Açorianos preocupados com “subida fatal” dos combustíveis a partir de sexta-feira

Muitos condutores açorianos estão a acorrer às bombas de combustíveis para encherem os depósitos das viaturas antes da “subida fatal” dos preços na sexta-feira, situação que consideram “absurda” e nunca antes registada no arquipélago



A grande procura de combustíveis tem originado a formação de filas e longos períodos de espera nos postos de venda de combustível, havendo funcionários que se queixam de que nem conseguem “ir à casa de banho”.

A agência Lusa fez uma ronda por postos de combustíveis das ilhas de São Miguel, Terceira e Faial, onde constatou cenários idênticos: longas filas de espera e preocupações pelos aumentos da gasolina (21,7 cêntimos na de 95), gasóleo (36,3 cêntimos) e gás doméstico (36,9 cêntimos o quilograma).

A “corrida” aos postos de combustíveis açorianos começou na quarta-feira, quando se soube que os preços iriam subir.

O movimento tem sido praticamente constante e idêntico em todos os postos de abastecimento da região, havendo casos em que funcionários das caixas de pagamento “nem têm tempo para comer ou para ir à casa de banho”, como acontece no posto de abastecimento da Ribeira Seca, Ribeira Grande, São Miguel.

A funcionária Georgina Rodrigues contou à agência Lusa que “não há mãos a medir” para uma situação que acontece pela primeira vez, pois “nunca houve uma subida de preços tão grande”.

“Os clientes estão a queixar-se de que é um aumento muito grande e não ganham para combustíveis”, disse, explicando que a gasolina e o gasóleo ainda não faltaram, mas o gás doméstico “já é pouco”.

No exterior do estabelecimento, após abastecer o carro com 50 euros de gasolina, Luís Ferreira vaticinou que “isto ainda vai acabar mal” e as pessoas “ainda vão acabar por andar a pé ou de bicicleta”.

Paulo Garcia, que abastecia a viatura de serviço com gasóleo “a mando do patrão”, contou que este pediu-lhe para prover o depósito antes da subida.

A nível particular, não se mostrou muito preocupado com os aumentos da gasolina e gasóleo, porque tem um carro elétrico e uma moto, mas receia que a situação “afete tudo”.

Ainda na Ribeira Grande, Carla Santos foi colocar combustível no carro, mas não atestou “porque anda pouco” e considerou os aumentos “um absurdo”.

No vizinho concelho da Lagoa, nas bombas de combustível do centro da cidade, na hora de almoço, “acotovelavam-se” 12 carros entre o acesso ao serviço e a estrada, ocupando uma das faixas de rodagem e causando contratempos na fluidez rodoviária.

Um após o outro, os condutores pagavam com cartão, abasteciam e seguiam viagem, com algum “alívio na carteira”.

“Atesto sempre no final do mês e foi o que fiz hoje. Como os aumentos entram em vigor amanhã, ‘mato’ dois ‘coelhos’ de uma vez: atesto e poupo entre 15 a 20 euros”, disse Eduardo Soares.

Já Adelaide Mendes declarou à Lusa, enquanto esperava pela vez para encher o depósito do carro, que hoje poupava “18 euros”.

Os novos preços dos combustíveis originam uma “situação complicada para toda a gente”, disse, indicando não ter memória “de uma coisa assim nos Açores, em que o gasóleo ficou mais caro que a gasolina”.

“Espero que isto não dure muito tempo e que o Governo Regional reveja semanalmente os preços, porque se assim fosse, não se verificava este aumento”, afirmou, numa opinião comungada por Paulo Picanço, ao afirmar que o executivo “podia tomar outras medidas para ajudar” os açorianos.

Na via rápida de ligação Lagoa - Ponta Delgada, onde se situam três bombas de combustíveis, pelas 14h00, apenas numa delas o movimento era reduzido, porque estava a ser reabastecida por um camião-cisterna. Nas outras as filas eram grandes e formadas por carros ligeiros, camiões, autocarros e carrinhas.

Cláudio Valdão esperava por vez no posto de abastecimento no sentido Lagoa - Ponta Delgada para atestar o jipe de 1994, “porque pagar dois euros por cada litro de gasóleo é ‘muita fruta’”.

“Não faço muito uso do carro, às vezes até costumo ir para o trabalho de bicicleta, mas a partir de agora até vou mais vezes”, admitiu.

Por sua vez, Joana Noia foi de propósito do centro de Ponta Delgada à via rápida para “tentar abastecer o carro e aproveitar o desconto que tem em cartão”, depois de essa possibilidade ter sido rejeitada noutra gasolineira “porque o cartão não funcionava”. “Mesmo que o cartão não funcione, atesto na mesma, porque nunca vi um aumento desta maneira. É uma subida fatal."

Na ilha Terceira, desde quarta-feira que há filas nas bombas de gasolina, havendo até algumas fora de serviço.

Numa fila para atestar a carrinha, em Angra do Heroísmo, José Codorniz classificou como “uma loucura” o aumento de preços anunciado.

“Não sei o que é que as pessoas vão comer daqui a dias. A terra é que dá tudo. Com o gasóleo dessa maneira para trabalhar com máquinas não se pode”, afirmou o reformado.

A situação é particularmente preocupante “para quem tem ordenados pequenos e tem de pagar rendas de casa”, alertou, referindo que em 40 litros de gasóleo o aumento é de quase 15 euros.

“Se eu fosse deputado tinha vergonha de andar na rua, em Portugal todo. Na semana passada, a gasolina estava a 1,56 euros em Espanha e ao lado a 2 euros. Onde é que se vê isto? É uma roubalheira”, criticou.

Também a aguardar na fila, que já interrompia o trânsito, Anselmo Falcão considerou a subida do preço dos combustíveis “demasiado injusta” para quem precisa de usar carro.

“É substancial para toda a gente e penso que é significativo. Se houvesse outro tipo de gestão ou de atenuação por parte da governança se calhar era o ideal”, acrescentou.

Com o carro quase na reserva, Sara Freitas disse aguardar na fila com medo que a gasolina acabasse e também não poupou críticas à subida dos preços.

“Acho um absurdo, porque está tudo cada vez mais caro e nós não vemos essa subida de ordenados comparativamente. Como é que as pessoas vão conseguir pagar as contas?”, questionou.

Na cidade da Horta, na ilha do Faial, o cenário de movimento é idêntico. Nas bombas de combustível situadas na entrada da cidade, onde o proprietário chegou numa trotinete elétrica, a Lusa contabilizou, pelas 15h00, uma fila de 22 viaturas.

O taxista Roberto Malhão disse que o “aumento brutal” dos preços dos combustíveis “vai provocar estragos em várias atividades”, incluindo o setor dos transportes.

Hélio Oliveira atestou a mota e relatou que na quarta-feira tinha atestado um dos carros da família para aproveitar que os preços ainda não subiram: “É um aumento enorme e, por este andar, as pessoas têm de andar a pé”.

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