"Receita" para a melhor cozinha do Mundo é ser feliz


 

Lusa / AO online   Nacional   30 de Nov de 2008, 11:17

A cozinha do catalão Ferran Adrià é um exemplo da aliança entre ciência e gastronomia. Nos bastidores do seu restaurante, "El Bulli", são criadas sopas em forma de letras que se desfazem ao toque, bolas sólidas de sumo com recheios ou chás que parecem lagos com nenúfares.
    Todos os anos, Adrià e a sua equipa desenvolvem novas técnicas e conceitos, que colocam à disposição do cliente apenas durante os cerca de seis meses em que permanece aberto o restaurante, distinguido com três estrelas do Guia Michelin, situado em Roses, perto de Barcelona.

    Em declarações à Lusa, o "chef" catalão, distinguido várias vezes como "melhor cozinheiro do Mundo", explica que a renovação constante da sua cozinha tem apenas uma "receita".

    "Acima de tudo, a cozinha é uma paixão. Procuramos desfrutar, ser felizes e fazer as pessoas felizes com o que fazemos", disse à Lusa Ferran Adrià, à margem do congresso "O Melhor da Gastronomia", que decorreu esta semana em San Sebastián.

    Ao encontro anual, que reúne "chefs" e especialistas de todo o Mundo, o cozinheiro levou uma retrospectiva sobre "o que foi o 'El Bulli' em 2008", como a nova linha "Natura", com quase 50 sobremesas muito elaboradas que reproduzem elementos da Natureza, desde flores, vagens, terra ou pequenas árvores.

    Num estilo oposto, Adrià apresentou alguns pratos "muito simples e minimalistas", reconhecendo a influência "do sentimento do Japão" na sua cozinha, que se transmite "não através do uso de produtos japoneses, mas apenas pelo sentimento" e de que são exemplos os chás de flores, servidos como pequenos lagos, com flores e nenúfares, ou a utilização de rábanos para reproduzir líchias.

    Adrià mostrou exemplos de elaborações como a liofilização, "uma super super tecnologia", as gelatinas frias, os sumos congelados dentro de um balão e depois recheados, e a esferificação (que permite transformar um alimento em bolas, sólidas por fora e líquidas por dentro), para criar uma sopa contida nas letras "The Soup", que se desfazem ao toque.

    "A ideia é que a sopa seja as letras, ou que as letras sejam a sopa", explicou.

    "O conhecimento e colaboração com especialistas de diferentes áreas - cultura gastronómica, história, desenho industrial - é essencial para o progresso da cozinha. Em especial, a cooperação com a indústria alimentar e a ciência representou um impulso fundamental", defende.

    Aquele que é considerado o melhor cozinheiro do Mundo acredita que será necessária uma geração inteira de cozinheiros para desenvolver todas as técnicas aplicadas à gastronomia nos últimos 15 anos.

    Mas Ferran Adrià desvaloriza a técnica para afirmar que o mais importante é "desfrutar a cozinha".

    "É preciso saber como sentes a cozinha, e não como está feita. Há um lado técnico incrível ou não, mas o que importa é a emoção que te dá", sublinha o cozinheiro, que recebeu a classificação mais elevada do guia "O Melhor da Gastronomia", do crítico gastronómico Rafael García Santos, responsável pelo congresso anual.

    Sobre a alta cozinha, Adrià sustenta que actualmente observa-se "uma revolução", com a emergência de cozinheiros de "muitos países do Mundo", como Portugal, Brasil ou Singapura.

    "A cozinha não tem pátria e isto é muito bonito, porque toda a gente pode sobressair", destaca.

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