Novo regime de arborização ameaça sobrevivência da fileira do pinho

Novo regime de arborização ameaça sobrevivência da fileira do pinho

 

Ao Lusa   Nacional   21 de Dez de 2013, 12:12

O presidente da direção do centro Pinus alerta que o novo regime de arborização ameaça a sobrevivência da fileira do pinho e a diversidade da floresta portuguesa, representando um "brutal risco" ambiental, social e económico.

 

Em entrevista à agência Lusa, João Gonçalves disse estarem “em risco” perto de 60.000 empregos industriais diretos e 90% das empresas industriais da fileira florestal, pelos quais é responsável a fileira do pinho.

Neste contexto, defende a suspensão do decreto-lei, aprovado em Conselho de Ministros a 30 de maio e publicado em Diário da República a 19 de julho, “até que existam PROF [Planos Regionais de Ordenamento Florestal]” que assegurem um devido “equilíbrio” na floresta portuguesa.

Conforme recordou o presidente da associação que reúne os principais consumidores industriais da fileira do pinho, as metas dos PROF “foram suspensas há já quase três anos, com vista a uma revisão futura, mas ainda nem sequer está o concurso aberto”.

Ora, frisou, este trabalho deveria ter sido feito “antes de se avançar com uma lei tão permissiva como esta”.

Destinado a desburocratizar os processos de arborização, o decreto-lei n.º 96/2013 “mete no mesmo saco”, segundo João Gonçalves, todas as espécies florestais, desde as autóctones (como o pinheiro, o sobreiro, o carvalho ou o castanheiro), até às exóticas, como o eucalipto.

“Hoje um indivíduo para plantar uma espécie autóctone de lento crescimento tem as mesmas dificuldades que um indivíduo que quer plantar uma espécie de rápido crescimento, como o eucalipto. É como se todas as espécies fossem iguais, quer sejam em regimes altamente intensivos, quer em regimes de baixa intensidade”, explicou.

Ora se até agora, mesmo tendo a plantação de eucalipto uma carga administrativa mais pesada do que a das espécies autóctones, o peso daquela espécie exótica tem “crescido brutalmente”, com a nova lei (que facilita a plantação do eucalipto, mas dificulta a de autóctones) esta tendência será ainda mais acentuada, alertou.

“Mesmo com tanta burocracia e tantas autorizações o eucalipto é já a espécie dominante em Portugal, com mais de 900 mil hectares [e um crescimento de 11,7% entre 1995 e 2010]. Daqui a mais 10 anos, e agora sem nenhum tipo de dificuldades, como vamos estar?”, questiona o presidente do centro Pinus.

Já o pinheiro-bravo, que há menos de uma década chegou a ter 1,2 milhões de hectares plantados em Portugal, é hoje apenas a 3.ª espécie do país, abaixo dos 812 mil hectares do sobreiro e com uma redução de 37% da área plantada entre 1995 e 2010.

A este facto acresce, segundo João Gonçalves, o pinheiro ser “a única das três espécies que frequentemente não consegue recuperar após um incêndio”: “Uma vez o eucaliptal ou o montado estejam plantados, nem o fogo os tira de lá. Podem arder, mas no ano seguinte voltam a crescer. Já no pinheiro, área ardida é área perdida”, disse.

Destacando as “muitas preocupações” geradas pela nova legislação, que motivaram a apreciação parlamentar do decreto-lei, com a recente audição de várias dezenas de organizações, João Gonçalves diz esperar, agora, “que haja um bocadinho de sensatez” e se suspenda a lei.

“Espero que haja um bocadinho de sensatez e se ponha, pelo menos, algum travão até termos um plano de ordenamento. Espero que os deputados levem isto à Assembleia da República e fundamentem a necessidade de suspensão da lei até que haja um instrumento de regulação territorial”, disse.

Garantindo não ter "nenhuma luta contra as [espécies] exóticas", João Gonçalves diz estar a defender apenas "que a fileira do pinho não seja banida do território”.

“Tudo bem, vamos desburocratizar, mas mantendo alguma ordem. Se ficarmos um país com uma espécie só o nosso risco ambiental, social e económico é brutal”, concluiu.

 


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