Açorianos com acesso limitado a consulta de desabituação tabágica

Açorianos com acesso limitado a consulta de desabituação tabágica

 

Carmo Rodeia   Regional   20 de Nov de 2008, 10:03

A maioria dos açorianos fumadores que queiram deixar de fumar mas que precisem de acompanhamento médico para o fazer, ainda não têm acesso à consulta de desabituação tabágica. Nem no hospital nem nos centros de saúde, por falta de recursos humanos.
A funcionar há cerca de um ano nos Hospitais do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada e de Santo Espírito, em Angra do Heroísmo, na sequência da entrada em vigor da nova lei do fumo em locais públicos, esta consulta desenvolvida por  especialistas de pneumologia continua a ter acesso limitado. Em Ponta Delgada, apenas os funcionários do hospital e os doentes agudos, sinalizados noutras patologias mas que tenham esta doença associada, podem inscrever-se na consulta de desabituação tabágica.
“Temos consciência de que damos uma resposta pequeníssima” a um problema que afecta milhares de pessoas, mas “não queremos  generalizar uma consulta que depois teria uma enorme lista de espera” porque “os recursos humanos ainda são escassos”, adiantou ao AO o director do Serviço de Penumologia do Hospital do Divino Espírito Santo, Manuel Dias Pereira, que conclui “isso seria uma hipocrisia”.
Os quatro especialistas do serviço de pneumologia deste hospital atendem semanalmente 16 a 20 doentes, fazendo cada um deles uma consulta de desabituação tabágica por semana. Os doentes em lista de espera não aguardam mais do que “um ou dois meses” para serem atendidos, garante Dias Pereira.
 O ideal seria que todos os fumadores que tivessem vontade de deixar de fumar pudessem ter acesso a esta consulta.
Os médicos de família e os centros de saúde deveriam ser a resposta local ao problema “e essa será a tendência”, garante o especialista. As vantagens associadas a uma resposta de acesso generalizado são tão consensuais que, logo no início, definiu-se como prioritária a formação específica dos médicos de família na luta pela desabituação tabágica. Um curso  já foi realizado; o outro realizar-se-á até ao fim do ano.
“Os centros de saúde são importantissimos” e uma resposta local, no âmbito dos cuidados primários, “terá de ser dada até ao final do ano”, mas o acompanhamento destes doentes acabará sempre por necessitar do recurso a especialistas, nomeadamente nas áreas da pneumologia, nutricionismo e psicologia.
A procura desta consulta tem aumentado, bem como a eficácia dos tratamentos.
O fumador “é um doente com uma dependência”, que criou relações bioquímicas com uma substância com a qual é preciso cortar. E para isso é fundamental haver vontade do próprio.
“Esse, muitas vezes é o passo mais difícil de dar”, lembra Dias Pereira, que ainda assim não deixa de destacar os progressos obtidos neste ano.
“No início o abandono da consulta era muito grande”, hoje é “bastante menor”.
Na origem do elevado abandono das consultas estava o próprio tratamento, que era feito à base da colocação de pensos na pele, com uma eficácia mais retardada. O doente deixava de fumar por via oral e “fumava pela pele”.
Hoje, a terapêutica utilizada “é mais eficaz” e mais fácil de administrar. O seu efeito “é imediato ao ponto de, ao sétimo dia da toma dos medicamentos,  a pessoa ser  obrigada a deixar de fumar”.
Para doentes cuja vontade de submissão a tratamento é quase que “emprestada” por uma força maior, como uma doença associada, a rapidez com que os efeitos do tratamento começam a sentir-se “é decisivo e dissuasor” do abandono da consulta. Aliás, o grau de sucesso, neste capítulo, é “muito elevado”, garante Dias Pereira.
Mas como não há bela sem senão, o problema reside  no preço da medicação.
Sem comparticipação, os medicamentos “acabam por ser caros”, embora o seu custo real, quer para o paciente quer para o serviço de saúde, seja “incomparavelmente menor” do que custaria o tratamento de uma pessoa vítima de doenças tabágicas como o cancro do pulmão, as doenças obstrutivas,  o enfarte do miocárdio ou o acidente vascular cerebral.
Acresce  que o medicamento só deverá ser tomado nos primeiros seis meses de tratamento. Ao fim deste período deve manter-se a vontade da abstinência, embora o fármaco já não seja preciso.
A vigilância médica prosseguirá e a “alta”, por assim dizer, só será dada pelo médico após um período sem fumo, que varia entre 12 a 24 meses.
Dias Pereira lamenta que, em termos de política de medicamento, não sejam tomadas outras opções “menos onerosas” para os pacientes, mas reconhece que há outras batalhas igualmente por vencer.
Esta consulta surgiu na sequência da aplicação da nova lei que impede o fumo em locais públicos. É uma lei “boa” mas que poderia “ir mais longe”.
É preciso apostar na prevenção. O grande desafio é fazer uma lei que “impeça as pessoas de se iniciarem no consumo tabágico”, remata o médico.

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