Scotland Yard desde hoje no banco dos réus pela morte do brasileiro Jean Charles de Menezes


 

Lusa/AO   Internacional   2 de Out de 2007, 06:11

A Scotland Yard começou hoje a ser julgada, pela morte, em 2005, do brasileiro Jean Charles de Menezes, resultado, segundo a acusação, de uma operação policial mal planeada e que pôs em rico a vida de cidadãos.
No primeiro dia do julgamento, que deverá durar seis semanas e decorre no Tribunal penal de Old Bailey, no centro de Londres, um júri de seis homens e de seis mulheres ouviu as primeiras alegações contra a polícia londrina acusada da morte "desastrosa" do jovem brasileiro numa estação de metro de Londres depois dos atentados de 2005.

    Menezes, de 27 anos e electricista de profissão, foi crivado de balas a 22 de Julho de 2005 na estação de metro de Stockwell (Sul de Londres) por agentes da brigada antiterrorista da Scotland Yard, que o confundiram com um dos terroristas que tinham tentado atacar na véspera a rede de transportes de Londres.

    A Procuradoria britânica decidiu o ano passado exonerar todos os agentes implicados no incidente e processar toda a instituição no seu conjunto por delitos contra a Lei da Segurança e Higiene no Trabalho, de 1974, que obriga as forças da ordem a velar pela integridade inclusive de quem não for seu funcionário.

    "A polícia planeou e levou a cabo naquele dia uma operação tão mal que pôs os seus cidadãos em perigo desnecessariamente e Jean Charles de Menezes morreu em resultado dela", disse a advogada da acusação, Clare Montegomery, na abertura do julgamento.

    A advogada explicou que vários responsáveis da Polícia Metropolitana de Londres serão chamados a testemunhar mas não os autores dos tiros mortais.

    Jean Charles de Menezes foi morto com sete balas a 22 de Julho de 2005, um dia depois de uma vaga de atentados falhados e duas semanas depois dos atentados suicidas nos transportes públicos da capital britânica que fizeram 56 mortos (entre os quais os quatro bombistas suicidas) e 700 feridos.

    A polícia lançara uma caça ao homem contra os quatro suspeitos dos atentados frustrados no metro londrino, e que foram condenados a prisão perpétua em Setembro.

    Os polícias confundiram Jean Charles de Menezes com um terrorista que eles vigiavam e o jovem brasileiro foi morto quando tentavam detê-lo na carruagem do metro.

    O "desastre" da morte de Menezes "não foi o resultado de uma operação rápida que mudou de repente e de forma inesperada" mas sim consequência da incapacidade de levar a cabo uma operação planeada "de uma forma segura e razoável", defendeu Montgomery.

    "O tiroteio de Jean Charles foi um erro terrível e catastrófico. A sua morte podia ter sido evitada se os acusados tivessem cumprido com as suas obrigações para com todos os cidadãos não os expondo a riscos desnecessários", acrescentou Montgomery.

    Na sua exposição, explicou como um grupo de agentes da unidade de vigilância da Scotland Yard mantiveram sob vigilância o bloco de apartamentos onde vivia Menezes no Sul de Londres, o mesmo onde residia um dos quatro terroristas presos este ano por planearam atentados fracassados a 21 de Julho.

    Os agentes de vigilância seguiram o brasileiro no seu caminho no autocarro até à estação de Stockwell e já na carruagem de metro encontraram-se com os agentes armados da unidade antiterrorista.

    "Aqui está", disse um dos agentes de vigilância assinalando Menezes que se pôs de pé quando os agentes armados entraram na carruagem.

    "Foi agarrado por um dos agentes de vigilância e empurrado outra vez para o seu lugar. Dois oficiais armados inclinaram-se para ele e colocaram as suas pistolas Glock de nove milímetros contra a sua cabeça e dispararam. Dispararam sete vezes na cabeça e morreu instantaneamente", disse Montgomery, insistindo que Menezes "não estava envolvido em nenhuma actividade terrorista".

    A operação devia ter sido supervisionada" em teoria por oficiais de patente mais elevada mas, na realidade, a sala de operações "estava ruidosa e caótica" e "os oficiais que estavam envolvidos na operação tinham que gritar para se fazerem ouvir", acrescentou.

    Os membros do júri terão também ocasião de ver as gravações das câmaras de segurança e uma reconstrução da jornada de Menezes, assim como os relatórios policiais feitos pelos próprios agentes.

    A decisão da Procuradoria de processar a Scotland Yard ao abrigo de uma lei que normalmente se usa para valorizar a segurança no local de trabalho surpreendeu tanto a polícia que tentou em vão deter este processo, como a família da vítima, que esperava que os agentes implicados fossem acusados de homicídio.

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.