Fim da mudança de hora pode ter impactos na agropecuária dos Açores

Fim da mudança de hora pode ter impactos na agropecuária dos Açores

 

Lusa/Ao online   Regional   19 de Abr de 2019, 12:35

Nos Açores, o relógio marca uma hora mais cedo do que no continente e Madeira, mas mesmo assim está desfasado da hora real, segundo o professor Félix Rodrigues, que defende a manutenção dos horários de verão e de inverno.

“Quanto maior for o desfasamento entre a realidade e aquilo que é oficial, mais problemas teremos em termos do comportamento biofísico de determinados animais. Isto é mais crítico em zonas de produção agropecuária, como é o caso dos Açores”, adiantou, em declarações à Lusa, o docente da Universidade dos Açores.

Segundo Félix Rodrigues, neste momento já existe no arquipélago um desfasamento de uma hora entre o tempo real e o que marca o relógio, devido à necessidade de aproximação do horário do resto do país.

“Há aqui um conjunto de implicações imediatas especialmente no que diz respeito a transações comerciais. Quando nós queremos comunicar entre bancos, por exemplo, o facto de os bancos no continente e nos Açores funcionarem a horas diferentes produz inconvenientes, porque a hora a que se processa uma transação nos Açores pode levar a que no continente esteja fechado”, explicou.

No final de março, o Parlamento Europeu pronunciou-se a favor do fim da mudança de hora bianual, a partir de 2021.

Para o investigador da Universidade dos Açores, licenciado em Física e doutorado em Ciências do Ambiente, Portugal vai sentir os efeitos dessa medida, porque já tem um desfasamento da hora real, mas no arquipélago a diferença será ainda mais significativa.

“À medida que o dia vai passando, a terra vai rolando e, portanto, o meio-dia real coincide com a hora exata em que o Sol se encontra sobre nós. Quando nós passamos a ter horas oficiais que alteram esta lógica, altera-se também o período de luz e de escuridão”, sustentou.

Nos Açores, esse impacto ganha ainda maior dimensão pelo peso da agropecuária, porque os animais não respondem ao relógio, mas à luz.

“Não é o facto de oficialmente alterarmos a hora que vai fazer com que o ritmo dos animais se altere. Os animais têm um ciclo de comer, de produzir leite e de dormir, que corresponde exatamente aos períodos de luz e de ausência de luz”, frisou o professor da academia açoriana.

No passado, houve uma tentativa de uniformização de horários em Portugal, com as regiões autónomas e o continente a adotarem o horário do meridiano de Greenwich, mas a experiência gerou protestos e durou pouco tempo.

“Eu lembro-me de esta experiência ter corrido muito mal, porque os animais não produziam leite na altura em que estavam a ser ordenhados, porque ainda não estava na altura certa da ordenha, estava desfasado duas horas”, recordou.

Além dos prejuízos que a medida provocou em alguns setores de produção, houve um maior consumo de energia elétrica, porque o Sol nascia mais tarde.

“Houve um aumento dos gastos energéticos, porque todas as crianças passaram a ir para a escola completamente às escuras. Tinha de se andar com a luz acesa até às 10:00 da manhã”, referiu Félix Rodrigues.



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