Em 2021, o artista brasileiro, Márcio Vilela levou a cabo um projeto que o colocou numa balsa à deriva pelo mar de São Miguel durante 56 horas, no âmbito de uma residência artística realizada no Pico do Refúgio. O resultado deste projeto, denominado ‘Previsão de Deriva’, vai poder ser apreciado, a partir de amanhã, às 16h00, no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, na Ribeira Grande.
Em conversa com o jornal Açoriano Oriental, Márcio Vilela confessa que este projeto começou a ser idealizado, mais ou menos, em 2014. Foi, pois, “um projeto que levou muitos anos para ser exposto. A ideia era fazer um projeto em que eu entrava numa balsa de sobrevivência, dentro dessa balsa havia um GPS e, a ideia base do projeto era, estando dentro da balsa de sobrevivência, sem remos e sem motores, deixá-la derivar livremente no mar por 56 horas. Essa deriva faria, ou fez, um desenho”.
Em 2021, o artista visual conseguiu concretizar o projeto em São Miguel, pese embora não ter sido “muito fácil de executar porque requereu uma logística tremenda e autorizações. Esta balsa foi acompanhada e autorizada pela Marinha Portuguesa, pelo Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada – MRCC”, afirmou.
Márcio Vilela refere que vai estar exposto no Arquipélago “o desenho que a balsa fez no mar nas 56 horas, em que percorreu 87 quilómetros. Existe uma peça muito importante em vídeo, que é um filme que foi feito dentro da balsa, e vai estar em projeção. Há umas outras peças de vídeo que mostram o caminho da balsa no mar. Existem fotografias que foram criadas utilizando os próprios materiais que são utilizados em situações de emergência, como o paraquedas, a granada de fumo. A balsa que foi ao mar está também presente”.
A exposição de Márcio Vilela já foi apresentada em Lisboa, na Galeria Foco, mas para o artista era importante que a mostra chegasse a São Miguel: “Era um desejo muito grande porque acho que ela se completa, sendo mostrada aqui, e o meu desejo maior era que fosse no Arquipélago”, disse para acrescentar que “nesse momento vou cumprir esse objetivo muito grande como artista”.
Para Márcio Vilela, o mais difícil não foi estar dentro da balsa por 56 horas, “foi muito mais angustiante, tudo o que veio antes. O estar dentro da balsa foi o momento mais tranquilo de sempre, o que poderá ser uma contradição”, explicando que “parecia que o perigo estava em terra, não estava na balsa, porque tínhamos uma janela de tempo em poderíamos executar o projeto e existiam muitas questões, como se iria estar bom tempo, se e eu ia aguentar? Mas, no momento em que entrei na balsa, não havia mais nada para decidir, não havia mais telemóvel, não havia mais emails, não havia mais pessoas. Tinha que estar ali e pronto”.
Uma experiência que Márcio Vilela não irá esquecer, até porque teve muita sorte porque apanhou uma “noite de lua cheia”. E “a vida ficou muito simples nessas 56 horas e, a verdade é que no final das 56 horas, lembro-me de perguntar se havia permissão para eu ficar mais de 24 horas. Foi uma experiência incrível, mesmo maravilhosa”.
Perguntamos ao artista o que é que se pensa quando se está numa balsa à deriva? E Márcio Vilela partilhou: “estamos num estado de quase meditação extrema, não há um pensamento, é muito difícil descrever o que eu estava ali a sentir”. Claro que tinha “uma parte de mim que estava muito focada no projeto, que sabia que tinha que filmar, que efetuar algumas gravações de áudio”.
Diz ainda que é “quase como se eu tivesse aterrado num planeta
diferente, porque estive sentado todo o tempo, e em termos sensoriais,
de som, das cores - dentro da balsa é laranja - tudo fica com aquela luz
alaranjada. É um choque sensorial para o corpo... é tudo bonito, muito
intenso. Eu não diria que pensei muito. Eu senti muito, isso sim. Quando
me lembro, lembro-me das sensações que tive, não dos pensamentos”,
finaliza.
