Angola é um país "entre a Disneyland e o wild west" no caminho de quatro expatriados


 

Lusa / AO online   Internacional   24 de Ago de 2008, 12:08

A reconstrução de Angola está à frente dos seus olhos mas a "dureza nas relações humanas", a carência de quadros e o contraste entre ricos e pobres levam quatro estrangeiros residentes no país a encarar o futuro com reservas.
    A viver em Angola há 13 anos, Nancy Gottlieb, fica surpreendida todos os dias "com o que está a acontecer" quando sai de sua casa em Benguela. "Foram 13 anos a sair daqui, sempre na mesma estrada péssima, os mesmos buracos, todos os dias, nada muda... até que depois começou a mudar um pouco e, de repente... tudo mudou", conta esta norte-americana de 53 anos, que dirige uma escola de inglês com o seu nome.

    Angola , descreve, "é actualmente uma mistura de Disneyland e wild West".

    No sonho, ela vê a reconstrução, a sua escola cheia de alunos sedentos de aprendizagem, o mesmo nas universidades, com os alunos perfilados nas salas de aula com os seus 'laptops', pessoas nas praias a ler e a melhorar a sua formação. "Não estava acostumada a ver isto, toca-me profundamente", confessa.

    Pelo lado contrário pressente que os milhões do petróleo está a fazer do país "uma espécie de Koweit, onde o interior é vazio". Em todo o caso, Angola vive "um momento precioso" e a norte-americana tenciona aproveitá-lo como se fosse uma "lua de mel" de um casamento que não sabe se vai ser feliz.

    "Há várias Angolas" e Camil Bitar, 29 anos, continua a tentar descodificar cada uma delas. Engenheiro na Sonamet, a empresa criada pela angolana Sonangol e pela francesa Acergy para a criação de infra-estruturas de extracção de petróleo off-shore, partiu de Marselha para se estabelecer durante pelo menos três anos na elegante Restinga do Lobito,

    "Há a Angola da Restinga, com casas coloniais bonitas, e há a Angola do interior", prossegue o francês. "Aqui há indústria e comércio, lá fora, e basta fazer 30 quilómetros, só se vende comidas e bebidas e é tudo."

    Camil Bitar também viu escolas a nascer em cada aldeia, o que conduz a conversa para "o baixo nível de formação" dos angolanos. "Vejo isso pelas pessoas que trabalham comigo, têm de mandar gente para o estrangeiro e voltar - só assim o país progride".

    A escassa formação dos recursos humanos também foi um dos aspectos que mais impressionou Alessandro Bavcar, 37 anos, médico italiano no Huambo. "As infra-estruturas são fáceis de fazer. Há petróleo, os chineses constroem e acaba aí", opina. "Mas para ter um médico angolano são precisos anos, é preciso criar a instituição que vai criar essa formação e depois formar esse especialista, são anos...".

    No Huambo, exemplifica, está a ser construído um hospital provincial com dinheiro chinês, e a grande preocupação é a higiene: "Vão trabalhar ali, numa instalação nova, as mesmas pessoas dos centros de saúde, que estão sujos", assinala o italiano com experiência em Uganda, Somália, Sudão e Moçambique. "Angola será a última em África", diz.

    Também proveniente de Itália, Claudia Antonelli, 31 anos, lamenta a "inexistência de uma sociedade civil em Angola"."Não há reivindicação, não há debate e nada é questionado", refere a técnica de uma ONG inglesa envolvida num programa de agricultura e alimentação na província de Benguela.

    "Na superfície as coisas funcionam, mas no dia a dia, na atitude face ao trabalho, a regra aqui é o deixa-andar, do dinheiro agora e já e pouca gente se responsabiliza", explica. "Então é difícil pensar em serviços públicos que funcionem."

    Também com experiência em outros países africanos, a italiana diz-se "chocada" com Angola. "Por um lado tem dinheiro, não é como outros países que estão a lutar para criar uma riqueza nacional, e tem também um dinamismo que não se vê noutros países de África", defende.

    "Só que aqui vi os constrates na riqueza e uma dureza nas relações humanas que nunca tinha visto", continua. "É um país muito duro e que não me dá vontade de ficar".

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