Já não se pode deixar o carro no aeroporto à noite: marienses revoltam-se e criam petição

Numa ilha onde o avião é a única ligação ao exterior, a decisão da ANA/VINCI Aeroportos é vista como mais um obstáculo à mobilidade dos residentes. A petição já conta com mais de 650 assinaturas



Deixar o carro no parque do Aeroporto de Santa Maria para apanhar um voo e regressar no dia seguinte era, até há poucos meses, normal para muitos residentes da ilha. 

Hoje, essa possibilidade deixou de existir. A proibição de estacionar durante a noite nos parques do aeroporto está a gerar revolta entre os marienses e acusam a ANA/VINCI Aeroportos de ignorar a realidade de uma ilha que depende exclusivamente do transporte aéreo.

A contestação já deu origem a uma petição pública com mais de 650 assinaturas. E o problema não está só no estacionamento, está nas dificuldades que esta ausência implica na vida de quem vive numa ilha pequena, afastada e sem alternativas de transporte.

Em Santa Maria, o aeroporto é a única porta de entrada e saída para os residentes: para quem precisa de ir a consultas médicas, fazer exames, tratar assuntos de trabalho, estudar ou resolver problemas familiares fora da ilha depende sempre de um avião.

Por questões de logística, muitas dessas viagens obrigam a ir num dia e a regressar no outro, ou dali a dois. Até há uns meses, muitos marienses deixavam o carro no aeroporto e quando regressavam tiravam o carro. Mas agora já não podem.

Esta proibição tem ainda mais impacto quando não há uma rede de transportes públicos capaz de servir os horários dos voos. Muito deles descolam de madrugada e outros aterram ao final da tarde e à noite. E quando se pensa em táxis, a verdade é que este serviço é também limitado e, claro, é mais um custo para quem já terá despesas associadas à viagem. Todas estas condicionantes são apresentadas e explicadas por Rosário Figueiredo, primeira peticionária. Para si, estas mudanças só trazem mais desigualdades injustas para quem vive numa ilha onde as deslocações de avião são, muitas vezes, uma necessidade e não uma opção.

“Não estamos a falar de um luxo. Estamos a falar de uma necessidade básica para quem vive numa ilha sem transportes públicos capazes de servir o aeroporto nos horários dos voos”, defende.

A situação já chegou à Câmara Municipal de Vila do Porto. Em resposta à peticionária, a autarquia confirma que tem insistido junto da ANA para que se encontre uma solução. Contudo, acrescenta que as alterações foram feitas ao abrigo da legislação que regula os aeroportos concessionados. Além disso, a autarquia apurou ainda que existe a intenção de voltar a permitir o estacionamento noturno, mas só mediante o pagamento.

Os subscritores da petição não concordam com a cobrança de taxas. O que está em causa, dizem, é garantir que os marienses tenham um parque onde possam deixar o carro quando precisam de sair da ilha durante um ou mais dias e que, este espaço, seja público.

E para quem pensa que pode haver falta de espaço, Rosário Figueiredo sublinha que espaço é o que não falta. Além de terrenos, os parques que existem estão ocupados com carros de empresas de aluguer, o que para Rosário Figueiredo levanta algumas questões.

A petição quer que sejam encontradas soluções rápidas e adequadas à realidade da ilha de Santa Maria e os subscritores defendem que seja criado uma parque acessível, público e disponível também durante a noite. Acusam ainda a ANA/VINCI de olhar para o aeroporto com o objetivo único de lucro, esquecendo que está gerir uma infraestrutura essencial para a vida dos marienses.

O objetivo é que a petição seja discutida pelo Governo Regional e que sejam exigidos esclarecimentos à empresa responsável pela gestão do aeroporto. Uma vez que a ANA/VINCI não tem respondido aos pedidos de informação feitos pelos peticionários.

O jornal Açoriano Oriental também tentou saber mais sobre a situação junto da entidade gestora, mas até ao momento não teve reposta.

Enquanto não surge uma solução, a sensação de muitos marienses é que o direito à mobilidade está mais uma vez posto em causa na ilha de Santa Maria.  

PUB