Açoriano Oriental
Emanuel Félix: Filho das letras e um dos pais do Urban Sketching na ilha Terceira

Herdou do pai o nome e o amor pelas artes. Mas foram os traços e as cores que lhe roubaram o coração. Emanuel Félix é um dos impulsionadores do “Urban Sketching” na ilha Terceira há cerca de uma década.

O facto de ser filho do escritor Emanuel Félix deu-lhe o privilégio de crescer com as artes nos corredores lá de casa. O artista terceirense esteve à conversa com o Açoriano Oriental.



Autor: Tatiana Ourique / Açoriano Oriental

Emanuel Félix Lopes da Silva nasceu em Angra do Heroísmo a 10 de fevereiro de 1959.

Fez formação em restauro de pintura de cavalete e escultura polícroma tendo exercido funções ao longo de cinco anos no então Centro de Estudo, Conservação e Restauro de Obras de Arte dos Açores, em Angra do Heroísmo, onde, paralelamente, se dedicou ao desenho de arquitetura e ao design. É autor de inúmeros cartazes, catálogos, logótipos, cartoons, capas e ilustrações de livros.

Autor de diversas intervenções urbanas e projetos de arquitetura, nomeadamente para câmaras municipais dos Açores.

Tem-se dedicado ultimamente ao urban sketching, individualmente e no âmbito das atividades do grupo local, de que é membro e cofundador.


Açoriano Oriental - Cresceu no meio da literatura, mas foram as artes plásticas que o prenderam. Como foi esta gestão?

Emanuel Félix- Cresci, efetivamente, com um pai poeta e escritor, no meio de alguns milhares de livros, muitos deles sobre as diversas formas de arte, mas também de alguns quadros, nomeadamente desenho e pintura. Mas esta pergunta (e obrigado por isso!) fez-me pensar numa coisa em que não tinha pensado antes, pelo menos conscientemente: era eu muito pequeno ainda quando o meu pai e o pintor Rogério Silva fundaram, no rés do chão da residência deste, na Rua Pêro Anes do Canto, em Angra do Heroísmo, uma galeria de Arte. Chamava-se "Gávea". Recordo as inúmeras exposições que nessa época tive a oportunidade de ver e que, reconheço agora, ter-me-ão despoletado a vontade de riscar e rabiscar que se mantém até hoje.

 

A.O.- Espera-se que o filho de um escritor seja também ele escritor ou a aceitação de quem o rodeia foi natural?

E.F.- Não creio que seja necessariamente assim, não se tratando, neste caso, de uma atividade profissional. Mais depressa se espera que o filho de um médico seja também ele médico, ou de um advogado ou de um carpinteiro, etc. Nunca tive jeito para a escrita, sobretudo para a poesia, (essa faceta herdou-a a minha irmã) e também nunca senti qualquer tipo de pressão externa ou interna para ser o que quer que fosse. Tive a sorte de me proporcionarem em pequenos livros para ler, material de escrita, mas também de desenho, de pintura, etc. Tive o caminho livre para optar pelo que quisesse.

 

A.O.- As artes viveram sempre nos corredores lá de casa?

E.F.- A minha infância e a minha adolescência foram vividas num ambiente de intensa diversidade cultural. A casa dos meus pais, não obstante a exiguidade do espaço, foi um verdadeiro ponto de encontro de escritores, poetas, pintores, escultores, músicos, etc. Ter o grande Carlos Paredes a tocar na sala para o meu pai, acompanhar o nascimento de canções de Vasco Pereira da Costa e Carlos Alberto Moniz, ouvir tocar e cantar a Maria do Amparo, ouvir poesia de Carlos Faria, peças de Teatro do dramaturgo (e pintor) Norberto Ávila, José Orlando Bretão, textos do Dias de Melo, lidos pelos próprios, entre muitos outros como o Álamo Oliveira, João de Melo, Vamberto Freitas, Onésimo Teotónio de Almeida, Marcolino Candeias, Rui Duarte Rodrigues, ver desenhar lá em casa o José Lúcio Lima, David de Almeida, José Pádua, privar com o pintor Tomás Vieira, com o escultor Canto da Maia, entrar em casa e cumprimentar José Fonseca e Costa e José Cardoso Pires, cruzar-me com Paulo Gouveia, José Manuel Fernandes, referências da Arquitetura, para citar apenas alguns, não pode deixar de exercer uma forte influência na minha maneira de pensar e modo de ver o mundo à minha volta.

 

A.O.-Como é que nasce a paixão pelo desenho e pela pintura?

E.F- Nasceu assim, um pouco naturalmente como lhe disse. Sempre andei com os bolsos cheios de lápis e de canetas e qualquer pedaço de papel que me aparecesse pela frente, nem que fosse a toalha de mesa de um qualquer restaurante, servia para "exorcizar" o novelo de rabiscos que se ia formando cá dentro. Organizá-los e ordená-los é que foi sempre o Diabo!

 

A.O.-Quais foram as suas exposições mais marcantes?

E.F.- Comecei por expor alguns trabalhos coletivamente com artistas locais. Mais recentemente, "espicaçado" pela minha amiga Verónica Bettencourt, que inclusivamente se encarregou da logística necessária, expus individualmente em diversos espaços da cidade de Angra e em Lisboa, na Casa dos Açores. Tive também o gosto de expor na Carmina Galeria , na Biblioteca Pública Luís da Silva Ribeiro e tenho, neste momento, uma exposição, sobretudo de esboços, no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo.

Há, no entanto, uma exposição que foi especial para mim, uma vez mais pela mão da Verónica, na galeria da Delegação do Turismo em Angra, intitulada "Riscos, Rabiscos e Asteriscos". Os riscos e rabiscos eram meus e do meu filho mais novo, Pedro Félix, na altura com 8 anos de idade e os asteriscos em alusão aos textos, também expostos, do meu filho João Félix.

 

A.O. -Como e quando surgem os Urban Sketchers?

E.F.- Há pouco mais de uma década, o jornalista e ilustrador do Seatle Times, Gabriel Campanário, nascido em Barcelona, após ter publicado desenhos seus como ilustração de uma sua reportagem (fica a dica!), recebeu uma avalanche de pedidos de desenhadores de diário gráfico para verem publicados alguns dos seus desenhos. Selecionou e convidou uma centena deles. O resultado foi de tal forma "pandémico" que um pouco por todo o mundo surgiram tantos grupos que resolveu criar estatutos próprios e redigir um manifesto cujo preceituado devemos fazer por cumprir. Como os Açores ficam no mundo, não podiam ficar fora deste movimento. Resolvi convidar dois amigos (Manuel Meneses Martins e Rui Messias) para iniciarmos um grupo e nos podermos registar nacional e internacionalmente. Tivemos o apoio importante de duas pessoas conhecedoras do funcionamento deste movimento: da Rosa Chaves, designer de comunicação, vinda de Torres Vedras onde existe uma grande comunidade de Urban Sketchers e do Paulo Brilhante, da ilha de São Miguel, que me faz o favor de ser meu amigo, e é, para mim, um excelente exemplo do que é um verdadeiro Urban Sketcher, quer pela sua enorme qualidade, quer pela persistência de desenhar todos os dias.

Paralelamente nascia em Ponta Delgada um grupo de Urban Sketchers do qual recebi o honroso convite para me associar. A descontinuidade territorial e a consequente impossibilidade de participarmos nos encontros com a assiduidade com que acontecem, foi determinante para que, na Terceira, tivéssemos o nosso grupo.

 

A.O. -O que é o "Urban Sketching"?

E.F.- A prática do Urban Sketching consiste na observação e registo gráfico, no espaço e no tempo, normalmente em cadernos, no local e com o máximo de fidelidade, de tudo o que nos possa despertar interesse, se possível contar uma história. Fidelidade aqui, não significa rigor fotográfico, nem geométrico, nem nada que se pareça. Significa que se está um carro, uma pessoa, etc. no cenário que queremos desenhar, vai ficar registado. Ao contrário do que, muitas vezes o nome sugere, os Urban Sketchers não desenham só edifícios ou nos centros urbanos. Desenhamos nos exteriores, nos interiores, nas nossas casas, nos espaços públicos, nos encontros do grupo ou, sempre que nos apetecer, individualmente. Não é por acaso que o lema dos urban sketchers é "mostramos o mundo, um desenho de cada vez".

 

A.O. -Atualmente qual é a realidade do grupo?

E.F.- O grupo, neste momento, vive uma fase muito interessante. Temos encontros de quinze em quinze dias e temos tido sempre um número satisfatório de participantes, muito graças ao Manuel Meneses Martins, que tem agendado e divulgado os sucessivos encontros, organizado e mantido a página sempre atualizada, à presença sempre que é possível dos seus membros e ao surgimento recente de novos participantes. Há já algum tempo tem-nos acompanhado o excelente fotógrafo Fernando Pavão, que, além de nos honrar com a sua presença, tem feito a cobertura dos nossos encontros e enriquecido a nossa página com verdadeiras obras de arte.

 

A.O.- Há talento para esta arte na ilha Terceira?

E.F.- Há talento na ilha Terceira, como em qualquer parte do mundo. Há talento em qualquer um de nós. Não é necessário nenhum requisito especial, apenas gostar de desenhar. Não é preciso ser-se artista para se ser urbansketcher, a Arte pressupõe uma criatividade que não é exigida nesta atividade. O diário gráfico é como o diário escrito, não é necessário ser-se escritor ou poeta para escrever dia a dia num caderno. Todos têm um traço seu como têm uma caligrafia e todos têm uma maneira própria de ver as coisas.

 

A.O.- Costumam interagir com Urban Sketchers de outras partes do país?

E.F.- Sim. Do país e do mundo. As redes sociais vieram potenciar esses intercâmbios, dando-nos a possibilidade de ver o que os outros fazem e mostrar o que andamos a fazer. Há muitos grupos e há muitas páginas abertas a todos os que nelas queiram partilhar os seus trabalhos. Além disso, sempre que algum de nós se desloca a um local onde haja um ou mais grupos, é normal participar dos seus encontros e desenhar em conjunto. Também tem acontecido juntarem-se a nós quer portugueses, quer estrangeiros por saberem da nossa existência. Já tive o gosto de desenhar na Terceira com a Alexandra Baptista e com a Sofia Carolina Botelho, com a Graça Viveiros e várias vezes com o Paulo Brilhante. A convite do Paulo e da Susana Teles Margarido, do grupo de desenhadores de rua "Vadios Azores Sketchers", estive, em janeiro deste ano, na ilha de São Miguel onde durante dois dias andamos a desenhar juntos, partilhando experiências e vivendo momentos de muito agradável convívio.

 

A.O.- Qual (ou quais) o (s) Desenho (s) que mais o marcou?

E.F.- Marcam-nos sempre os desenhos que achamos que nos saem bem, assim como os que fazemos associados a momentos especiais. Mas há um desenho de que gosto especialmente. É de 1979 e representa o casario à beira do percurso que fazia muitas vezes entre a casa onde vivia e a casa dos meus avós paternos. Pouco tempo depois havia de ficar muito destruído em consequência do sismo de janeiro de 1980. Foi talvez meu primeiro "Urban Sketch" e é o desenho que tenho hoje na capa de perfil da minha página pessoal do Facebook.

 

A.O.- Tecnicamente qual é o seu melhor desenho?

E.F. - O meu melhor desenho será sempre aquele que diga mais de mim do que do objeto desenhado. Será aquele que pelo traço, pelas características, pela verdade, se perceba que sou eu quem está do outro lado.  

 

A.O.- Que sonhos tem para os urban sketchers da ilha Terceira?

E.F.- Espero e desejo que o grupo urban sketchers da ilha Terceira continue a crescer no número de membros e de participantes, que mantenha, pelo menos, a dinâmica que atingiu neste seu estado, diria, adulto e que, no fundo, seja capaz de continuar a atrair sobretudo aqueles que dizem erradamente "eu não sei desenhar".


 
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