“Com um misto de audácia, querer, ambição e sorte fizemos um ano fantástico”

Rafael Botelho Piloto de ralis (campeão dos Açores de Ralis das 2 Rodas Motrizes)



Que balanço faz o Rafael Botelho do Campeonato dos Açores de Ralis (CAR) de 2025, no qual revalidou o título de campeão dos Açores de ralis da 2 Rodas Motrizes (2RM), sendo também vice-campeão dos Açores de ralis em termos absolutos?
O balanço é extremamente positivo e é espelho da minha dedicação à minha paixão. Sabemos que por vezes os resultados não são os que pretendemos, mas este ano com um misto de audácia, querer, ambição e sorte fizemos um ano fantástico. É inequívoco que fomos, por larga margem, o melhor concorrente do campeonato. Claro que se pode divagar muito sobre esta minha afirmação, mas é factual que nas 2RM tivemos um ritmo muito forte e superior aos nossos adversários e, na geral, tivemos muitos resultados à frente de carros muitos mais competitivos e capazes do que o meu simples 2RM. Importa referir que foi um ano desafiante e desgastante, tanto a nível financeiro, como a nível logístico.
No início da temporada propôs-me a fazer o CAR na integra e assim o fizemos. Enquanto piloto é extraordinário fazer o maior número de ralis possíveis, mas nos Açores isso é um fardo muito pesado pela parte logística. Perto de 50% do meu orçamento é gasto em logística e é dinheiro sem retorno porque, por exemplo, se esse dinheiro fosse aplicado em testes e/ou evoluções no carro, de certeza que ao final dessa prova sentiria as melhorias de performance e competitividade. Custos à parte, e com o apoio fundamental dos meus patrocinadores, vencemos nas 2RM sete das oito provas e fomos ao pódio nos 8 ralis – fomos a única equipa que conseguiu esse feito. Circunstâncias das corridas em junção com o nosso brilhante desempenho, permitiu-me liderar a maior parte do campeonato e é mais um feito que fica no memorável livro de 2025. Campeões nas 2RM e vice-campeões a nível absoluto nos Açores eram os meus objetivos, por isso, missão extremamente bem cumprida.

Qual foi o momento mais alto da temporada para si e para sua equipa, o Team Lotus?
A vitória no Rallye de Ponta Delgada. Foi a minha primeira vitória à geral no campeonato e foi um resultado com uma carga emocional tremenda. Não competia em São Miguel desde 2021, tendo estado ausente das corridas em 2022 e 2023 e, em 2024, infelizmente não houve provas na maior ilha do arquipélago. A última vez que tinha corrido em São Miguel foi no Rali Além Mar de 2021 que desisti por acidente quando era líder da corrida e na sequência desse acontecimento veio a paragem abrupta nas minhas competições. Por isso, refiro que voltar a correr em São Miguel ia ser especial e vencer foi extraordinário. Na prática, venci o mesmo rali que na altura tinha desistido, porque a outra prova que há em São Miguel é o Azores Rallye e esse tem sempre o mesmo nome. Claro que não tínhamos viatura para a vitória, mas as circunstâncias colocaram-me na liderança da corrida e, por mérito próprio, fomos cimentando a nossa liderança face a viaturas mais competitivas. Por isso, foi uma vitória muito importante para mim, para a minha família, para a minha equipa e para os meus patrocinadores porque marcamos o nosso nome na história dos ralis açorianos e eu consegui ultrapassar um elefante enorme que tinha na minha cabeça pelos anteriores acontecimentos em São Miguel.
Para o Team Lotus acho que devo referir, também, o título regional por equipas, um resultado fantástico, para este meu patrocinador, afirmando que a criação da equipa em 2024 foi uma decisão correta da Fábrica de Tabaco Estrela e esta é mais uma conquista a juntar a tantas outras especiais que esta grande entidade tem no palmarés regional e nacional no automobilismo.

Em sentido inverso, qual terá sido o pior momento da época?
O segundo lugar na Graciosa. Não vencemos. Se tivéssemos vencido, porventura tinham sido oito em oito possíveis. Atenção, digo isto em tom de brincadeira. Não conhecia a ilha nem muito menos o rali, por isso sabia das dificuldades de acompanhar o Cláudio na sua casa. No entanto, há que ser franco e assumir que fizemos uma boa prova, mas apesar do desconhecimento podia ter feito um pouco melhor. Vencer talvez não, mas rodar mais perto sim. É esse sentimento permanente de insatisfação que me faz trabalhar diariamente pequenos pormenores para quando chegar às corridas estar o mais capacitado ou, na teoria, ter todas as soluções possíveis.

Com quatro títulos de campeão dos Açores de ralis em 2RM no palmarés (2016, 2017, 2024 e 2025), qual é a motivação que o Rafael Botelho tem para continuar no automobilismo, um desporto caro e com cada vez menos apoios e patrocinadores?
Uma boa questão. Após estes quatro títulos e estes dois últimos seguidos e após o meu regresso à competição, o passo lógico seria mudar de viatura e tentar lutar pelo cetro absoluto. Acredito convictamente que tenho as capacidades para isso, no entanto, monetariamente não tenho esse fulgor. Desde o primeiro dia que fiz um rali que corro com o apoio único e exclusivo dos meus patrocinadores e isso é o que conta. Orgulho-me de ter uma equipa grande, com instalações próprias e, porventura, ser a mais bem equipada no regional e isso sem o apoio dos meus patrocinadores não era possível. Claro que isto pode ser conversa feita, mas a nossa resposta na estrada e a capacidade de comunicação tem feito ir melhorando a Rafamotorsport devagarinho, mas passos sustentados.
Por experiências antigas do motocrosse em que fiz o nacional, confesso que gostava de fazer umas provas fora de Região e tenho metido muita energia nisso. Para mim é o passo lógico dentro do enquadramento financeiro que tenho. Vamos ver se consigo. À parte disso, e como a grande maioria dos meus patrocinadores é dos Açores, vamos fazer provas do Campeonato de 2026 com o objetivo de andar o mais rápido possível. Gostava muito de dar o salto para o nacional, acho que é o passo necessário, justo e merecido.

A temporada de 2026 já começou a ser pensada e planeada ao nível de participações e até mesmo viatura a utilizar?
Esta temporada, desportivamente, foi muito positiva e terminou da melhor maneira, sendo alavanca para um bom 2026, espero eu. Pela primeira vez na minha carreira o ano civil ainda não tinha terminado [2025] e já tinha alguns patrocinadores celebrados para a próxima época. Isso é um sinal claro que algo de bem e correto estou a fazer.
O Peugeot 208 Rally4 foi adquirido com uma visão a três anos, falta um, ao que se junta o apoio da Peugeot Açores – Sotermáquinas, pelo que não vamos trocar de carro. Se vamos dentro do universo Stellantis arranjar mais um carro é outra questão. Como tenho vindo a referir, vou tentar fazer nem que seja uma prova fora da Região e depois definir um calendário interessante para participar nos Açores.

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