“Para se estar neste ramo é preciso ter gosto. É difícil porque nem sempre a gente agrada a todos”

José Maria Dias. Diz que lhe dá saúde trabalhar, embora já esteja reformado e que o fará até ‘ao dia do meu funeral’. O proprietário de um dos cafés mais emblemáticos de Ponta Delgada, Café Royal, abriu o livro das suas memórias, partilhando connosco o seu percurso de muito trabalho



A nossa conversa com José Maria Dias não poderia ter decorrido noutro espaço que não aquele que há algumas semanas comemorou 100 anos. Falamos do Café Royal,
em Ponta Delgada, do qual é proprietário há 35 anos, um espaço com muita história que nos leva para uma Ponta Delgada de outros tempos - patente nos quadros que estão expostos nas suas paredes - mas um local que preserva a sua arquitetura antiga. 

É neste local emblemático, outrora palco de tertúlias, que José Maria Dias recorda-nos a sua “infância feliz”, numa família de “gente humilde”. 

Natural da Vila das Capelas, com 18 meses, a família foi viver para São Roque, porque o pai foi “trabalhar para a freguesia. Ele era carroceiro. Antigamente não havia camiões nem camionetas, apenas carroças”. 

Com 11 anos começou a trabalhar nas vindimas e também nas estufas a “acartar leiva”. Relembra que “enchiam -me meio cesto de leiva para acartar, mas às vezes colocavam mais... eram cerca de 15 estufas - nos Prestes de Cima - e quando chegava lá acima, as pernas tremiam como canas verdes”, acrescentando que “lembro-me que o primeiro dinheiro que ganhei foram 2 escudos e meio...”. Diz-nos que, nos dias de hoje “isso era trabalho infantil..., mas pronto... era a vida de antigamente. Era o que havia... e o dinheirinho era entregue em casa”. 

Depois das estufas, José Maria Dias foi vender pipocas para a cidade. Conta-nos que “uma prima do meu pai, que morava na Rua da Alegria, foi fazer-nos uma visita e disse ao meu pai que eu estava a ganhar pouco, e que conhecia um senhor madeirense que fazia pipocas. Então fui trabalhar para ele, vender pipocas numa canastra aqui na Matriz. Na altura existiam muitos rapazes a venderem pipocas aqui na cidade”.  Um trabalho que fez até aos 14 anos, altura em que foi trabalhar para a “Cervejaria Pereira que hoje é a Cervejaria Portas da Cidade. Foi no dia 28 de abril de 1967 - não me esqueço - dia em que o senhor Pereira fazia anos, ele foi o meu primeiro patrão neste ramo”. 

Lá esteve até ir para a tropa. Foi para Angola. Desse tempo refere que “não fiz caça ao homem, mas vi lá muita coisa... e até gostei de estar lá... quando a comida não prestava, era pãozinho, a gente abria a camisa e roubava-se o pão da mesa, ainda hoje gosto de comer muito pão”, diz-nos bem-disposto.

Quando regressa aos Açores, regressa também à Cervejaria, onde fica até 1979, “ano em que casei - já tinha casado civilmente, em 1978, para poder comprar uma casa”. Ainda em “outubro de 1979 fui trabalhar para a Cervejaria Melo Abreu para ganhar mais dinheiro” e mais tarde foi para a Brasileira, “ao nível de pagamento foi o melhor patrão que tive”, disse.

A sua vida mudou quando decide, em 1984, comprar “uma antiga mercearia, ali em frente à antiga discoteca Vasco, comprei ao Horácio Franco o trepasse por 2 mil contos”, mas não o fez sozinho, teve um sócio e “abrimos o Café São João”.

Ao fim de uns anos, vendeu a sua parte, explicando que “o meu sócio não queria trabalhar muito e eu já tinha uma decisão na cabeça, queria comprar a parte dele, mas acabei por vender, chegamos a acordo”. Foi então que, em abril de 1991, comprou o Café Royal. 

E o que é que diferencia o seu café dos outros? José Maria Dias começa por nos dizer que “sou suspeito a falar, mas para mim, esse é só o melhor café de Ponta Delgada, até porque o símbolo que temos é do rei dos cafés”, sublinhando que “a melhor publicidade que se faz é da porta para dentro, com o nosso serviço e isso vive é do cliente”. Por isso, confessa-nos que “para se estar neste ramo é preciso ter gosto. É difícil porque nem sempre a gente agrada a todos”. 

Questionado sobre as maiores dificuldades com que se deparou e depara, José Maria Dias refere que uma delas foi o tempo da Troika, “na altura tinha sete empregados e passei a ter quatro”. Em 2020 surgiu a pandemia que “também arrepiou, porque a gente não sabia o que é que ia acontecer..., mas foi-se vivendo”. 

Nos últimos anos, é o turismo que movimenta a cidade e o anúncio do fim de operação da Ryanair pode fazer mossa no negócio: “o dia de amanhã não se sabe, se não vier por aí a Ryanair, por exemplo, não sei como vai ser, porque traz muita gente e esse é um bom cliente...”. 

Ora, o turista é um bom cliente, mas o emigrante também é, principalmente “por altura do Santo Cristo, Espírito Santo. Muitos deles passam cá o verão”, afirmou.

Há sete anos que está reformado, mas continua a ir ao café todos os dias. Conta que “dá-me saúde”, e repete-nos uma frase que diz algumas vezes: “Se Deus me der saúde, eu vou trabalhar até o dia do meu funeral”.

Durante a nossa conversa, José Maria Dias quis deixar um reconhecimento à esposa, porque, durante todos estes anos, não foi fácil conciliar a sua vida profissional com a familiar: “Tenho duas filhas e um filho, passava mais tempo no café do que em casa. A minha mulher chegou a dizer-me para trazer a cama para aqui”, disse entre risos, para enaltecer que “a minha mulher é que era a encarregada de educação dos meus filhos. Ela é que me fez tudo...”.

Sobre os filhos, do qual tem muito orgulho, recorda que “eles chegaram a vir para aqui ajudara limpar e hoje em dia, a minha filha abaixo da mais velha ainda ajuda”, frisando que “embora cada um tenha as suas vidas, se eu precisar de alguma coisa eles ajudam”.  Em relação ao futuro do Café Royal diz-nos que “tenho o meu Rúben... ele sabe tudo desse negócio...”. Questionado se gostava que o filho seguisse as suas pisadas, responde assim: “Gostava que ele seguisse essa vida”.

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