“Estamos a necessitar de voltar aos tempos de muito teatro”

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Paulo Simões/Paula Gouveia   Regional   2 de Nov de 2009, 07:30

Fernando Franco, homem da rádio e da televisão, dedica-se agora ao teatro. Em Conversa Fiada, na rádio Açores/TSF, fala da sua última paixão: a escrita e a encenação.

O teatro é uma paixão recente ou já vem de trás?

Vem muito de trás. Eu fiz teatro e cinema, quando era muito novo. Mas depois, por razões profissionais, deixei de fazer. Vim para os Açores em 75 e tive 18 anos de RTP muito absorventes. Nunca deixei a rádio, mas o teatro foi ficando. E agora que estou liberto desses dois venenos - a rádio e a televisão - resolvi dedicar-me ao teatro. E da melhor forma: procurando gente jovem que queira fazer teatro, dando-lhes formação - convém dizer que sempre dei formação sobre a "arte de dizer" ou de "dizer com arte", como sugeriu um formando meu. "Dizer com arte" é dizer as coisas como nós queremos que as pessoas as sintam.

Isso é uma boa dica para políticos, gestores e figuras públicas...

É exactamente nessa área que estou a dar - e sempre dei - formação, embora de uma forma muito discreta.

O que ensina?

Nós muitas vezes temos um discurso preparado ao pormenor. Mas diante de uma assembleia, a voz começa a subir para a garganta, a respiração falta, e perdemos o controlo absoluto da nossa própria dicção - e o resultado é que depois chegamos à conclusão que a mensagem não passou porque não foi bem dita - não foi clara e faltou a respiração.

Hoje com muita facilidade se chega ao microfone e fala-se. Mas há alguns anos atrás, as pessoas passavam por formação, por uma triagem, e depois iam "step by step" até chegarem ao microfone para dizerem algo com volume.

A televisão vive da imagem e consegue-se passar a mensagem pela expressão, não necessitando tanto da voz. A rádio é diferente, é preciso as inflexões todas para que as pessoas em casa possam perceber o que se está a dizer. A rádio é uma grande escola. E o teatro é uma grande escola de vida. Se fores fazer teatro, a vida muda radicalmente.

Como assim?

As pessoas deixam de temer enfrentar público. O teatro permite termos consciência de nós próprios, do nosso espectro magnético. No teatro estás a falar para uma plateia, mas tens o teu espaço, a tua atitude. E hoje, os actores, os locutores, apresentadores de televisão, precisam de trabalhar a sua atitude. Eu tive 18 anos de televisão. E a televisão ensinou-me muitas coisas, mas não me ensinou uma coisa fundamental - a não ser tímido. Mas no palco não sou.

O que é este regresso ao teatro? É um abrir de novo ciclo, acabar algo inacabado?

É um pouco disso tudo. Hoje acho que posso transmitir com muito mais à vontade o que aprendi, também com outros... Essa sempre foi a minha atitude. É a soma de tudo, da experiência de vida, dos meus 62 anos, mais de 40 em profissão, que me leva a voltar ao teatro. E voltar ao teatro em condições muito especiais. Estamos a criar um grupo de teatro na Casa do Povo da Fajã de Baixo - a casa de Natália Correia.

Estamos a necessitar, aqui em São Miguel, de voltar aos tempos de muito teatro, em que toda a gente se sentia bem na plateia. Nós não vamos pôr em cena peças que possam agradar muito ao encenador, mas sim, peças que primeiro, agradem ao actor fazê-las, que, segundo, o espectador possa entendê-las, e, terceiro, saindo de lá a pensar na mensagem que as peças queriam transmitir.

Sei que tem quatro peças disponíveis, e uma delas já foi levada à cena em Aveiro. Que peças são essas e o que focam?

"O provisório é definitivo" aborda entre outras coisas a perseguição que é movida aos fumadores. E o Estado demite-se, porque se eu quiser umas pílulas para deixar de fumar vou ter de as comprar. Quando a outros que consomem outro tipo de "medicamentos" são-lhes fornecidas seringas... Muito provavelmente vamos trabalhá-la aqui nos Açores. E há "O mito e o grito" que vai falar de nós, dos Açores. Embora esteja focalizada no mito da estatueta do Corvo (há um livro publicado sobre isso), toca aspectos religiosos, como o conflito entre católicos e muçulmanos. Situa-se no século XVII, na então ilha do Marco (mais tarde ilha do Corvo). É uma peça com uma mensagem muito pesada, mas também muito bonita. E estou a acabar uma peça chamada "Minas e Armadilhas" que toca a problemática dos veteranos de guerra do Ultramar. Hoje temos vergonha em falar daqueles que foram obrigados a ir lá para fora lutar e alguns deixaram lá ficar metade do corpo, mas nós não queremos falar deles... Há quem sofra de stress pós-traumático - a guerra passou por todos, mas para eles continua o horror. É uma peça que vai ser certamente polémica, mas que vai ter um público muito grande. E a quarta peça é "Ó tio, ó tio" - é uma sátira, uma coisa muito ligeira que contém uma mensagem. Passa-se na ilha de São Miguel.Mas é real... Tem a ver com alguns costumes de encontrar noiva facilmente.

O grupo de teatro tem nome?

"Vamos lá"!

E em que fase está?

Temos o "casting" em aberto. Temos actores a trabalhar numa destas peças. Queremos recrutar o máximo de gente possível, de todas as idades. Eu garanto a formação - colocação da voz, respiração, e depois outras técnicas.

O facto de estarem na casa que foi de Natália Correia...

É um simbolismo extraordinário. Eu tive o privilégio de conhecer Natália Correia e de ter confraternizado com ela, por uma ou duas vezes, em grupo. Era uma mulher extraordinária, a quem a cultura dos Açores fica a dever imenso. A quem a cultura de Portugal não a pode esquecer. Dá-me um gozo muito grande estar ali a trabalhar entre aquelas paredes...

Quando gostarias de ver a tua primeira peça em palco?

Não sei, só vamos marcar datas quando tivermos metade do caminho percorrido.

Quem quiser fazer teatro pode ir à Casa do Povo da Fajã de Baixo?

Pode e deve. Inscreve-se ou então envia um email para vamos.la.teatro@gmail.com, com a idade e o contacto. Está aberto a todos!

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