Ancara está pronta para pagar qualquer preço por operação militar no Iraque

Ancara está pronta para pagar qualquer preço por operação militar no Iraque

 

Lusa / AO Online   Internacional   12 de Out de 2007, 18:48

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou hoje que a Turquia está pronta para lidar com qualquer consequência diplomática se decidir lançar uma ofensiva militar no Iraque contra rebeldes curdos.
    "Se tal opção for escolhida, qualquer que seja o seu preço, será pago", declarou Erdogan aos jornalistas em resposta a uma questão sobre as repercussões internacionais de uma operação militar turca no Iraque.

    "Poderá haver prós e contras nessa decisão, mas o que é importante é o interesse do nosso país", frisou.

    Na próxima semana, o governo turco deverá enviar ao Parlamento um pedido de autorização para o Exército lançar uma ofensiva militar no norte do Iraque contra santuários dos separatistas do ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização considerada terrorista pela Turquia, pelos Estados Unidos e pela União Europeia.

    O conflito entre a Turquia e o PKK, que luta pela independência do Curdistão turco (sudeste da Anatólia), já fez mais de 37.000 mortos desde 1984.

    Erdogan também criticou a administração norte-americana por se opor a uma intervenção turca no Iraque devido ao receio de que possa destabilizar uma zona relativamente calma daquele país.

    "Eles pediram autorização a alguém quando vieram de uma distância de 10.000 quilómetros e atingiram o Iraque? Não precisamos dos conselhos de ninguém", referiu Erdogan, numa referência à invasão de 2003, que resultou no fim do regime do então presidente iraquiano Saddam Hussein.

    Analistas consideram que Ancara terá menos problemas em desafiar os Estados Unidos depois de um comité do congresso norte-americano ter aprovado, esta semana, uma resolução que classifica de genocídio o massacre de arménios no final da I Guerra Mundial por tropas do Império Otomano, que viria a transformar-se na Turquia.

    "Os democratas estão a afectar o futuro dos Estados Unidos e a encorajar sentimentos anti-americanos", disse Erdogan, referindo-se ao apoio dos líderes do Partido Democrata na Câmara dos Representantes à resolução sobre os arménios.

    Na sequência da votação em sede de comissão, a Turquia chamou a Ancara o seu embaixador em Washington para consultas e avisou a administração do presidente George W. Bush de que uma eventual aprovação da resolução pelo plenário da Câmara dos Representantes terá consequências graves.

    As autoridades de Ancara recusaram comentar se a Turquia poderá fechar a base aérea de Incirlik, no sul do país, um centro de carga importante para as tropas norte-americanas e aliadas no Iraque e Afeganistão.

    O porto turco de Iskenderun, no Mediterrâneo, também é usado para o reabastecimento das tropas norte-americanas.

    O jornal Yeni Safak, considerado próximo do governo turco, noticiou hoje que Ancara poderá rever a sua posição em relação à base de Incirlik e a contratos de defesa no valor de 15 mil milhões de dólares (10,5 mil milhões de euros), que incluem a compra de aviões militares e de sistemas de radares e de mísseis.

    A Turquia também poderá impedir as empresas norte-americanas de participarem em novos contratos, acrescentou o jornal.

    Erdogan disse que a resolução do congresso norte-americano afectará igualmente os esforços para melhorar as relações entre a Turquia e a Arménia, que não têm relações diplomáticas devido à disputa sobre os massacres da I Guerra Mundial.

    A Turquia nega a morte de 1,5 milhões de arménios por tropas do Império Otomano, como reclama a Arménia, alegando que os números são exagerados e que se trata de vítimas de uma guerra civil que afectou muçulmanos e arménios cristãos.

    Em 1993, a Turquia fechou a sua fronteira com a Arménia durante a guerra entre este país e o Azerbeijão, um aliado muçulmano de Ancara.

    Questionado sobre se as relações entre a Turquia e a Arménia são possíveis, Erdogan foi peremptório: "Da forma como as coisas estão a ir, não".

    O primeiro-ministro turco queixou-se igualmente da falta de cooperação de Washington e Bagdad na luta contra os rebeldes do PKK, que mantêm bases no norte do Iraque, e aludiu a um recente acordo antiterrorista assinado com as autoridades iraquianas que ainda não foi ratificado pelo Parlamento do país.

    A autorização para a operação do Exército turco no Iraque deverá ser aprovada pelo Parlamento na próxima semana, após o feriado que assinala o fim do mês sagrado do Ramadão.

    "Estamos a tomar as medidas necessárias para estarmos prontos no caso de decidirmos por uma operação no outro lado da fronteira, porque não temos paciência para perder mais tempo", disse Erdogan, recordando que 30 turcos foram mortos por rebeldes curdos nas últimas duas semanas.

    Em Bagdad, o ministro da Defesa iraquiano recebeu hoje o embaixador turco no país, mas poucos promenores foram divulgados sobre o encontro.

    Em comunicado, o governo iraquiano referiu que o ministro Abdel Kader Mohammed Jassim Oubeidi eo embaixador Derya Kanbay discutiram "formas de desenvolver as relações entre os seus dois países amigos nos domínios da luta contra o terrorismo e da troca de informações".

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