“Todos os palcos são importantes, porque a minha entrega é sempre a mesma e a melhor possível”

Diana Botelho Vieira. Desde cedo que dizia que queria ser pianista e foi em busca do seu sonho. Dedicou-se com alma e coração ao piano. Foi para Lisboa, e mais tarde fez Mestrado em Chicago, período que lhe moldou a  visão sobre o que era a vida artística de um pianista. Atuar nos Açores tem um significado especial




A memória mais imediata da infância de Diana Botelho Vieira é a de ter “vivido numa casa muito movimentada. Eu era uma no meio de muitos irmãos (sete filhos ao todo), com vidas interligadas”, disse-nos a pianista natural da Ribeira Grande, acrescentando que teve “uma infância muito feliz e, desde sempre, com um claro sentido de responsabilidade em todas as áreas (escola, música, casa, etc.); isso deu-me bases extraordinárias que trago comigo até hoje”.

Foi na casa dos avós maternos, nas férias, que o gosto pela música surgiu. Conta que “compraram um piano vertical Yamaha para a minha irmã mais velha, que já estudava piano, e fiquei fascinada com os sons do instrumento. Ouvia-a tocar as Sonatinas de Clementi, os Estudos de Czerny, as Invenções de Bach e tudo me fascinava. Com o tempo, essa relação com o piano foi-se tornando cada vez mais profunda e consciente”.

Diana Botelho Vieira lembra que o seu percurso escolar, principalmente no Conservatório, “foi trabalhoso”, porque estudava “muitas horas, inclusive de manhã cedo antes de ir para a escola. Dediquei-me muito ao piano desde criança (aparentemente aos 8 anos dizia que queria ser pianista) e lembro-me de ser muito focada nesse aspeto”.

Para poder dar continuidade aos seus estudos, Diana Botelho Vieira foi para Lisboa fazer a Licenciatura em Piano na Metropolitana, tinha 18 anos. Questionada sobre do que sentiu mais falta, diz-nos que “nessa idade, creio que a curiosidade suplanta as saudades. Foram quatro anos de muito trabalho. O curso incluía uma prática muito intensiva de piano solo, acompanhamento ao piano com cantores e instrumentistas, e música de câmara, além das restantes disciplinas teóricas”. Ficou, assim, “com bases muito importantes para a minha futura vida artística”. 

Depois, Diana Botelho Vieira viajou até aos Estados Unidos para realizar o Mestrado. Revela que “viver e estudar fora do nosso país é, para qualquer pessoa, uma experiência transformadora, especialmente quando a língua é diferente”. Em Chicago teve “contacto com uma grande diversidade cultural e artística. Esse período moldou a minha visão sobre o que era a vida artística de um pianista e ajudou-me a construir uma identidade artística”.

Recorda-nos que deveria ter sete ou oito anos quando pisou o palco pela primeira vez, confessando que “não me lembro da sensação, de tão nova que era. Mas desde sempre o palco foi, para mim, um lugar de respeito”. De todos os que já passou, não há um que destaque e explica porquê: “sinto que todos os palcos são importantes, porque a minha entrega é sempre a mesma e a melhor possível, independentemente do tamanho ou prestígio da sala. O que me fascina é o que acontece no momento: a escuta, a partilha, os silêncios e a viagem”. Por outro lado, quando perguntamos se atuar nos Açores tem um significado especial, Diana Botelho Vieira diz que sim: “Tem sempre um significado especial. Para além de ser a minha “casa”, tenho nos Açores um público que me acompanha desde sempre, e isso por si só acarreta também muita responsabilidade da minha parte”. 

A pianista já estreou dezenas de obras para “várias formações - piano solo, piano e orquestra, piano a 4 mãos, piano e narrador, trios, duos, piano e eletrónica, etc.”. “Continuo a sentir que estrear uma nova obra é um ato de muita responsabilidade e privilégio”, afirmou para explicar que são “peças que ainda só existem no papel, e a transição para o palco implica desenhar em sons o que o compositor escreveu num papel. É um processo de descoberta muito estimulante”.

Sobre os compositores que tem como referência, a pianista adianta que ao longo dos anos “apercebo-me que me identifico muito com a música de Prokofiev, Beethoven e Schubert”, explicando que “Prokofiev pelo lado enérgico e irónico, Beethoven pelo instinto revolucionário, e Schubert pelo lirismo melancólico. É claro que estas são apenas características muito gerais, pois cada um destes compositores consegue manusear uma vastíssima paleta de emoções musicais”.

Diana Botelho Vieira também dá aulas. Diz ser “uma extensão da minha atividade artística”, sublinhando que o ensino “obriga-me a estar atualizada e a encontrar novas formas de comunicar o conhecimento e o pensamento musical de forma clara e sensível, mantendo a criatividade e a frescura. Isto é muito importante, porque novos alunos trazem sempre novos desafios. ‘Saber’ é diferente de ‘comunicar’”. 

Enfatiza que, “além de toda a vertente artística e técnica do ensino, assumo também um papel de responsabilidade social, procurando que os alunos levem consigo as sementes da ética, da organização e do sentido de responsabilidade”. 

Em termos de projetos, Diana Botelho Vieira tem a curto prazo “dois que muito me entusiasmam: o lançamento do meu novo CD para piano solo com as “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, do compositor açoriano Francisco de Lacerda, (CD editado pelo MPMP), uma obra singular no repertório pianístico português, alusiva ao imaginário infantil, de forte valor artístico e pedagógico”. O outro projeto é a estreia, “num importante festival de música, do “Capriccio”, de Sérgio Azevedo, uma obra para piano e quinteto de metais que irei estrear ao lado do extraordinário quinteto ‘100 Caminhos’. Depois, a longo prazo, “tenho a integral dos 5 Concertos para piano e orquestra de Beethoven, que estou a preparar para o 200.º aniversário do compositor, que será em 2027”. 

A finalizar confessa que gostava muito de um dia tocar o 2º Concerto para piano e orquestra de Sergei Prokofiev: “Há muitos anos que ambiciono tocar esta obra. Conheço-a de fio a pavio e, como referi antes, identifico-me muito com a música de Prokofiev. Este Concerto em particular, um dos mais difíceis de todo o repertório para piano e orquestra, revela uma força quase avassaladora que me intriga desde sempre”.

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