Economistas e políticos ignoraram sinais da economia real

Economistas e políticos ignoraram sinais da economia real

 

Lusa/AO Online   Economia   30 de Dez de 2008, 09:36

A crise internacional em que vivemos só aconteceu porque economistas e políticos ignoraram os sinais da economia real e da bolsa e os avisos de alguns conhecedores do funcionamento dos mercados, defendeu hoje o professor catedrático Viriato Soromenho Marques.

    "Existiam sinais de dois tipos. Sinais da própria realidade económica e financeira, associados aos fenómenos das chamadas 'bolhas', isto é, fenómenos especulativos em alguns segmentos da economia e regiões geográficas, que acabaram por provocar um grande sofrimento a muitas pessoas", disse, em entrevista à Lusa, o professor de Filosofia Social e Política da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.

    Autor de livros como "Europa: Labirinto ou Casa Comum" e também de "O Regresso da América", entre outros, Viriato Soromenho Marques, garante que havia muitos sinais a anunciarem a crise financeira mundial.

    "Foi o caso da bolha asiática de 1998, que causou dezenas de milhões de desempregados na Ásia, e da grande bolha informática, em 2001, ligada a tudo o que tem que ver com a Internet e com os computadores", disse.

    Para Viriato Soromenho Marques, houve também um outro tipo de sinais, que foram dados pela "sabedoria" de alguns especialistas, que preveniram para a possibilidade de uma crise financeira, mas que não foram ouvidos".

    "Estou a falar de dois grandes especuladores bolsistas, George Soros e Warren Buffet - este último é 'só' o homem mais rico do mundo -, que há vários anos que têm chamado a atenção para o facto de que esta economia, e sobretudo este sistema financeiro, sem regulação, sem balizas de referência e sem autoridades capazes de separarem o trigo do joio, iria conduzir a um mau resultado como aquele em que, infelizmente, mergulhámos", esclareceu.

    "Quando não ouvimos avisos é porque estamos, de certa forma, bloqueados, ensurdecidos, ou cegos pelo peso das nossas convicções. A ideologia é isso mesmo. Funciona para os movimentos sociais e para as instituições como a paixão para o indivíduo. E quando uma pessoa está apaixonada, bem lhe podem dizer mal do amado, ou da amada, que a pessoa segue o seu percurso", explicou o catedrático da Universidade Clássica de Lisboa.

    Para Viriato Soromenho Marques, a economia mundial está mergulhada numa ideologia que é difícil de baptizar, mas que alguns dizem ser ultraliberal, que surgiu durante a guerra-fria e que se justificava a si própria com o imperativo de combater o alegado perigo do comunismo soviético e chinês e com a necessidade de defender o mercado livre.

    "Essa ideologia tornou-se ainda mais virulenta depois da queda do muro de Berlim, em 1989. Quando desapareceram os inimigos do capitalismo, esta ideologia ultraliberal - vamos chamar-lhe assim por comodidade - tornou-se ainda mais feroz, mais violenta mais radical, atingindo o Estado como alvo fundamental", frisou.

    "Percebemos então, nos anos 90, que o que estava em causa não era o socialismo. O que estava em causa era a noção do estado, das políticas públicas, dos mecanismos de regulação. Tudo aquilo que perturbasse a 'santa ordem do mercado', a 'sábia ordem da auto-regulação', devia ser abatido", acrescentou.

    Perante o fracasso evidente do modelo ultraliberal, Viriato Soromenho Marques acredita o futuro passa por um regresso ao Keynesianismo.

    "Há uma arquitectura nova que temos de inventar. Penso que uma parte dessa invenção está feita: retomar as boas indicações de Keynes (economista John Maynard Keynes 1883-1946)", defendeu, convicto de que se trata de uma solução mais pacifica junto dos decisores políticos do que nos economistas.

    "Muitos dos economistas que hoje tomam decisões foram educados a detestar o Keynes e vão ter de fazer o mesmo que o senhor Alan Greenspan (ex-presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos da América), que foi obrigado a ir ao Congresso norte-americano dizer que tinha estado 40 anos enganado".

    Mas, advertiu Viriato Soromenho Marques, "há muitas pessoas que preferem continuar enganadas, a admitirem o erro".

   


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