INEM acusado de negligência na morte de homem


 

Lusa / AO online   Nacional   23 de Out de 2007, 16:13

A família de um homem que morreu na viagem entre o Centro de Saúde de Castro Daire e o hospital de Viseu acusou esta terça-feira o INEM de negligência, alegando que a viatura da emergência médica não chegou a tempo.
O INEM, por seu lado, rejeita responsabilidades.

A edição de hoje do Diário de Notícias refere que Aquiles Correia, de 34 anos, foi transferido do centro de saúde "apenas com o motorista da ambulância e sem o acompanhamento de médico e enfermeiro" e chegou sem vida ao hospital.

Em declarações à Agência Lusa, a cunhada de Aquiles Correia, Carla, que o acompanhou na ambulância, mostrou-se convencida de que "ele morreu por falta da VMER (viatura de emergência médica), que não chegou a tempo de lhe prestar assistência".

"Está tudo muito fresco e ainda não decidimos o que fazer. Mas houve aqui negligência, a culpa é do INEM", frisou a antiga militar que, usando os conhecimentos que tem de primeiros socorros, foi fazendo manobras de reanimação ao longo da viagem.

Já na quarta-feira passada, Aquiles tinha sido levado ao centro de saúde "porque se queixava de muitas dores de estômago, tinha vómitos e diarreia", tendo sido transferido para o Hospital de S. Teotónio, em Viseu, "onde o mandaram para casa, com bastante medicação", depois de fazer exames.

"Mas ele continuou a sentir-se mal, de vez em quando até via tudo branco, e, no domingo à noite, à hora de jantar, fomos todos com ele novamente para o centro de saúde", contou.

Segundo a cunhada, o médico decidiu enviá-lo para Viseu, mas "havia ambulâncias ocupadas e, só mais de uma hora depois", é que a ambulância dos bombeiros voluntários partiu com destino ao hospital, pela auto-estrada A24.

"Fui eu com ele, mais o bombeiro que ia a conduzir. Ele ia com muito frio, a falar normalmente, mas assim que chegámos à saída do Carvalhal (a cinco minutos do centro de saúde) ele disse para mandar parar a ambulância", relatou.

Aquiles Correia "estava a entrar em paragem cardio-respiratória, o bombeiro pediu ajuda ao CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) para que mandassem a VMER e combinaram encontrar-se em Moselos", imediatamente após a saída da A24, acrescentou.

"O bombeiro disse-me 'faça o que puder que eu vou acelerar o máximo'. Ele em Moselos estava a respirar, ainda que com muita dificuldade, mas não estava lá ninguém à nossa espera e seguimos", recordou Carla, que com a preocupação de reanimar o cunhado não se apercebeu se se cruzaram ao não com a VMER.

A mulher viu que o cunhado deixou de respirar "junto ao Pingo Doce, a três minutos do hospital" e, por isso, está convencida de que, com a intervenção da VMER, "poderia até morrer daí a oito ou quinze dias ou ficar com sequelas, mas não morria no domingo".

O INEM rejeitou responsabilidades neste caso, garantindo que a VMER saiu logo que foi chamada e se dirigiu ao chamado ponto do "rendez vous", em Moselos, e aguardou a chegada da ambulância dos bombeiros, como a Lusa pôde confirmar através de gravações das chamadas.

No entanto, na altura em que a VMER chegou a Moselos, já a ambulância dos bombeiros voluntários estava próxima do hospital.

Pedro Coelho dos Santos frisou que, neste caso, "há duas situações a que o INEM é completamente alheio": o ter havido "uma transferência de doentes sem que a unidade de saúde (o centro de saúde) disponibilize profissionais de saúde para acompanharem o doente" e o doente ser "transferido numa ambulância em que segue apenas um tripulante".

Por outro lado, o responsável do gabinete de informação do INEM frisou que está "inequivocamente demonstrado nas gravações das chamadas que a ambulância dos bombeiros não parou no local previamente combinado".

 "O INEM estava a tentar resolver um problema que surgiu e não é responsável por ele. A ambulância não parou no local previamente combinado e a VMER não pôde prestar assistência", lamentou.

O comandante dos bombeiros voluntários de Castro Daire, João Cândido, disse à Lusa que considera que o condutor da ambulância decidiu bem ao não ter parado em Moselos, porque "ia a tentar tudo por tudo (para salvar o doente) e viu que a VMER não aparecia".

Segundo João Cândido, a ambulância cruzou-se com a VMER "junto ao Lidl, o bombeiro fez sinal de luzes e ligou a sirene, mas eles não pararam".

O regulamento do transporte de doentes estipula que, quer nas ambulâncias de transporte (tipo A), quer nas de socorro (tipo B), a tripulação é constituída por dois elementos, sendo um simultaneamente condutor.

Os das primeiras devem ter o curso de tripulante de ambulâncias de transporte. Quanto às segundas, pelo menos um dos elementos da tripulação deve possuir obrigatoriamente o curso de tripulante de ambulância de socorro.

João Cândido admitiu que, neste caso, apenas seguia na ambulância o motorista com o curso de tripulante de ambulâncias de transporte, o doente e a cunhada.

"A informação que tínhamos é que seria uma situação de transporte absolutamente normal, em que o senhor iria na maca por ser paraplégico, para ser mais confortável. E deixámos ir uma cunhada para lhe dar ajuda", contou.

Segundo o comandante, o tripulante da ambulância "fez tudo" para salvar o doente (tendo as rodas da ambulância chegado ao hospital a fumegar) e, vendo a gravidade da situação, ele próprio se colocou a caminho na viatura particular, mais veloz, acompanhado de um técnico de socorro e de um desfibrilhador.

Ainda que admita conhecer a legislação, João Cândido disse ser "incomportável irem sempre duas pessoas na ambulância numa situação de transporte normal".

"Mesmo que fossem dez (bombeiros) naquela ambulância, não poderiam salvá-lo", lamentou.

Contactado pela Lusa, o director do centro de saúde de Castro Daire, António Jorge, escusou-se a dar dados sobre este caso concreto.

No entanto, explicou que, "no plano geral, quando a avaliação que se faz é de uma situação de perigo eminente de vida, é contactada a VMER para fazer o transporte, noutras em que não parece ser uma situação muito grave, chamam-se os bombeiros".

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