más condições atmosféricas, ficou a 2.ª Prova Regional de Vela.

O ponto alto será hoje, com a sessão solene e o lançamento do livro “A natação no Clube Naval Memórias dos anos 65 a 73”, da autoria do nosso digníssimo Sócio Honorário, António Jacinto Vasconcelos Raposo, e amanhã o dia aberto com atividades náuticas e lúdicas para todas as famílias.

Destaco ainda a realização, em julho, da mítica 33.ª volta à ilha em motas d’água, e em agosto a prova de “Big Game Fishing” e o convite para a participação das companhas de remo e vela nas regatas de botes baleeiros na Semana do Mar e Semana dos Baleeiros.

Como avalia o estado atual das diversas modalidades em atividade no CNPDL?

O clube atualmente está dividido em 11 secções, duas delas, botes baleeiros e bilhar, criadas no final do ano passado. Nem todas têm atividade permanente, mas a Natação, a Vela ligeira, a Vela de cruzeiro, os Botes baleeiros, o Jet ski, o Bilhar e a Pesca d’alto movimentam acima de um milhar de participantes por ano. Somos o maior clube náutico da Região e um dos maiores da ilha de São Miguel em número de atletas federados, mais de 300, dos quais cerca de dois terços nos escalões de formação.

Temos capacidade para absorver mais atletas, e daí nunca estarmos satisfeitos, trabalhamos continuamente para sermos sempre mais.

Que estratégias estão em curso para atrair e reter mais jovens nas diversas escolas de formação do CNPDL?

Reter até à idade de a maioria “embarcar” para a universidade é relativamente fácil. O jovem que experimenta e pratica uma atividade náutica raramente a troca por outra. É muito difícil é motivar-lhes a virem experimentar. Os jovens de hoje preferem o imediato ou, o mais apelativo, como por exemplo, a bola ou as tecnologias.

Desde os campos de férias de verão, visitas às escolas e a facilitação de virem experimentar gratuitamente as nossas atividades, de tudo temos feito para cativar jovens.

Estamos a preparar-nos para no início do próximo ano letivo encetar uma serie de visitas às escolas do concelho e falar com os professores de educação física no sentido de virem com os seus alunos fazer a experimentação das diferentes modalidades, como sejam a vela, canoagem, jet ski, botes baleeiros ou até natação. Vamos ver no que resulta. Todos os que por sua iniciativa se dirigem ao clube naval têm tido recetividade e disponibilidade imediata da nossa parte.

De que forma o CNPDL tem contribuído para aproximar a população de Ponta Delgada e da ilha de São Miguel do mar?

A maior parte da nossa atividade está ligada ou relacionada com o mar. O recente protocolo com a empresa Futurismo Azores Adventures permite a utilização dos seus botes baleeiros. Esta é mais uma forma de ir ao encontro de uma faixa da população menos jovem, que poderá diariamente desfrutar destas embarcações na prática das atividades náuticas de remo e vela. Todos são bem-vindos e, depois de experimentarem e gostarem, só têm que se tornar sócios.

Estamos a reequipar a secção de canoagem com novos caiaques de mar, de modo a tornar a atividade e a prática da modalidade mais apelativa.

Era possível mais se o programa “Açores Ativos”, destinado à prática de atividade física da população em geral, e lançado pela Direção Regional do Desporto, disponibilizasse aos clubes aderentes meios financeiros suficientes para realizarem tudo a que se propõem.

Por último, e que tem sido o nosso grande “cavalo de batalha”, a falta que faz a Ponta Delgada, o maior e mais populoso concelho da Região, uma piscina de 50 metros, onde diariamente pudéssemos praticar, não só natação, como também um leque de atividades aquáticas subjacentes. 

Quais são as principais dificuldades que o CNPDL enfrenta hoje, não apenas para competir, mas essencialmente para manter a sua atividade desportiva e social?

Ao longo dos anos, o CNPDL tem-se adaptado às mudanças e às evoluções da sociedade. Nem sempre tem sido fácil. Nos dias que correm, não é a falta de instalações desportivas, sociais ou até de equipamentos náuticos, é a escassez de apoio por parte dos nossos governantes que mais nos entristece e desmotiva. Entristece-nos ter de recorrer constantemente ao pedido de ajuda, enfrentando sucessivas recusas. Entristece-nos sermos frequentemente vistos como aqueles que insistem, como se fôssemos apenas mais um incómodo.

Desmotiva-nos quando os nossos projetos são desvalorizados, com atribuição de relevância ou financiamento claramente insuficientes, revelando o pouco interesse que a nossa atividade e a própria instituição parecem suscitar.

Desmotiva-nos igualmente não sermos reconhecidos como aqueles que, de forma voluntária, dedicada e desinteressada, contribuem diariamente para aquilo que deveria ser também uma responsabilidade pública: a educação e formação dos jovens do concelho, da ilha e da Região.

Como se define a relação e o apoio atual entre o CNPDL, a Câmara Municipal de Ponta Delgada e o Governo Regional dos Açores?

A Câmara Municipal de Ponta Delgada tem sido um garante institucional, disponibilizando quer através de um contrato programa anual, quer também pontualmente mas, nem sempre que nos candidatamos, num leque elevado de atividades. Estas verbas têm sido imprescindíveis na vida da nossa instituição. Permitam-me, ainda assim, referir que, num ano de aniversário tão significativo, ambicionávamos um pouco mais.

Relativamente ao Governo Regional dos Açores, limita a sua participação aos contratos programa nos escalões de formação, exigindo o máximo e disponibilizando o mínimo, repetindo-me, exigindo dos clubes aquilo que deveria ser também uma responsabilidade pública: a educação e formação dos jovens do concelho, da ilha e da Região.

Quais são os grandes objetivos desportivos e em matéria de infraestruturas estabelecidos para os próximos anos?

Um clube com a dimensão do CNPDL quer marcar presença assídua nos pódios regionais, nacionais e até europeus. Este é e será o nosso grande objectivo! Sem esquecer o coletivo, iremos paulatinamente criar condições para que voltemos a marcar presença em cada vez mais provas e criar o espírito ganhador que sempre nos norteou. Não basta sermos os maiores, queremos ser também, os melhores! E. de uma forma geral, comprometemo-nos continuar a promover o desenvolvimento coletivo dos nossos sócios e familiares, incentivando o gosto pelo mar, a prática dos desportos náuticos em qualquer idade, o convívio social e o enriquecimento cultural.










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