Cimeira UE/Rússia

Divergências britânicas com Rússia longe de causar "guerra fria"


 

Lusa / AO online   Internacional   24 de Out de 2007, 16:42

O governo britânico reconheceu esta quarta-feira divergências de opinião com Moscovo, mas rejeitou um clima de "guerra fria" causado pela investigação ao homicídio em Londres do dissidente russo Alexander Litvinenko que possa afectar a cimeira UE-Rússia.
"Não é segredo que existem assuntos em que discordamos, nós dizêmo-lo honestamente e discutimos isso", admitiu hoje um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, em declarações à Agência Lusa.

"Mas quando nos jornais se comenta que estamos numa nova "guerra fria", nós discordamos. Os laços entre os dois países continuam muito fortes", replicou, recusando a existência de "tensão" entre os dois governos.

Para a cimeira UE-Rússia, sexta-feira em Mafra, o governo britânico espera que sejam discutidos temas como as alterações climáticas, energia, direitos humanos, democracia e comércio.

"A Rússia é um actor importante num conjunto de assuntos de interesse mútuo, como o Irão e o Kosovo", frisou a mesma fonte.

Todavia, não é previsível que o caso Litvinenko, que morreu a 23 de Novembro de 2006, faça parte das discussões entre o actual presidente em exercício da UE, o primeiro-ministro português, José Sócrates, e o Presidente russo, Vladimir Putin.

Na quinta-feira, dia em que o Presidente russo efectua uma visita oficial a Portugal, na véspera da cimeira UE-Rússia, a viúva de Litvinenko, Marina, apresenta em Lisboa o livro «Morte de um Dissidente», escrito com Alex Goldfarb, em que Vladimir Putin é apontado como responsável pelo assassínio do ex-espião do KGB.

No passado mês de Junho, Londres e Moscovo trocaram palavras amargas após a recusa das autoridades judiciárias russas em executar o pedido de extradição de Andrei Lugovoi, principal suspeito do homicídio de Alexander Litvinenko.

Lugovoi foi identificado pela polícia britânica que investigou a morte de Litvinenko, vítima de envenenamento com polónio 210, depois de ter encontrado um rasto deixado pela substância radioactiva nos locais onde aquele passou durante uma viagem a Londres na mesma altura.

Antigo elemento dos serviços secretos russos KGB, tal como Litvinenko, Lugovoi chegou a encontrar-se com a vítima num hotel na capital britânica, mas nega a autoria do crime.

Actualmente, Lugovoi encontra-se em liberdade e é candidato ao parlamento por um partido de extrema-direita russo.

As autoridades russas invocaram que a actual Constituição impede a extradição de cidadãos nacionais para serem julgados no estrangeiro, o que levou o governo britânico a demonstrar a sua indignação.

A 16 de Julho, Londres determinou a expulsão de quatro diplomatas russos do Reino Unido, levando Moscovo a responder na mesma moeda três dias mais tarde e ordenar a saída da Rússia de quatro diplomatas britânicos.

"O pedido de extradição mantém-se activo e continuamos abertos a propostas das autoridades russas para o concretizar, para que o crime possa ser levado à justiça no Reino Unido", declarou o porta-voz.

"Mas relações bilaterais não se resumem a este caso e desde o Verão até agora houve duas visitas ministeriais a Moscovo: do ministro para a Energia [Malcolm Wicks] e do ministro do Comércio, Lorde Digby Jones", acrescentou.

"Fora do caso Litvinenko, as relações bilaterais com a Rússia continuam como estavam antes", garantiu, continuando a ser emitidos diariamente dezenas de vistos a turistas, estudantes e empresários russos.

Litvinenko era uma das figuras mais conhecidas dos dissidentes e críticos do regime do Presidente Vladimir Putin refugiados em Londres, entre os quais se destaca o magnata Boris Berezovsky, alvo de um pedido - recusado - de extradição das autoridades russas por alegadas irregularidades fiscais.

Estima-se que na capital britânica residam cerca de 200 mil russos, entre os quais muitos homens de negócios, com relevo para o empresário e proprietário do clube de futebol Chelsea, Roman Abramovich.
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