Famílias "estrangeiradas" coabitam desde tempos remotos na Lousã


 

Lusa / AO online   Nacional   24 de Ago de 2008, 12:10

Portugueses “estrangeirados”, com alcunhas e apelidos europeístas – Alemão, Espanhol, Francês e Polaco – coabitam desde tempos imemoriais na Lousã, onde labora uma fábrica de papel há 300 anos fundada… por um italiano.
    Reza uma versão familiar, que passa de boca em boca há muitas gerações, que os Polacos descendem de um técnico da Polónia que veio trabalhar para a Fábrica de Papel do Penedo, provavelmente antes de 1900.

    João Francês, na verdade, chama-se João Carvalho. Mas, "na Lousã, ninguém me conhece assim”, contou à Agência Lusa.

    O seu pai era Adelino Carvalho, que após a I Grande Guerra Mundial (1914-1918) emigrou para a França.

    Quando regressou a Portugal, com a língua francesa na bagagem, foi rebaptizado por vizinhos e companheiros de trabalho, na antiga Companhia Eléctrica das Beiras (CEB).

    “Lá vem o Ti Adelino Francês mudar as lâmpadas fundidas”, murmuravam.

    Na sua bicicleta, com uma escada comprida ao ombro, o homem percorria as povoações. Subia aos postes para devolver a iluminação pública aos concidadãos.

    Em 1973, João Francês decide conhecer a Alemanha. Casa com uma alemã e lá fica. Têm três filhos e agora vivem entre Munique e Lousã, onde recuperaram uma casa rural.

    Um dia, o casal ia receber uns amigos alemães. Estando eles já em Poiares, a 12 quilómetros da Lousã, a esposa recomenda-lhes pelo telefone: “Quando chegarem cá, perguntem pelo João Francês”.

    O filho do guarda-fios da CEB duvidou que, tantos anos após ter emigrado, a alcunha pudesse ainda ajudar à sua localização. “Dez minutos depois, estavam a bater-nos à porta!”, sorri.

    O primitivo engenho do papel, construído no sopé da serra da Lousã, em 1710, foi impulsionado pelo genovês José Maria Ottone. E, através dos séculos, a fábrica cresceu e empregou milhares de operários serranos.

    Mas, o empresário recorreu também a mão-de-obra especializada de países da Europa onde a indústria papeleira estava mais desenvolvida.

    Terá sido o caso dos ancestrais dos Erse (Herz, na grafia original alemã), Henggeler (oriundos da Suíça) e Polaco, provável epíteto que integrou mais tarde os nomes legais.

    No livro “A Lousã e o seu concelho”, o pedagogo Álvaro Viana de Lemos faz uma caracterização da população local, aludindo a algumas das antigas minorias étnicas, hoje diluídas na sociedade.

    “Dos operários estrangeiros que vieram para a Fábrica do Penedo, só os germânicos Hertz trouxeram um tipo mais característico. Os outros, sobretudo de origem italiana, depressa se confundiram sem deixarem grandes vestígios nos seus descendentes”, refere.

    O bate-chapas Adelino Gomes é conhecido por Espanhol na oficina onde trabalha há largos anos.

    O Espanhol tem orgulho na alcunha, embora não vibre com ela, como faz o Francês, quando recorda os sacrifícios que os pais fizeram para ter os filhos a estudar (ele e três irmãs, uma das quais, estudante de Filosofia na Universidade de Coimbra, se exilou por motivos políticos nos anos 60, precisamente em Paris).

    Adelino Gomes participou há alguns anos num congresso sindical de metalúrgicos, no Porto. Na hora da confraternização, não tardou a marcar pontos entre os camaradas: “Ó Espanhol, isto. Ó Espanhol, aquilo…”

    Não tem a certeza de onde provém o cognome. Ouviu sempre dizer que se deve a uma bisavó que andou por Espanha.

    Manuel Duarte é dono da Sapataria Alemão, tal como seus primos detêm o Talho Alemão. “O meu avô paterno era um homem alto. Passou a ser mais conhecido por Alemão”, explica.

    Em honra da linhagem, deu à firma uma designação já com cotação comercial no concelho.

    Graça Polaco, bacharel em Comunicação, criou uma empresa de conteúdos que registou como Letra Zart.

    A palavra polaca “zart” significa “graça”. “Já me chamavam a Polaco na escola”, graceja a jovem.

    Também divertido, seu tio José Polaco, fotógrafo reformado, mostra uma colecção de pintura sobre fotos, da sua autoria.

    A nora está a fazer um estudo da árvore genealógica dos Polaco e o artista especula sobre as origens do apelido.

    Sob o olhar cúmplice de Adelino Espanhol, João Francês desata a rir e abraça José Polaco. Este exibe a foto do tio, com o mesmo nome e a mesma profissão, que outrora abalou para a América.

    O parente Milton, dono da drogaria Polaco, também emigrou para a pátria do Tio Sam.

    No futuro, poderão ser chamados de “Americanos” mas continuarão a ser sempre Polacos. Pelo menos na Lousã.

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