Vulcão que mudou os Açores surgiu há 50 anos

Vulcão que mudou os Açores surgiu há 50 anos

 

Rui Leite Melo   Regional   26 de Set de 2007, 16:50

Para além da admiração e do medo provocado junto dos faialenses, o Vulcão dos Capelinhos impulsionou a maior vaga de emigração jamais registada no arquipélago

 

 

Mais do que um simples fenómeno natural de cariz vulcanológico, o Vulcão dos Capelinhos, que há exactamente meio século eclodiu junto à costa Oeste da ilha do Faial, marcou indelevelmente a conturbada História destas ilhas e das suas gentes, isto pelas consequências sociais e económicas que despoletou.

Deixando milhares de faialenses sem casa, ficando estas destruídas ou soterradas pela erupção, o vulcão foi razão determinante para motivar em definitivo o maior êxodo emigratório jamais acontecido naquela ilha e, por arrasto, na generalidade do arquipélago. Estima-se que 17 dos 30 mil habitantes da ilha do Faial à altura da catástrofe, tenham abandonado a ilha, com destino quase incontornável para os Estados Unidos da América. De resto, foi do outro lado do Atlântico que veio uma das mais firmes e aliciantes respostas à catástrofe, o Azorean Refugee Act, medida que facilitou a emissão de vistos para chefes de família faialenses e que envolveu directamente um então senador John F. Kennedy. Foram exactamente tais movimentações que acabariam por abrir em definitivo as portas dos Estados Unidos da América à emigração portuguesa, e motivar a segunda grande vaga de emigração de portugueses, sendo ainda permanentemente sentidas as consequências que tal abertura acabaria por ter na sociedade açoriana. Estima-se que entre 1960 e 1990 tenham emigrado para os Estados Unidos da América cerca de 90 mil açorianos. Mais do que fugirem às incertas forças da natureza, os açorianos tiveram no vulcão dos Capelinhos uma inquestionável justificação para expandir o arquipélago a outras paragens.

 

Catástrofe natural
Independentemente das consequências sociais que decorreriam da erupção de 1957, o Vulcão dos Capelinhos não deixou de ser um fenómeno natural que causou incomensuráveis danos materiais e fundamentalmente grande influência sobre os habitantes locais. Capelo e Praia do Norte foram duas Freguesias praticamente varridas do mapa devido à erupção vulcânica e consequente queda de cinzas e materiais de projecção, que provocaram a destruição generalizada das habitações e dos campos de cultivo. Entre a incredulidade e a contemplação de tal fenómeno foram treze meses de ansiedade, tantos quantos aqueles em que o vulcão se manteve em actividade. Extinguir-se-ia em Outubro de 1958 sem aviso, tal como tinha surgido. Mas não menosprezando o desconhecimento do que se passava e do destino que a todos estaria guardado, fatalidade atenuada pela crença religiosa, o Vulcão dos Capelinhos mantém -se como um marco também científico, tendo o fenómeno sido acompanhado a nível mundial, inclusive pela comunidade científica, muito graças à televisão.

Cinquenta anos passados o interesse pelos mistérios da natureza mantêm-se intactos, apesar do grande desenvolvimento tecnológico e científico desde então conseguido. Só assim se justifica o entusiasmo em redor da celebração dos 50 anos sobre a erupção. Inactivo há décadas, toda a zona foi constituída área de paisagem protegida de elevado interesse geológico e biológico, e faz parte da Rede Natura 2000.



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