Martin Scorsese apela à preservação da arte e mostra-se preocupado com futuro do cinema


 

Lusa/Ao online   Cultura e Social   20 de Out de 2018, 07:40

O realizador norte-americano Martin Scorsese apelou esta sexta feira, em Oviedo, à preservação da arte "num lugar de honra e estima", mostrando-se preocupado com o futuro do cinema pelo "menosprezo" que o rodeia, e a tecnologia que usa o artista.

No seu discurso, durante a entrega dos Prémios Princesa das Astúrias, em Oviedo, Espanha, Scorsese aceitou o galardão para as Artes em nome "da liberdade de encontrar a tranquilidade e a criatividade".

Sublinhou ainda a importância, na atualidade, "de não se deixar levar por categorias absurdas, juízos triviais, sistemas de qualificação e modas".

Essa liberdade criativa, acrescentou, "permite ver todo o caminho que conduz à revelação de tudo o que não se pode nomear, mas sentir e expressar através da arte".

O galardoado com o Prémio Princesa das Astúrias das Artes agradeceu a distinção da terra de Cervantes, Goya, Unamuno, Picasso, Lorca e Luis Buñuel, "um dos maiores artistas da história do cinema".

Esta distinção, apontou, "é uma honra para o cinema, uma arte que sempre está presente, o que permite aos filmes de Buñuel estarem mais vivos e sejam mais atuais do que a última mensagem de texto que recebemos no telemóvel".

Falou ainda nas oportunidades que os jovens hoje têm de fazer filmes, porque "basta um telemóvel para criar", o que não acontecia no início da carreira de Scorcese.

No entanto, confessou-se muito preocupado com o futuro do cinema, "numa sociedade em que a arte é sempre tão frágil, e se critica ou marginaliza, como se não fosse essencial à vida".

Na atualidade, apontou, o cinema converteu-se "numa corrente dentro de uma torrente de imagens em movimento que inundam as vidas das pessoas, sejam elas séries de televisão, vídeos de gatos ou didáticos, 'reality shows', o filme 'Lawrence da Arábia' ou reportagens".

Na sua opinião, tudo se converteu em "conteúdos", uma palavra que não lhe agrada, e que tem levado ao debate, nos Estados Unidos, sobre o uso do juízo crítico, a liberdade de pensamento e de ação na arte.

"Aí começa a verdadeira luta. A luta pelo espírito", salientou, defendendo que se deve conquistar a tecnologia atual "para que os artistas possam usar a tecnologia em vez de serem usados por ela".

Em intervenções que antecederam a entrega do Prémio, Martin Scorsese manifestou-se um defensor do formato clássico do cinema, projetado numa grande tela, em sala, mostrando preocupação por se viver uma época em que se questiona o futuro da chamada 7.ª arte, perante a revolução tecnológica e o surgimento de plataformas como Netflix ou a Amazon.

Em Oviedo, dois dias antes da cerimónia, Martin Scorsese criticou também a política de imigração da administração de Donald Trump, que considera ser "contra a ideia básica" do que são os Estados Unidos na sua génese. E lembrou que, se essa política tivesse começado a ser aplicada em 1909, hoje ele não estaria onde se encontra.

Realizador de "Taxi Driver" (1976), "Touro Enraivecido” (1980) e "A Idade da Inocência" (1993), Martin Scorsese soma 75 anos e uma carreira marcada por filmes como "Tudo Bons rapazes" (1990) e "Gangs de Nova Iorque” (2002).

"Silêncio" (2016), "O Lobo de Wall Street" (2013), "A Invenção de Hugo"(2011), "Kundun" (1997), "Casino" (1995), "A Última Tentação de Cristo" (1988), "A Cor do Dinheiro" (1986), "Nova Iorque Fora de Horas" (1985) e "O Rei da Comédia" (1982) são outros filmes no percurso de Scorsese, a par de documentais como as séries dedicadas ao cinema, à música popular e aos seus heróis, ou a publicações como a revista The New Yorker ("Uma Discussão com 50 Anos", 2013).

Scorsese foi distinguido com o Óscar de melhor realizador pelo filme "The Departed"/"Entre Inimigos", de 2006.



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