“Um dia maravilhoso em Nova Iorque e de repente tudo mudou”

“Um dia maravilhoso em Nova Iorque e de repente tudo mudou”

 

Paulo Dias de Figueiredo / Lusa - AO online   Internacional   10 de Set de 2011, 13:04

Ao mudar de emprego, a portuguesa Celeste Georgakis salvou-se de morrer juntamente com 69 antigos colegas nas Torres Gémeas a 11 de setembro, mas além de colegas e amigos, perdeu nesse dia a mãe em Portugal.

Gestora financeira em Wall Street, trabalhou durante cinco anos no piso 102 da torre 1 do World Trade Center, que conhecia “muito bem” e onde costumava levar a almoçar clientes de fora da cidade que “gostavam de ver aquele panorama todo de Nova Iorque”, recordou em entrevista à Lusa.

Pouco tempo antes, tinha saído da empresa onde trabalhava no WTC, a Dean Witter, quando esta foi comprada pela Morgan Stanley. Foi trabalhar para a Prudential, ali perto.

Naquele dia tinha um almoço marcado com analistas de Chicago no conhecido restaurante “penthouse”, Janelas do Mundo.

Mas quando saiu do terminal de “ferries” para ir para o edifício da sua empresa, a Prudential, em Battery Park City já o atentado estava em curso e o caos instalado em Wall Street.

“Estavam pessoas a gritar `um avião foi contra World Trade Center´. Só via coisas a voar, pessoas a correr, os telemóveis não funcionavam. Os metros estavam parados e eu não sabia, ninguém sabia nesse preciso momento o que se estava passando”, recorda

Acabou por ir a correr até à sede da sua empresa e quando chegou lá a cima “todo o mundo estava branco” e soube pelo vice-presidente da empresa que o país estava a ser atacado.

Antes de chegar, já o filho tinha ligado do liceu para o escritório, depois de ter visto imagens das torres a arder. Enquanto tentava conseguir devolver a chamada, o edifício foi fechado.

“Dizia-se que havia 4 ou 5 aviões mais e que um deles poderia ir para o nosso edifício”. Mas depois de verem as imagens da torre 2 a cair, Celeste e alguns colegas decidiram-se pela fuga.

“As sirenes começaram e não víamos mais para fora. Saímos e não se via nada, tudo cinza, pensei que morria porque tenho alergias”, afirma.

Seguiu-se uma longa caminhada junto ao rio, através da penumbra e dos sons do maior desastre da história de Nova Iorque.

Quando chegaram à ponte para atravessar para Brooklyn, “a torre número um caiu como uma panqueca”. Do outro lado do rio, exaustos, conseguiram numa loja ligar para casa.

Seguiu-se nova caminhada em direção a casa, onde estavam amigos e família à espera.

“O pior é que não sabia o que se tinha passado com os meus colegas que trabalharam comigo [no WTC]”. 69 deles morreram no dia 11. “Era inacreditável, não sabia para onde me virar”.

“Às 10 da noite recebo uma chamada de Portugal porque a minha mãe faleceu. Costumava ver a televisão e e teve um ataque cardíaco pensando que eu estava lá” no WTC, recorda Celeste Georgakis.

Só em outubro foi a Portugal para as cerimónias fúnebres da mãe, “pôr um final”. Entretanto, ia às cerimónias dos seus antigos colegas.

“Nem podiam falar, não sabia onde estava. Só ia a cerimónias, visitar famílias. Não sabia já se era pior perder a minha mãe ou aqueles jovens todos que trabalhavam connosco. Foi uma coisa horrível, horrível, horrível”.

Passaram-se vários meses até conseguir voltar ao trabalho e a alguma normalidade.

“Estava num estado em que dizia `não vale a pena, vens trabalhar um dia e não sabes o que te vai acontecer”.

“Um dia maravilhoso em Nova Iorque, e de repente tudo mudou”, afirma.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.