Olhão: A cidade onde há casas que crescem como pirâmides de cubos, o que lhe valeu o título de "cubista"


 

Lusa / AO online   Nacional   3 de Nov de 2007, 10:30

Nem todas as típicas casas algarvias se distinguem por ter um terraço e as coloridas platibandas. Há um bairro em Olhão cujas casas parecem pirâmides a crescer em degraus, caso único no mundo, que valeu à cidade o título de "cubista".
    Quem passeia pelas ruas da cidade, com vista para a Ria Formosa, não imagina o espectáculo visual proporcionado pelos inúmeros cubos que "brotam" das casas, sobretudo no Bairro da Barreta, núcleo inicial da cidade, só visíveis de pontos mais elevados.

    O modelo das casas, apesar de inspirado na arquitectura árabe, não é um legado da sua presença no Algarve. Foram os próprios olhanenses que emigraram para o Norte de África que construíram um bairro "mouro"… cinco séculos depois de aquele povo ter sido expulso da região.

    O que as distingue das típicas casas algarvias é que enquanto estas têm apenas um terraço ou açoteia, as habitações cubistas têm mais do que isso: em cima do terraço têm uma segunda divisão (o mirante) e por vezes uma terceira (contra-mirante ou púlpito).

    Estas pequenas divisões cresceram como anexos das casas, indiscriminadamente e sem regras de construção, o que ainda hoje sucede, explica António Paula Brito, da Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão (APOS).

    Segundo o presidente daquela associação, tal como em outros tempos, o mirante funciona como ponto de observação da entrada dos barcos e estado do mar e a açoteia é usada para arrumos, secar frutos ou roupa.

    Antes de começarem a ser construídas as primeiras casas em pedra e cal, em meados do século XVIII, o Bairro da Barreta era composto por cabanas e habitado essencialmente por pescadores.

    A zona continua a ser habitada principalmente por pessoas ligadas ao mar, mas as casas estão muito degradadas o que, em conjunto com a ausência de regras, está a conduzir a uma descaracterização do bairro.

    É por isso que a APOS quer criar um plano de pormenor para a área e defende que naquele bairro seja criado um novo pólo de atracção turística na cidade, através de um circuito museológico.

    "Há muito caos urbanístico nesta zona, as pessoas fazem construções, anexos e acrescentam terraços, mas no fundo não têm culpa, porque não há nenhum gabinete para as orientar", diz o presidente da APOS.

    Enquanto vai recordando as histórias e curiosidades do bairro, cujas ruas têm os nomes dos que lá habitavam, António Paula Brito lamenta que o bairro esteja votado ao abandono e que poucas entidades reconheçam a sua importância cultural.

    "Este tipo de arquitectura facilitava a vida a uma população que também vivia do contrabando", graceja, recordando a história de "Manel dos Tabacos", que conseguiu fugir da PIDE através das varandas que permitem a fácil passagem de umas casas para as outras.

    E enquanto não houver um plano de revitalização, as ruas povoadas de lendas e histórias de contrabandistas onde antes habitavam as famílias Gaibéu, Lopes ou Bento continuarão a passar despercebidas.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.