O Colégio de São Gonçalo, em Angra do Heroísmo, está sob suspeita de alegados maus tratos a crianças por parte de uma educadora de infância. O caso, noticiado em primeira mão pela RTP Açores, encontra-se no Ministério Público, após uma das mães das vítimas ter apresentado queixa, por um facto ocorrido em agosto de 2025. No entanto, há relatos mais antigos, com encarregados de educação a falarem em situações que foram encobertas pela instituição.
Até agosto do ano passado, quando Carla Pereira presenciou o seu filho, hemofílico e, na altura, com quatro anos de idade, a ser alvo de maus tratos físicos e psicológicos. “Ele já demonstrava algum medo em ir para o colégio, em relação à educadora, mas sempre julguei que era por ela ser uma pessoa mais fria. Ele dizia que tinha medo e pedia para não ficar”.
Naquele dia, Carla deixou o filho no colégio, com as funcionárias a tranquilizarem a mãe que ele ficaria bem. “Ele chorava muito e diziam-me que passado cinco minutos já estava bem. Dessa vez, eu esperei os cinco minutos, mas não porque desconfiasse de nada”.
É aí que ouve a educadora de infância aos gritos com o seu filho: ato contínuo, corre até ele e encontra-o sem sapatos nem meias, a ser arrastado pela funcionário pelo braço esquerdo, membro que já apresentava dores. “Eu vi-a suspender o meu filho no ar pelo braço e dar-lhe uma palmada no rabo. Gritei e o meu filho veio logo ter comigo, a chorar”, conta.
O filho foi assistido no hospital da Terceira, com queixas no braço: “O meu filho ficou com o braço deformado”.
Apesar das desculpas da educadora, Carla Pereira apresentou queixa junto da direção do colégio e da Inspeção Regional da Educação. Dois dias depois do incidente, entrou numa esquadra da PSP e apresentou queixa formal.
Quando Carla apresentou queixa, a educadora meteu baixa até ao final do ano, e foi durante esse período que cumpriu os 10 dias de suspensão, sem vencimento, impostos pela Inspeção Regional da Educação, que confirmou que o comportamento alegadamente agressivo configurava uma violação dos respetivos deveres, além de não ter sido a primeira vez que a funcionária era alvo de censura.
Carla retirou o filho, por sentir que havia encobrimento das situações: “Quando denunciei no colégio, chamaram as auxiliares que estiveram nesse dia e todas disseram que não viram nada, o que me deixou com pouca confiança”.
Mas à denúncia de Carla Pereira seguiram-se outras: uma mãe, que falou com o Açoriano Oriental sob anonimato, conta uma situação ocorrida na mesma instituição, um ano antes, em 2024, com a sua filha mais nova, então com quatro anos.
“Quando chegava a altura de ir para o colégio, ela ficava em pânico, ficava destabilizada”, conta. A situação foi reportada à educadora de infância que desvalorizou a situação. “De certa forma, descredibilizava a minha filha, dizia que era manha”.
Até que, um dia, a filha chega a casa com a roupa vomitada: “Disseram-me que ela tinha sentido uma indisposição, mas sentimos a partir desta altura que a repulsa pelo colégio aumentou drasticamente”, conta a mãe.
A filha começou a apresentar comportamentos que já tinha ultrapassado, como fazer xixi na cama. Mas foi só quando um telefonema da filha mais velha - que também frequentava a mesma instituição - que esta mãe tomou consciência do que se passava.
“No telefonema, uma amiga da minha filha mais velha disse ter visto a educadora agarrar nos braços da minha filha e ameaçar que lhe batia se não parasse de chorar e que iria chamar a mãe para dar mais palmadas. E ao fundo, só ouvia a minha filha mais nova a chorar”.
Só quando os pais retiraram a filha do colégio é que a menina conseguiu contar o que assistia: “Ela disse-me que a educadora nunca lhe bateu, mas viu-a bater noutros meninos e ficava com medo. O episódio do vómito foi porque lhe forçaram a comer até ela vomitar, o que era contra o que tínhamos pedido”.
Confrontada a direção do colégio, esta mãe sente que o caso foi desvalorizado: “Disseram que a pessoa em questão tinha tido uma infância difícil, para darmos um desconto”.
A encarregada de educação também apresentou queixa na Inspeção Regional da Educação, que puniu a educadora apenas com uma advertência, refere. “Quando a direção do colégio soube da minha queixa à inspeção, censurou-me, e senti que queriam abafar o caso”.
À RTPAçores, a direção do colégio disse, em comunicado, ter desencadeado os procedimentos legais apropriados, após ter tomado conhecimento dos factos, reafirmando o compromisso com a segurança e proteção das crianças.
Mãe ouvida no Ministério Público oito meses após queixa na PSP
Carla Pereira foi ouvida na quarta-feira, no Ministério Público de Angra do Heroísmo, oito meses depois de ter apresentado queixa na PSP. A audição da mãe aconteceu após a primeira notícia dos alegados maus tratos, na segunda-feira, tendo o Ministério Público inquirido algumas testemunhas. “Estou a aguardar que o Ministério Público faça mais investigações”, afirmou ao Açoriano Oriental.
