Casa Pia perdeu mais de um terço dos alunos nos últimos cinco anos


 

Lusa / AO online   Nacional   22 de Nov de 2007, 16:20

A Casa Pia perdeu 1700 alunos nos últimos cinco anos, uma redução de um terço que o presidente da Associação de Trabalhadores da instituição atribui ao escândalo e ao processo de pedofilia, que se arrasta desde 2002.

O caso de pedofilia na Casa Pia rebentou no dia 23 de Novembro de 2002 e desde então a instituição tem estado debaixo dos “holofotes” da comunicação social.

Questionado pela agência Lusa sobre os impactos desta exposição, o presidente da Associação de Trabalhadores da Casa Pia, Marcelino Marques, salientou a perda dos alunos.

“De há cinco anos para cá o impacto que isto teve é que a Casa Pia tinha 4.700 alunos e agora só tem 3.000 [uma diminuição de 37 por cento]", sublinhou Marcelino Marques.

A nível de alunos internados nos vários colégios, a perda foi de mais de metade: “Tínhamos 700 educandos internos, que são aqueles que não têm família, e agora só temos 300 [58 por cento], sustentou.

“Os outros 400 saíram e eu não sei para onde foram”, lamentou Marcelino Marques, que trabalha há 33 anos na instituição.

Os alunos “poderiam ter saído porque atingiram uma idade em que podiam ser integrados, mas não foi o caso. Saíram e de certeza que muitos deles estão na rua e não foram admitidos noutra instituição", frisou.

Com a perda de alunos, Marcelino Marques receia que a Casa Pia tenha deixado de dar resposta à sociedade na questão da admissão de novos educando internos.

“Eu penso que as consequências disto se reflectem na Casa Pia, mas não só. Reflectem-se em toda a rede social de Lisboa e isto vai ter consequências muito graves na vida da cidade, que deve muito à Casa Pia no acolhimento de crianças e jovens mais necessitados”.

Por outro lado, a Casa Pia tem mais funcionários do que tinha há cinco anos, porque tiveram de ser admitidas pessoas para reforçar a vigilância e mais educadores, adiantou, considerando que, apesar disso, a instituição “não ficou a funcionar melhor”.

Contactado pela agência Lusa, o assessor da Casa Pia, João Louro, afirmou que os números divulgados pela Associação de Trabalhadores "são verdadeiros", mas explicou que a redução do número de alunos faz parte do objectivo traçado no projecto de reestruturação da instituição, que visa combater a massificação de alunos.

Numa entrevista recente à Lusa, a presidente do Conselho Directivo da Casa Pia, Joaquina Madeira, explicou que o projecto se traduz na diminuição do número de alunos internados nos antigos colégios [actualmente 330], na definição de modelos de lares para crianças e jovens de pequena dimensão, na qualificação dos recursos humanos e na aposta num modelo de formação profissional de qualidade.

O Conselho de Ex-Alunos da Casa Pia manifestou “algumas divergências” sobre o novo modelo da instituição, de acolher os jovens em pequenas residências espalhadas pela cidade.

“Antigamente era a massificação, hoje é a desmassificação da Casa Pia de Lisboa. Nós discordamos. O problema não está no sistema, está nas pessoas”, disse à Lusa Victor Seabra Franco, do Conselho de Ex-Alunos, considerando que é “mais fácil” controlar 500 alunos no mesmo sítio do que se estiverem espalhados por vários apartamentos.

Victor Seabra Franco lembrou os tempos em que era aluno no Colégio de Pina Manique, onde eram cerca de 600 e a vigilância era muito apertada.

“Admito que me custava estar fechado, só ir de férias no Natal, na Páscoa e no Verão, de não poder faltar às aulas, de ter de me levantar às 06:00. As condições não eram óptimas, é verdade…”.

“Mas depois os alunos deixaram de ter essa obrigação e não se pode exigir a um jovem de 11, 12 ou 13 anos que tenha a responsabilidade de se conduzir sozinho”, sublinhou, defendendo que tem “de se exercer uma vigilância superior, porque o sistema de ensino mudou”.

O antigo aluno disse à Lusa assistir com “tristeza” ao que se passou nos últimos cinco anos e ao “chafurdar na lama” de alguma comunicação social, lamentando que não seja valorizado o trabalho que a instituição realiza há mais de dois séculos.

“A Casa Pia deu-me comida, casa, um curso e uma bolsa de estudo. Hoje sou professor universitário e tenho muito orgulho de ter sido aluno da Casa Pia”, sublinhou.

O presidente da Associação de Trabalhadores da Casa Pia, Marcelino Marques, salientou o trabalho desenvolvido com “grande dedicação” por “professores, educadores, técnicos e terapeutas” na instituição e a forma como este processo os “desmotivou”.

“Foi uma desmotivação muito generalizada, onde houve um desconfiar de toda a gente, um pôr em causa as pessoas na sua totalidade”, sublinhou.

Além dos funcionários, o processo também afectou os alunos e os pais das crianças: “É muito complicado para as crianças ouvir dizer que quem cá trabalha são pedófilos. Eles sabem com quem estão, sabem que são bem tratados e gostam de cá andar”.

“Cada criança que cá temos tem uma história de vida que tem de ser preservada e não colocada em praça pública como seja um fruto da Casa Pia. É muito mau”.

E o funcionário deixa um apelo: “o que há para investigar, que se investigue. Qualquer coisa que corra mal é colocá-la no sítio certo, não queremos esconder nada. Mas vivemos aqui de facto dramas humanos imensos e isso não foi acautelado”.



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