É uma bênção que o meu disco continue a ter relevância

Entrevista ao cantor Chico César, que atua sábado (14 de março) no Teatro Micaelense



Qual é o significado desta digressão em que celebra 30 anos do seu primeiro trabalho discográfico “Aos Vivos”?

Para mim é uma alegria muito grande voltar a Portugal, porque Portugal foi um dos primeiros países da Europa onde estive com o projeto “Aos Vivos”, em formato de voz e violão. Tive a oportunidade de abrir um concerto da Daniela Mercury num dos Coliseus. Desde que fui a Portugal pela primeira vez, fui conhecendo artistas com os quais me identifiquei bastante, como a Né Ladeiras e o Fausto, com quem tive a oportunidade de almoçar e conversar.

Reencontrar o público português é um prazer. E quando falamos de público português, referimo-nos às pessoas que estão em Portugal, que não são apenas os portugueses: há os africanos lusófonos e há os brasileiros, uma comunidade cada vez mais vasta, presente e variada. No início, este projeto dos 30 anos tinha sido pensado apenas para o Brasil. Mas agora que já caminhamos para os 31, é uma alegria levar este projeto para Portugal.

Como é que tem sido a reação do público a este concerto em que revisita os seus 30 anos de carreira?

É uma celebração. É incrível como as pessoas cantam e vivem praticamente todas as músicas deste disco. Quando o lancei, o primeiro público no Brasil eram estudantes do secundário, com 15 ou 16 anos. Eu tinha 31 anos na altura, por isso eles eram muito mais jovens. Hoje, essas pessoas têm 45 ou 46 anos. As pessoas da minha geração têm agora cerca de 60 ou 62 anos - eu próprio tenho 62.

Percebo também uma renovação do público. Aparecem pessoas muito jovens nos concertos, talvez por serem irmãos daqueles primeiros fãs ou por serem seus filhos. Vem gente com 16 ou 14 anos, e até crianças de 4 anos que amam várias músicas deste trabalho. Este disco continua a ser uma porta de entrada na vida das pessoas.

E como é que se sente ao ver que consegue tocar gerações tão distintas? Deve ser um privilégio?

Sinto-me realmente abençoado, mais do que privilegiado. É como uma bênção sentir que o que eu tinha para dizer no meu disco de estreia deve ser dito para sempre e que terá sempre relevância para pessoas das classes sociais mais distintas e das gerações mais diversas.

Acho incrível porque, no início, quando gravei o disco, pensava de um modo talvez vaidoso ou arrogante: “A letra da minha música é muito importante”. Via no meu trabalho uma importância cerebral e intelectual. Hoje em dia, percebo que essa parte intelectual é apenas uma parte; há uma vertente sensível e sensorial que cativa pessoas com menos escolaridade e crianças. As crianças identificam-se com aspetos genuínos do disco, como línguas inventadas - o “dzaia soiê, dzaia, dzaia” que ninguém sabe o que quer dizer, mas que acaba por ser para todos. Cada pessoa atribui o seu próprio significado. Há sons e gritinhos que as crianças amam, e isso criou um vínculo com as novas gerações. Há mães que me contam que os filhos de 2 anos só adormecem a ouvir a música “Beradêro”. Acho isso incrível.

A digressão para apresentar em Portugal é diferente daquela que preparou para o Brasil? 

É diferente, pois trata-se de outro país. É um país onde a nossa cultura bebe muito e vice-versa; há uma troca constante através das telenovelas, da música, da moda, da culinária e até de influências dialetais no modo de falar que já influencia os jovens portugueses. Mas sabemos que é outro país.

Quando vamos a Portugal, não tocamos apenas para os portugueses, mas também para a diáspora africana lusófona - de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, etc. - e para os muitos brasileiros que vivem aí. Tive uma experiência recente que gostaria de contar: fui fazer um espetáculo com o Mário Lúcio num teatro do centro e, enquanto ia para o ensaio de som, ouvi uma música minha a tocar numa casa de vinhos e petiscos. Era a canção “Pedra de Responsa”. Entrámos devagarinho e vi um senhor de costas a dançar ao som da música. A minha namorada perguntou-lhe o que estava a ouvir e ele, sem me reconhecer de imediato, respondeu: “É uma música muito boa de um artista incrível do Brasil, o Chico César, que vai tocar hoje no teatro. Estou aqui a fazer um aquecimento para o concerto dele”. Ele acrescentou que, num tempo de tantos conflitos e xenofobia, punha aquela música para as pessoas perguntarem de onde era, e ele dizia com orgulho que era do Brasil.

Apresentei-me: “Senhor Luís, que emoção, sou eu, o Chico”. Ele ficou muito feliz. Era um português mais velho e aquele encontro fez-me sentir que o outro nos complementa e nos amplia. Ver um português que ama a minha música e a partilha para tornar as pessoas mais amorosas é, para mim, a verdadeira mensagem.

No dia 14 vai atuar no Teatro Micaelense em Ponta Delgada. É a primeira vez nos Açores?

Sim, é a primeira vez. Aqui temos uma comunidade açoriana em Florianópolis, Santa Catarina. Por isso, para mim é um prazer e uma alegria. Sinto que são pessoas que vêm de uma vida que talvez tenha a ver com a origem destas músicas, uma origem mais rural. Eu próprio venho do interior do Nordeste. E penso que isso cria identificações próprias, diferentes de quando se toca num centro urbano como Londres ou Paris. Adoro tocar nestes lugares onde posso perceber essas novas identificações.

Não sei se há mais alguma coisa que gostasse de acrescentar...

Quero dizer que vou realizar esta digressão com o coração e os braços abertos. É uma alegria imensa podermos celebrar o facto de estarmos vivos, com uma vida profunda e rica de significado, para ser valorizada minuto a minuto.







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