Ondjaki recebe Prémio Saramago no mesmo dia em que publica um novo livro


 

Lusa/AO online   Cultura e Social   5 de Nov de 2013, 10:53

O escritor Ondjaki recebeu esta terça-feira o Prémio José Saramago pelo romance "Os transparentes", no mesmo dia em que é publicado o seu novo livro, "Uma escuridão bonita", com ilustrações de António Jorge Gonçalves.

 Prémio José Saramago é o segundo galardão que o escritor angolano recebe este ano, depois do Prémio Fundação Nacional do Livro Infantil, pela obra de ficção juvenil “A bicicleta que tinha bigodes”, que lhe tinha já valido o Prémio Bissaya Barreto, no ano passado.

Ondjaki, pseudónimo literário de Ndalu de Almeida, é um termo da língua umbundu que significa “guerreiro”. O autor estreou-se literariamente em 2000 com o livro de poesia “actu sanguíneu”, que lhe valeu uma menção honrosa do Prémio António Jacinto, nesse mesmo ano.

Nascido em Luanda há 36 anos, Ondjaki tem publicados vários títulos nas áreas de poesia, conto, novela, romance e teatro, e assinou, em 2006, com Kiluanji Liberdade, o documentário “Oxalá cresçam pitangas”.

O escritor junta o Prémio Saramago a outros galardões já recebidos, nomeadamente o Prémio António Paulouro, em 2005, pelo livro de contos “E se amanhã o medo”, o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores, pela obra “Os da minha rua”, em 2007, o Grinzane for Africa- young writer, o brasileiro Jabuti, na categoria juvenil, pela obra “AvóDezanove e o segredo do soviético”, em 2010, e ainda o angolano Caxinde do Conto Infantil, pelo título “Ombela, a estórias das chuvas”, em 2011.

Ondjaki é autor de 19 títulos, incluindo o publicado hoje pela Editorial Caminho, e, entre eles, refira-se “Bom Dia Camaradas”, “O Assobiador”, “Há Prendisajens com o Xão”, “Quantas madrugadas tem a noite”, “Materiais para confecção de um espanador de tristezas”, “Os vivos, o morto e o peixe-frito”, “O voo do Golfinho”, e “Uma escuridão bonita”.

As obras do escritor angolano estão traduzidas em francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sério, polaco e sueco.

Sobre o romance distinguido hoje com o Prémio Saramago, Manuel Frias Martins, membro do júri, afirma “que resulta de ou se estrutura por uma série de retratos sucessivos de habitantes, sobretudo os mais pobres, de Luanda e dos contextos da vida social que os caracteriza”.

“A vida numa cidade marcada pela degradação das condições materiais e pelas inúmeras dificuldades que marcam um quotidiano sem horizonte. A ideologia feneceu e sobrevive-se na dura realidade da corrupção e do salve-se quem puder”, acrescenta Frias Martins.

Ana Paula Tavares, também do júri, realça que “o prédio, lugar central do romance ["Os Transparentes"], é um lugar de memória do que poderia ter sido o sonho de toda uma sociedade harmoniosa e justa como no princípio dos tempos se pensava, para ser apenas isso a memória alimentada por um quotidiano perverso”.

Um “quotidiano perverso”, prossegue a poetisa, “onde se descobrem e multiplicam todas as maneiras de sobreviver, ganhar dinheiro, ficar ‘ainda’ vivo na escuridão que adensa o labirinto e onde é preciso ter-se sido iniciado para conseguir desenrolar todos os fios da teia imensa que contorna o abismo”.

A poetisa angolana alerta que “em trabalhos anteriores Ondjaki vinha afinando formas de dizer a cidade e os seus enigmas, palavras para a luz e a sombra, espaços para o outro lado das coisas, pontos de partida para a reflexão sobre os destinos do mundo e o sentido último da escrita entre a verdade e a coisa dita”.

Maria de Santa Cruz, por seu turno, assinala que “Os transparentes” é um “romance experimental, de original e criativa estruturação […] convocando os mais diversos tipos de discurso – da escrita já característica de Ondjaki ao mais burocrático fragmento da ridicularizada política, passando pela oralidade luuandina, pelas anedotas de caluandas lembrando Pepetela, [e] os assertivos sim camarada de Manuel Rui”.

A catedrática refere ainda a utilização das “expressões mais brasileiras à importação crescente de anglicismos, a oratória das novas seitas religiosas e das máfias de variadas proveniências, enfim, a ressonância quase ensurdecedora de ritmos díspares que acompanha o progresso-relâmpago da capital moderna”.


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