O coração toca sempre que o telefone toca na linha SOS Voz Amiga

O coração toca sempre que o telefone toca na linha SOS Voz Amiga

 

Lusa/Ao online   Nacional   6 de Out de 2018, 10:30

Uma em cada cinco chamadas que chega à SOS Voz Amiga é silenciosa. A maioria é feita por pessoas em desespero, mas sem coragem para falar, ou por quem apenas procura a voz do voluntário que ajudou num momento de sofrimento.

Quase a completar 40 anos, a 09 de outubro, a SOS Voz Amiga foi a primeira linha telefónica em Portugal de prevenção do suicídio e de apoio a situações de sofrimento causadas pela solidão, ansiedade, depressão. Desde então, já atendeu 260 mil chamadas, a maioria feita por mulheres.

“Os homens continuam a não apelar tanto”, o que não quer dizer que não sofram, disse em entrevista à agência Lusa o presidente do serviço, Francisco Paulino, que começou como voluntário na linha em 1997.

Para Francisco Paulino, este comportamento deve-se a uma questão cultural: “os homens não choram, não se queixam, mas depois nas tentativas de suicídio são mais eficazes”, porque utilizam métodos “mais drásticos”.

A solidão, a depressão e os problemas familiares e afetivos representam dois terços dos apelos e as situações relacionados com o suicídio cinco a seis por cento. Nos primeiros anos, a depressão quase não aparecia nas estatísticas, porque “nem sequer era considerada doença”, mas foi ganhando peso, assim como as “chamadas silenciosas” que totalizam cerca de 20% dos telefonemas.

Quem está do outro lado da linha são normalmente pessoas que “já fizeram um grande esforço para ligar”, mas não conseguem falar. “Ligam uma vez, não conseguem, ligam a segunda, não conseguem, e às vezes à terceira, no final do turno, dizem: ‘já tentei ligar, mas não tinha coragem’”, contou.

Outras vezes são pessoas que já tinham partilhado a sua história com um voluntário e ligam à sua procura. “É difícil, mesmo ao telefone e em anonimato, contar a vida toda e se já o fizeram com uma pessoa que os ouviu e ajudou vêm à procura dessa voz".

Há ainda um grupo de habituais. São os que “ligam uma semana, ligam durante um mês, durante um ano, e nós questionamos: estamos a ajudar estas pessoas? Estamos. Não conseguimos resolver o problema que faz a pessoa ligar todos os dias, mas somos uma companhia, é uma forma de naquele dia terem alguém atento, que os respeita e que os ouve”, disse Francisco Paulino.

Na primeira década da linha, o número de chamadas anual situava-se nas 10 mil, hoje são 4.000.

Esta descida é explicada pelo aparecimento de várias linhas específicas, como de apoio à vítima ou aos idosos, que levou à dispersão dos apelos, mas também dos voluntários. A saída destes do serviço obrigou à redução do horário: “passámos de 15 para 12 horas e nos últimos dez anos só conseguimos garantir oito horas diárias”, lamentou.

Atualmente, 26 voluntários estão das 16:00 às 24:00 a atender quem precisa através dos números 213544545, 912802669, 963524660, e da Linha Verde gratuita (800209899).

Maria é a voluntária mais antiga. Há 20 anos que ouve e ajuda quem liga e nunca se cansou de dizer a frase com que todos começam os telefonemas - “SOS Voz Amiga, em que posso ajudar?” – à qual se segue um tempo de espera pelas palavras de quem está do outro lado.

“Há pessoas que ficam silenciosas, mas se calhar precisam desse tempo de silêncio para se sintonizarem com o que estão a fazer. Outras entram em choro, outras em gritos, outras dizem impropérios. Tudo é possível nesta relação. O voluntário percebe que as pessoas estão em desequilíbrio e, portanto, há que não julgar, não pressionar, ouvir, escutar com a voz do coração qualquer que seja o apelante”, disse a voluntária.

Ao longo dos anos, a antiga professora de Matemática foi-se apercebendo que ajudou a salvar vidas. “Às vezes é o próprio apelante que diz: adiei”, contou, recordando entre muitas uma história em que salvou uma pessoa que se encontrava junto a um precipício e que tinha decidido “acabar com tudo” naquele momento.

Isabel decidiu ser voluntária há quatro anos quando viu no Facebook que a Linha estava à procura de voluntários. “Foi talvez um impulso e resolvi responder, senti que podia ajudar”.

De voz tranquila e pausada, Isabel atende as chamadas que vão chegando ao serviço. Ainda hoje diz sentir o coração a bater quando o telefone toca. “É sempre uma incógnita”, estamos “sempre sem rede”.

“Pode vir uma situação extrema, pode vir um habitual, pode vir um jovem – hoje já nos surgem muitos jovens – uma pessoa mais idosa, vem de tudo. Por isso, o coração toca sempre quando o telefone toca”, disse esta voluntária.

Apesar da “carga ser pesada”, Isabel sente que está no “lugar certo”. “O serviço é rigoroso porque o que fazemos não é um voluntariado de entregar vestuário ou comida; é um voluntariado que vem de dentro de nós. Temos de estar em verdade quando vimos fazer este serviço. Por isso, ele é exigente”.

Apesar de não terem ‘feedback’ das chamadas, a forma como muitas terminam permite perceber que a intervenção foi “importante para a pessoa naquele momento” e que se criou uma relação. “No final agradecem por existirmos, por estarmos com eles, porque muitas vezes eles estão sozinhos, muito sozinhos”.



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