Enfermeiros enviam carta aos açorianos lamentando greve que tentaram evitar

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) nos Açores enviou uma carta aberta aos açorianos onde pede desculpa antecipada e lamenta o recurso à greve em tempo de pandemia covid-19, advogando que não restava outra alternativa.



“A Direção Regional dos Açores do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses lamenta e antecipadamente pede desculpa a todos os açorianos, principalmente aos utilizadores do Serviço Regional de Saúde, pelos transtornos que venham a ser causados nos próximos dias 28 e 29 de setembro”, lê-se na carta hoje divulgada.

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses nos Açores marcou uma paralisação para segunda e terça-feira para reivindicar a contagem integral do tempo de serviço.

Em causa está a contagem do tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira e uma divergência entre o Governo açoriano e o sindicato sobre o número de anos a contabilizar.

“Não queríamos esta greve, muito menos no atual contexto, mas não há outra alternativa. Não nos podemos deixar maltratar”, disse o presidente da direção regional dos Açores do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, Francisco Branco, em declarações à agência Lusa.

Na carta, assinada pelo dirigente sindical, o SEP sublinha que "não foi fácil a decisão", mas "infelizmente, a postura da Secretária Regional da Saúde, corroborada pelo Presidente do Governo, não deixa outra alternativa a não ser a paralisação como forma de protesto e desagrado face à discriminação com que têm tratado os enfermeiros".

"Temos perfeita consciência que nos tempos que correm, uma paralisação de profissionais de saúde acarreta contratempos e ansiedades para todos os que precisam de recorrer aos serviços de saúde", acrescenta a carta aberta, onde o sindicato garante tudo ter feito para "evitar" a greve.

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses nos Açores lembra que as "negociações" com o executivo estenderam-se "durante dois anos", lamentando que "durante esse tempo nunca foi possível perceber a posição nem a fundamentação do governo perante as questões colocadas".

"Aliás, em várias das reuniões foi perfeitamente percetível que quem representava o governo não tinha aval político para decidir o que quer que seja", aponta.

A carta deixa "uma síntese dos dois problemas fundamentais" que levam à paralisação para que "todos" os açorianos "percebam" os motivos da greve.

Segundo o sindicato, "desde 2007 que os três hospitais da região só admitem ao serviço enfermeiros em Contrato Individual de Trabalho e os enfermeiros que na altura não tinham 3 anos de casa passaram também para contrato privado", mas estes profissionais, "face ao contexto que se desencadeou (crise económica e congelamento dos salários), nunca deixaram de vencer pelo escalão remuneratório mais baixo da carreira de enfermagem".

"Chegado o momento em que a Lei do Orçamento do Estado de 2018 descongela as carreiras e permite considerar o tempo congelado para efeitos de desenvolvimento salarial, o Governo Regional decide que todo o tempo de serviço destes enfermeiros anterior a 2019, não será considerado para enquadrar o seu vencimento", explica a carta.

Francisco Branco especificou à Lusa que, nalguns casos, aquela decisão "anula", e "apaga da vida dos enfermeiros, 15 anos de serviço e coloca estes colegas a ganhar o mesmo que quem entra para a profissão em 2020".

O sindicato alega ainda que dois terços dos enfermeiros da função pública correm o risco de perder cinco anos de serviço para efeitos de progressão na carreira, porque o executivo açoriano só admite contabilizar o tempo a partir de 2014 para quem teve valorizações salariais em 2013.

"Apesar do congelamento nacional, Carlos César (antigo presidente do Governo regional socialista) no seu último mandato repôs o tempo de serviço 2004/2008 aos funcionários públicos da administração regional. Sem qualquer fundamentação o Governo Regional decide que para estes enfermeiros só será considerado o tempo de serviço a partir de 2014, e não a partir de 2011, como manda a Lei, resultando na diminuição de uma posição remuneratória para o resto das suas vidas profissionais", aponta a carta.

Com eleições legislativas regionais em 25 de outubro, e estando o mandato do atual executivo regional "a acabar", o sindicato diz que "perante tamanha desfaçatez não podem os enfermeiros ficar indiferentes e deixar que este Governo desvalorize o valor económico do trabalho" daqueles profissionais.

"Por tudo isto, qualquer constrangimento ou desconforto que possa ocorrer durante a greve, devem os cidadãos imputar a responsabilidade, em primeira mão à Secretária Regional da Saúde, bem como ao Presidente do Governo Regional", sublinha a carta.


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Greve geral

O Governo Regional dos Açores esclareceu que “não fixou quaisquer serviços mínimos” no dia da greve geral, ao contrário do que foi referido pela Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais (FNSTFPS)