Açoriano Oriental
Maratona de leitura de "Moby Dick" lembra presença de baleeiros açorianos nos EUA

O arpoeiro de “Moby Dick”, de Herman Melville, era da ilha do Corvo e esta foi uma forma que o escritor encontrou de homenagear os baleeiros açorianos, com quem navegou, segundo um professor da Universidade dos Açores.

Maratona de leitura de "Moby Dick" lembra presença de baleeiros açorianos nos EUA

Autor: Lusa/AO online

“Este livro está muito relacionado com os Açores até pelas implicações de toda a aventura do navio. E não é sem mais nem menos que possui personagens açorianas”, declarou à agência Lusa o escritor, ensaísta e professor da Universidade dos Açores Vamberto Freitas.

O académico falava em antecipação da leitura, a realizar em 05 e 06 de janeiro, da obra de Melville e de outros títulos inspirados por "Moby Dick", que decorrerá na Horta, ilha do Faial, em formato de maratona luso-americana, com a duração de três horas e 45 minutos, em simultâneo com o Museu da Baleia de New Bedford, nos Estados Unidos, e o Museu de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, também nos Açores.

Esta vai ser a 22.ª maratona “Moby Dick” no museu norte-americano, que repete, em 2018, a leitura simultânea com o Museu de Angra do Heroísmo, que já ocorreu em janeiro deste ano.

Na época áurea da baleação, as embarcações norte-americanas recrutavam, pela boa reputação que tinham, açorianos, em particular nas ilhas das Flores e Corvo, para a pesca dos cetáceos.

Melville elogia mesmo na sua obra os açorianos: "Não poucos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde as naus de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente, para aumentar a tripulação com os corajosos camponeses destas ilhas rochosas".

"Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias", escreve Herman Melville, cujo romance não teve muito sucesso no seu lançamento, e que hoje se encontra entre os “clássicos” das letras norte-americanas, de acordo com a crítica e a investigação literária.

A bordo do navio baleeiro "Pequod" seguiam três açorianos, havendo um deles que passava a vida a cantar e a tocar viola.

Vamberto Freitas, que viveu na Califórnia, nos Estados Unidos, diz que a obra evidencia também a emigração açoriana para a América – uma emigração que, numa primeira fase, se realizou exatamente a partir incursão de homens do mar dos Açores, em baleeiras norte-americanas.

“Essa [emigração] começa nos finais do século XVIII e continua no século XIX. Os açorianos eram conhecidos pela sua habilidade na baleação. Além de os navios e baleeiros terem de parar no Faial para reabastecerem, também o faziam para recruta de baleeiros açorianos, começando a emigração açoriana, precisamente através dessa atividade”, destaca o escritor.

Vamberto Freitas afirma que os açorianos, a bordo das baleeiras, uma vez pagos pelas suas campanhas, desertavam na costa leste quando chegavam ao país para seguirem, na sua maioria, para a “corrida ao ouro” da Califórnia.

Para o escritor, o romance de Herman Melville, que conheceu os Açores, “retrata muito bem o destino americano dos açorianos”, tendo tido a oportunidade de partilhar com estes uma viagem que promoveu às ilhas do Pacífico.

No museu da baleação de New Bedford refere-se que o primeiro português numa baleeira norte-americana terá sido Joseph Swazey, no ano de 1765, tendo o primeiro capitão sido Frederick Joseph, natural da ilha do Faial.

O crítico literário considera que este “é o primeiro romance americano que faz do navio uma metáfora da própria América”. Para Vamberto de Freitas, Melville é o “primeiro escritor que vê no país a diversidade das nações que ou triunfam ou vão juntas ao fundo”.

O mesmo autor exemplificou que a tripulação do navio é oriunda de variadíssimas zonas geográficas, como a França, Islândia, Ilha de Man, Holanda, Sicília, Malta, Chile, Dinamarca, Açores, Índia, Inglaterra, Espanha e Irlanda.

“O romance 'Moby Dick' não é sobre baleias ou um cachalote branco atrás do qual vai o louco do capitão Ahab, mas a natureza do próprio poder americano, da vaidade americana e da ideia de que o homem pode dominar tudo e todos, incluindo a natureza, acabando por se afundar”, conclui o professor universitário.


 
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