Agrião bravo ajuda a recuperar ecossistemas ribeirinhos

A Cardamine caldeirarum, uma planta herbácea endémica dos Açores classificada como ameaçada, é o foco central de um projeto de conservação que visa a recuperação de ecossistemas ribeirinhos nas Lagoas do Fogo e do Congro, na ilha de São Miguel



A Cardamine caldeirarum, conhecida popularmente como agrião bravo, está no centro de um projeto de conservação que visa recuperar ecossistemas ribeirinhos em São Miguel e poderá servir de modelo para outras ilhas do arquipélago.

Com distribuição muito restrita e fragmentada, a Cardamine caldeirarum ocorre em todas as ilhas do arquipélago, à exceção da Graciosa, habitando preferencialmente zonas húmidas de altitude associadas a linhas de água, taludes de ribeiras e crateras. A espécie encontra-se atualmente classificada como ameaçada, devido à sua reduzida área de ocupação e ao declínio da qualidade dos seus habitats.

“A Cardamine caldeirarum é uma espécie sentinela, ou seja, a sua presença e estado de conservação refletem diretamente a qualidade do ecossistema ribeirinho onde ocorre”, explica ao Açoriano Oriental Guilherme Roxo, doutorando na Universidade dos Açores (UAc), integrado no grupo de investigação DIVERGE do CIBIO-Açores, sob orientação de Mónica Moura. “É precisamente esta dupla função, espécie ameaçada e indicador ecológico, que justificou a sua inclusão no projeto europeu BESTLIFE2030”, acrescenta.

O projeto “Recuperação de ecossistemas ribeirinhos utilizando a espécie sentinela Cardamine caldeirarum”, financiado pela União Europeia através do programa BESTLIFE2030, tem como parceiros a Direção Regional do Ambiente e Ação Climática (DRAAC) e o LIFE IP Azores Natura, contando com a colaboração de investigadores como Mónica Moura, Rui Elias, Luís Silva, Diana Pereira e Joana Bettencourt.

As ações de reforço populacional centram-se nas Lagoas do Fogo e do Congro, em São Miguel, e baseiam-se numa metodologia científica rigorosa. “As plantas são produzidas em viveiro a partir de sementes recolhidas das próprias populações naturais existentes nestes locais, o que nos permite preservar a diversidade genética local e garantir que as plantas estão adaptadas às condições ambientais específicas de cada sítio”, esclarece Guilherme Roxo. “Por isso, falamos de reforço populacional e não de introdução - estamos a reforçar populações que já existem, tornando-as mais viáveis e resilientes”, sublinha o investigador.

A escolha destas duas áreas não foi aleatória, uma vez que ambas integram zonas de intervenção do LIFE IP Azores Natura e da DRAAC, onde já foi desenvolvido trabalho significativo de gestão de habitats, nomeadamente remoção de espécies invasoras e restauração da vegetação nativa.

Para Guilherme Roxo, a recuperação desta espécie tem um alcance que ultrapassa largamente a conservação de uma única planta. “A Cardamine caldeirarum funciona como indicador do sucesso das ações de restauração dos habitats ribeirinhos. Quando a espécie está bem, é sinal de que o ecossistema está a funcionar”, explica.

Num contexto de alterações climáticas nos Açores, marcado pelo aumento das temperaturas e pela maior frequência de eventos extremos como chuvas intensas, a recuperação destes ecossistemas adquire ainda maior relevância. “A Cardamine caldeirarum não é, por si só, a solução. Mas a sua recuperação integra uma estratégia mais ampla de adaptação e resiliência dos ecossistemas às alterações climáticas”, sustenta.

Para além das ações de campo, o projeto aposta fortemente na sensibilização ambiental, procurando combater o chamado plant blindness, ou seja, a tendência generalizada para desvalorizar as plantas e o seu papel fundamental nos ecossistemas.

Nesse sentido, serão desenvolvidas atividades de divulgação para o público em geral em parceria com o Expolab - Centro Ciência Viva, em São Miguel, nos dias 15 e 22 de maio, nas áreas da Lagoa do Fogo e da Lagoa do Congro.

A longo prazo, o projeto ambiciona reforçar as populações desta espécie, aumentar a sua área de distribuição e melhorar o estado de conservação dos habitats onde ocorre. 

Queremos demonstrar que a recuperação de uma espécie-chave pode servir como motor para a restauração de ecossistemas mais amplos”, afirma Guilherme Roxo, adiantando que as metodologias desenvolvidas poderão ser replicadas noutras ilhas, sendo as Flores apontadas como território com potencial para intervenções semelhantes.

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A Cardamine caldeirarum, uma planta herbácea endémica dos Açores classificada como ameaçada, é o foco central de um projeto de conservação que visa a recuperação de ecossistemas ribeirinhos nas Lagoas do Fogo e do Congro, na ilha de São Miguel