Livro revela como PIDE vigiava trabalhadores, empresários e negócios


 

Lusa/AOonline   Nacional   18 de Nov de 2008, 15:44

“Negócios Vigiados” é o primeiro livro a revelar os segredos das relações da PIDE, a polícia política da ditadura de Salazar, com as empresas portuguesas, de como evitava greves ou chegou a vigiar empresários.
No livro, é descrita a forma como a polícia política interferia abertamente nas (não) promoções de trabalhadores oposicionistas ou quanto pagavam mensalmente as empresas para ter “protecção” – a Sorefame, na Amadora, por exemplo, pagava, desde 1965, cerca de 48 contos.

    A obra é da autoria dos jornalistas Filipe S. Fernandes (director adjunto da revista Exame) e de Luís Villalobos (editor de Economia do “Público”) e tem prefácio da historiadora Irene Flunser Pimentel, Prémio Pessoa e autora da História da PIDE e foi editado pela Oficina do Livro.

    “O grande mérito deste livro é a revelação de que houve de facto uma colaboração em defesa dos interesses comuns, entre a PIDE/DGS e as empresas. (…) A PIDE foi em primeiro lugar o instrumento do regime ditatorial e a polícia do ditador Salazar, não tendo sido um Estado dentro do Estado nem exclusivamente representante dos interesses capitalistas”, escreveu Irene Pimentel.

    Ao longo de 256 páginas, os autores revelam como uma grande empresa como a Lisnave enviava, nos anos 70, listas com centenas de nomes de trabalhadores para serem verificados pela PIDE, que assim identificava quem pertencia ao PCP e quem poderia “criar problemas na disciplina do trabalho”.

    A polícia política do salazarismo também vigiava empresários associados ao regime, como Manuel Vinhas, por ter publicado, em 1961, um livro dissonante da política colonial do governo de Salazar – “Para um Diálogo com Angola”.

    Ao mesmo tempo que pagava à polícia, Manuel Vinhas foi chamado à PIDE para explicar-se por ter publicado um livro que parecia revelar “alguma simpatia” pelos independentistas de Angola.

    Mas o livro revela ainda outros traços menos conhecidos da actuação dos pides.

    Criticava, por exemplo, os empresários – como aconteceu em 1952 com a fábrica de vidros Emílio Galo, na Marinha Grande – devido às más condições de vida dos trabalhadores que, assim, podiam revoltar-se, fazer greves ou paralisações e obrigariam à intervenção da polícia política.

    Mas se a PIDE, concluiu a historiadora Irene Pimentel, vigiava os empresários, não actuava “nunca com a violência que reservava aos principais adversários políticos do Estado Novo – os comunistas”.

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