Residência artística de Sofia de Medeiros une ferro e fibras vegetais

Auditório Ferreira da Silva acolhe a exposição “Fibras Vegetais”, de Sofia de Medeiros, resultado de uma residência artística que cruza ferro com materiais tradicionais como vime, espadana e folha de milho, inspirada nas artes de pesca e nos saberes ancestrais do concelho



O Auditório Ferreira da Silva, em Água de Pau, acolhe a exposição “Fibras Vegetais”, de Sofia de Medeiros, que resulta de uma residência artística que uniu o ferro contemporâneo a materiais tradicionais como o vime, a espadana e a folha de milho.

Ao Açoriano Oriental, Sofia de Medeiros revelou que, através da colaboração direta com os artesãos locais Alcídio Andrade e Lurdes Couto, no âmbito do projeto da Câmara Municipal da Lagoa “Entrelaçar Fibras Vegetais”, explorou técnicas ancestrais de entrançamento para criar formas orgânicas inspiradas em armadilhas de pesca.
Uma experiência que Sofia de Medeiros considera ter contribuído para o seu crescimento pessoal e artístico.

“É sempre enriquecedor. Eu adoro estes desafios, uma vez que considero que só assim crescemos artisticamente. Não tenho medo nenhum de pensar coisas novas, nem de falhar e de refazer, fazer, desmanchar. Acho que é mesmo assim”, afirmou.

Esta residência foi ainda mais importante uma vez que lhe permitiu também conhecer o ciclo de produção destas matérias-primas.

“Eu quis mesmo saber todo o processo tradicional de apanha, ripagem, tingimento, rachar a espadana... E fazer, não é? Tive que fazer peças tradicionais para aprender toda a técnica e depois então me lançar a fazer então as minhas formas contemporâneas”, referiu, adiantando que desta forma construiu uma ligação profunda com a identidade do território e com os ciclos naturais das plantas antes de as reinterpretar nas suas esculturas contemporâneas.

Assim surgiu a coleção de peças “Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, que está apresentada na exposição “Fibras Vegetais”.

“A combinação entre ferro e fibras vegetais (vime, espadana e folha de milho) nesta série de obras artísticas estabelece um diálogo direto com as práticas tradicionais das artes da pesca, em especial com as armadilhas artesanais como o covo, o alçapão e os balaios de pesca”, explicou, realçando: “O ferro cumpre a função de elemento rígido e estrutural, responsável pela estabilidade e forma, enquanto as matérias-primas vegetais atuam como elemento de fechamento, trançado orgânico”.

E acrescentou: “Esta combinação de materiais evidencia um conhecimento empírico e técnico transmitido por gerações, onde a escolha das matérias e a adaptação às condições naturais são fundamentais. Ao trazer esses elementos para o campo artístico, a obra ressignifica práticas utilitárias e convoca reflexões sobre território, memórias de trabalho, sustentabilidade e o valor dos saberes vernaculares”.

A exposição, que foi inaugurada na passada sexta-feira, vai estar patente até ao dia 29 de maio, data que coincide com a Semana do Ensino Artístico da UNESCO.

Refira-se que o projeto municipal “Entrelaçar Fibras Vegetais” foi criado com o objetivo de garantir a sustentabilidade e a preservação da arte do entrelaçado com fibras vegetais, valorizando saberes tradicionais transmitidos de geração em geração e o conhecimento das plantas e dos seus ciclos. Nesse sentido, estrutura-se em dois eixos de ação: um dirigido à comunidade em geral e outro à comunidade escolar do concelho de Lagoa.

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