“O desporto sempre fez parte da minha vida e quero que permaneça”

Joana Flores. Divide a sua vida entre a carreira de agente da PSP e de jogadora de futebol. Foi com orgulho que vestiu a camisola da primeira seleção nacional de futebol de praia feminino. Confessa que consegue conciliar as duas carreiras com a ajuda dos seus colegas agentes




Joana Flores, natural da ilha Terceira, está desde os 21 anos em Lisboa, altura em que teve de sair dos Açores para frequentar o curso de agente da PSP. 

No entanto, não foi para o desconhecido, já que conhecia algumas zonas de Portugal continental devido ao atletismo, modalidade que praticou durante vários anos. Aliás, o desporto faz parte da sua vida e continuará a fazer, tal como nos contou Joana Flores: “desde dos 8 anos que comecei no desporto. Primeiro no atletismo até aos 19 anos, entretanto acumulei as duas modalidades, ou seja, o atletismo com o futsal. Estive no Posto Santo, mas depois tive de sair da ilha para vir para Lisboa para o curso da PSP e em 2012 fui para o futebol de 11”.

Da sua infância recorda e tem saudades de jogar à bola na rua, conciliando sempre o “ser responsável pelas minhas atitudes com a diversão. É disso que mais me lembro, das brincadeiras de rua, de andar na rua até tarde, e ao mesmo tempo não ter grandes responsabilidade, a não ser poder brincar e ser livre”. Joana Flores refere que os seus pais sempre a deixaram fazer tudo a nível desportivo, o que “tornou-me na pessoa que sou hoje, muito virada para o desporto e até hoje mantenho-me nessa linha de pensamento”. Por isso, diz que a sua vida se rege por dois princípios, a “responsabilidade aliada à diversão, porque acho que o desporto faz sentido com estas duas componentes presentes, faz-se com o máximo de dedicação e respeito”.

Joana Flores revela que sempre foi muito independente dos pais. No entanto, custou um “bocadinho sair da ilha para vir tirar o curso de agente da PSP porque na altura já tinha sobrinhos. De forma geral custa sempre largar a família”, frisando que “para se ganhar asas tem de se ter a coragem e não se pode colocar o coração à flor da pele”. Desta forma, “encarei como o prosseguir dos sonhos porque o sonho era mesmo jogar futebol de 11 e na ilha não havia. Sempre quis, desde miúda ter a minha independência e cumprir os meus sonhos, os meus objetivos”.

Questionada se os pais ficaram um pouco intranquilos pelo facto de ir para a PSP, Joana Flores salienta que “mais ou menos” porque o “meu pai também é polícia, mas trabalhar em Lisboa é diferente. Sabemos que é uma grande cidade e tem problemas diferentes dos Açores, mas ao mesmo tempo, eles sabiam que eu era capaz de resolver-me sozinha e considero que sou uma pessoa com garra, com determinação e dedicação, portanto, independentemente do lugar que fosse, eles sabiam que iria estar bem. Embora saibamos que coração de mãe e pai fica sempre apertadinho”.

A também jogadora da Seleção Nacional de Futebol de Praia, está atualmente no Comando de Setúbal e revela que só consegue conciliar a sua vida profissional na PSP com a de atleta com a ajuda dos seus colegas agentes: “Quase toda a minha carreira policial fiz turnos, eles sempre foram incansáveis e não me canso de dizer isso. Se a minha vida desportiva valeu a pena foi por eles, porque sem a ajuda dos meus colegas não tinha sido possível trocar turnos. Pode ser desgastante, às vezes, mas compensa. Nada é conseguido sem trabalho, sem esforço”.

Em Lisboa, Joana Flores jogou futebol 11, mas em 2018 esteve numa competição de futebol de praia, uma modalidade que passou a ser de eleição desde 2021, tendo marcado presença e vencido a primeira edição do Campeonato Nacional de Futebol de Praia Feminino. Nesse mesmo ano a Federação Portuguesa de Futebol criou a Seleção Nacional de Futebol de Praia Feminino, a qual Joana Flores integrou. O momento da sua chamada foi de “muita alegria e apreço”, disse a jogadora para acrescentar que “já tinha sido chamada para a seleção de futebol de 11, mas não cheguei a jogar e já havia sido uma felicidade muito grande”. 

Para Joana Flores ser chamada à seleção é “acima de tudo, o reconhecimento do meu trabalho e dedicação. É muito difícil, dentro das condições que temos, conseguirmos termos uma seleção e obter os resultados que temos tido”.

Como diz o velho ditado ‘quem corre por gosto não cansa”, a jogadora faz cerca de 300 quilómetros para ir treinar o “futebol de praia. É muito cansativo, mas ao mesmo tempo não é, porque vou fazer o que gosto. Depois do treino, chego a casa e venho com o espírito mais livre, o corpo é fica mais cansado”, refere com boa disposição.

Se gostava de regressar aos Açores, concretamente à ilha Terceira, Joana Flores adianta que neste momento não, porque “enquanto puder fazer desporto e estiver ligada ao desporto não regresso. Tenho alguns objetivos para depois do final da carreira, nomeadamente dirigir algum clube, por forma a manter-me ativa e sempre presente no desporto”. Sublinha ainda que o “desporto sempre fez parte da minha vida e quero que permaneça, ou seja, até aos meus 50 anos não prevejo regressar”. “Às vezes digo aos meus pais que, se calhar, posso estar a ser egoísta, mas para seguirmos os nossos sonhos e as nossas crenças temos de abdicar de algumas coisas. E têm sido essas as decisões que tenho tomado e têm corrido bem e têm deixado os meus pais orgulhosos”.

Nunca sentiu o peso de ser insular, confessa que, o seu caso, “foi ao contrário, talvez pela nossa abertura social, por sermos um povo afável. A mim, o facto de ser açoriana sempre me trouxe coisas boas, deram-me valor por vir de uma ilha jogar futebol para cá, por ter saído da minha zona de conforto e nunca me fizeram sentir diferente, nem mesmo pela pronúncia. Nunca tive qualquer barreira por ser açoriana”.

Olhando de fora para a prática do desporto nos Açores, Joana Flores, afirmou que “temos que ser realistas e ver o meio em que estamos inseridos. Se calhar, há jovens que não querem ou não têm o gosto de praticar desporto. Muitas vezes digo que o desporto deveria ser mais incutido nas escolas, deviam ser mais motivados porque o desporto faz bem a tudo, a nível psicológico, mental, social”. 

Já sobre o futebol feminino na Região, “está a anos luz, porque têm medo de apostar, de investir. Lembro-me que nos meus 16 anos existiam sete equipas de futsal na Terceira e tínhamos um campeonato, o que era bom, já o futebol de 11 era mais complicado. Falta nas escolas esse papel, o de existir uma prática extra curricular porque há talento nos Açores, não é por sermos insulares que somos piores”.

Sobre os seus sonhos para os próximos tempos, Joana Flores fala-nos do possível Mundial de 2027, “há uma forte probabilidade de existir uma competição oficial da FIFA de futebol de praia feminino, por isso quero manter-me, fisicamente e psicologicamente, bem até lá”.

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