Francisco Louçã antecipa adeus ao partido depois de 13 anos à frente do Bloco de Esquerda

Francisco Louçã antecipa adeus ao partido depois de 13 anos à frente do Bloco de Esquerda

 

Lusa / AO online   Nacional   18 de Ago de 2012, 16:08

Francisco Louçã, o líder partidário mais antigo com assento parlamentar que anunciou sexta-feira que não se recandidatava à liderança do Bloco de Esquerda (BE), começou a vida política aos 16 anos.

 

Francisco Louçã não se recandidata à liderança de um partido que ajudou a sentar no Parlamento, mas deixa uma garantia: “Não faltarei a nenhuma das lutas a que a imaginação, a fidelidade aos valores de esquerda, a defesa do trabalho, a cultura da solidariedade nos vai levar", lê-se na carta enviada aos correlegionários e tornada pública no Facebook.

O ainda líder do BE foi eleito pela primeira vez para o Parlamento em 1999 nas listas do BE, depois de nas legislativas anteriores, em 1995, ter estado a escassos votos de ter um assento parlamentar pelo Partido Socialista Revolucionário (PSR), que alcançou cerca de 17.000 votos no círculo de Lisboa.

Na carta enviada aos "militantes e amigos” do BE, Louçã afirma: “Durante treze anos, dei tudo o que podia e sabia ao nosso movimento” e refere as lutas do BE que liderou, nomeadamente “na defesa da escola pública, do serviço nacional de saúde e da segurança social” e “algumas vitórias [como] o princípio da abertura do sigilo bancário e outras medidas contra a corrupção e a evasão fiscal”, sem esquecer algumas causas fraturantes pelas quais lutou, como a descriminalização das drogas leves, o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a despenalização do aborto.

Em jeito de balanço, Louçã afirma que fez “mais de um milhão de quilómetros pelas estradas” de Portugal e discutiu com cinco primeiros-ministros - “disse-lhes do que é esta esquerda moderna e socialista”, afirma na missiva.

O político recorda também que debateu ideias com candidatos a Presidente República, nomeadamente quando se candidatou ao cargo em 2006, tendo recebido 292.198 votos, pouco mais de cinco por cento do total entrado nas urnas, numa eleição ganha à primeira volta por Aníbal Cavaco Silva com 50,5 por cento.

Aos simpatizantes e militantes atesta: “Fomos à luta. Gostei do que fizemos”.

Francisco Anacleto Louçã, 56 anos, é doutorado em Economia, uma área de estudo que escolheu aos 14 anos.

O historiador António Simões do Paço, autor da única biografia publicada de Louçã, em 2009, contou à Lusa o episódio: “Uma vez em que se encontraram numa festa de aniversário [Marcelo Caetano] perguntou ao Francisco, que tinha então 14 anos, para que curso pensava ir quando concluísse o secundário, tendo este respondido ‘Económicas’. ‘Um antro de comunistas’, comentou o antigo presidente do Conselho”.

Será contra Caetano que Francisco Louçã se inicia na política, aos 16 anos, quando foi detido pela então polícia política, a PIDE/DGS, durante uma vigília pela paz na capela do Rato, em Lisboa.

Terminado o ensino secundário, matriculou-se no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e adere a um pequeno partido trotskista, a Liga Comunista Internacional (LCI) e mais tarde inscreveu-se no PSR que esteve na génese do BE.

À frente do BE desde a sua fundação, o partido alcançou dois lugares no Parlamento em 1999, traçando uma trajetória ascendente nas sucessivas eleições seguintes, que o levou a alcançar 16 deputados e mais de meio milhão de votos em 2009, até à descida registada nas eleições realizadas em junho do ano passado em que obteve menos de trezentos mil sufrágios, reduzindo o grupo parlamentar para metade – oito deputados.

Francisco Louçã é descrito pelo seu biógrafo como “um homem reservado” e avesso a falar da esfera privada e familiar, que foi um estudante exemplar tendo recebido os prémios de melhor aluno do Secundário e da Licenciatura.

O economista e político concluiu o doutoramento em 1996 e três anos depois prestou provas de agregação académica, tendo sido aprovado por unanimidade. Atualmente, preside à Unidade de Estudos sobre a Complexidade na Economia do ISEG, onde é professor catedrático.

Em 1999 recebeu o prémio da History of Economics Association para o melhor artigo publicado numa revista científica internacional. Louçã integra várias associações internacionais como a American Association of Economists, e pertence ao conselho editorial de várias revistas científicas internacionais, nomeadmente o Journal of Economic Literature e o Cambridge Journal of Economics.

À Lusa Afonso Paço declarou: “O Francisco Louçã tem uma família, amigos, gosta de viajar, de comer bem, gosta de ler e ouvir música, gosta de cinema e até já fez crítica de cinema para a TSF, conhecer uma pessoa que é uma figura pública é também ter uma ideia do que ela é para além da profissão”.


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