Violência

Mais agricultores brancos do Zimbabué expulsos e espoliados

Mais uma fazenda pertencente a agricultores brancos no Zimbabué foi invadida esta semana por auto-proclamados "veteranos de guerra" e as suas proprietárias forçadas a abandonar as terras e equipamentos, disse hoje uma delas à agência Lusa.


  "Um grupo de homens que se auto-proclamam veteranos de guerra e milicianos da Zanu-PF (o partido de Robert Mugabe) invadiu-nos a propriedade terça-feira e forçou-nos a partir e a deixar para trás tractores, carrinhas e motos que faziam parte da exploração", disse à Lusa Casey Wiggin, uma das proprietárias de uma fazenda de bananas da zona de Bruma Valley, nos arredores de Mutare.

    Em entrevista telefónica a partir de Manica, Moçambique, onde reside desde que foi forçada a abandonar as terras que explorava com uma irmã em Bruma Valley, Casey Wiggins contou que o grupo as ameaçou fisicamente e ordenou que partissem de imediato.

    A proprietária agrícola, que gravou todo o diálogo entre ela, a irmã e o grupo de ocupantes, facultou à Lusa a gravação integral dos momentos em que perderam tudo o que tinham construído no seu país-natal.

    Na gravação são claramente audíveis as ameaças de agressão e as ordens dadas pelos ocupantes de abandono imediato da propriedade.

    Wiggins e uma irmã geriam a propriedade de Bruma Valley há oito anos, desde que o pai, Malcolm, foi detido e agredido por auto-proclamados "veteranos de guerra" quando os partidários da Zanu-PF começaram a ocupar e a expropriar as fazendas dos brancos numa campanha que provocou dezenas de mortos e levou à paralisia quase total do sector agro-pecuário.

    "Eu e a minha irmã ficámos na fazenda porque uma lei assinada pelo governo conferia direitos sobre a terra aos zimbabueanos que, apesar de brancos, tinham nascido após a independência do país do Reino Unido. Obviamente que isso já não conta e hoje o Zimbabué não respeita qualquer tipo de legislação", disse à Lusa a proprietária espoliada.

    Os pais haviam-se mudado para Moçambique logo após os traumáticos incidentes de que foram vítimas, onde nos últimos anos se dedicam à exploração agrícola.

    Nas zonas rurais do Zimbabué a campanha de terror e intimidação contra os apoiantes do Movimento para a Mudança Democrática (MDC) não dá sinais de abrandamento.

    Em comunicado hoje emitido pela ONG "Zimbabué Projecto de Paz" (ZPP) - que monitoriza a violência política nas 10 províncias do Zimbabué - é revelado que nas áreas de Midlands, Mahonaland East e Mashonaland West alegados apoiantes da oposição continuam a ser agredidos, raptados, forçados a pagar multas pelos régulos fieis ao regime e em alguns casos assassinados.

    Monitores do ZPP reportam que em Chirumhanzu e Mberengwa (Midlands), dezenas de simpatizantes do MDC têm sido agredidos e forçados a abandonar as suas casas, sendo em alguns casos forçados a pagar uma multa aos régulos locais na forma de uma vaca por cada pessoa acusada de apoiar o movimento de Morgan Tsvangirai.

    Em Mashonaland East, o ZPP confirma as mortes de quatro militantes do MDC na fazenda Changwe, situada em Murewa South.

    "Os veteranos de guerra e milícias jovens da Zanu-PF que estão acampados nas instalações da Junta de Comercialização de Cereais (GMB) em Macheke impediram que as famílias enterrassem os mortos, e a polícia, embora chamada a intervir, ignorou os apelos dos familiares das vítimas", conclui o comunicado hoje enviado à Lusa.

    O ZPP apela às autoridades e ao governo do Zimbabué para que reponham o Estado de Direito, a ordem e a Justiça no país.
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